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32ª RODADA DO CAMPEONATO ESPANHOL

O Real Madrid vai do trivial ao requintado

Um gol de Illarra ativa a equipe do técnico Ancelotti e mantém os merengues vivos na luta pelo título

Bale arremata sob a marcação de dois rivais. Ampliar foto
Bale arremata sob a marcação de dois rivais. Getty Images

Há um território inóspito em que as equipes com máximas aspirações se movem como sardinhas no campo. É o território do trivial, que transforma os jogadores de futebol em seres anônimos que perambulam pelo gramado como ônibus na segunda-feira de manhã, com o motorista sonolento e os passageiros dormindo. Esse era o território do Real Madrid, jogando ao ritmo de Xabi Alonso e deixando que Modric desenhasse, pintasse, limpasse e assinasse todo o quadro ofensivo. Um território que oferecia à Real Sociedad as melhores condições para pintar sua casa a seu gosto. Com Canales de falso nove e com Vela e Griezmann como facas ansiosas para cortas manteiga, se enfrentavam dois olhares muito distintos da partida. Do Madrid se via as sobrancelhas, sinal de um olhar maligno, e da Sociedade se notava a alegria no rosto de quem olha o horizonte no mar. Ao final da partida, o olhar do Madrid era limpo e o da Sociedad escuro como uma noite de inverno. Entre eles, quatro gols que tiraram um do trivial e colocaram o outro no túnel do tempo.

REAL SOCIEDAD, 0; REAL MADRID, 4

Real Sociedad: Bravo; Carlos Martínez, Mikel González (Rubén Pardo, min. 74), Iñigo Martínez, José Ángel (Ansotegi, min. 17); Zurutuza (Agirretxe, min. 62), Markel Bergara, Elustondo, Canales; Vela e Griezmann. Não utilizados: Zubikarai; Ros, Castro e Seferovic.

Real Madrid: Diego López; Carvajal, Pepe, Sergio Ramos, Nacho; Modric, Xabi Alonso (Casemiro, min. 87), Illarramendi; Bale (Morata, min. 86), Isco (Di María, min. 81) e Benzema. Não utilizados: Casillas; Varane, Coentrão e Willian José.

Gols: 0 x 1, min. 44, Illarramendi; 0 x 2, min. 65, Bale; 0 x 3, min. 85, Pepe; 0 x 4, min. 88, Morata.

Árbitro: Hernández-Hernández. Mostrou cartão amarelo para Xabi Alonso, Mikel González, Illarramendi e Iñigo Martínez.

Cerca de 30.000 espectadores no Anoeta.

O tráfego era fluente, mas sem graça, como se houvesse sinais de trânsito em campo. O da Sociedad era colocado no vermelho por Markel Bergara, puro trabalhador, sabedoria para evitar que Modric pudesse cavalgar, pensar, atuar. O croata tinha um décimo de segundo para fazer tudo ao mesmo tempo. O vermelho do Real Madrid era acesso por Illarramendi, mais preocupado com a garagem de sua equipe do que com o portão de saída. Ainda assim, Vela circulava com piloto automático, porque poucos jogadores são capazes de circular com sua velocidade olhando o jogo e com a bola costurada nos pés. Por isso, a Sociedade assustou quando o Madrid cochilava em estado demasiado de autocomplacência parecido à indiferença.

Mas qualquer pedra fura um sapato. Quando o Madrid ainda bocejava, o lateral-esquerdo da Real Sociedad José Ángel arrancou no dois contra um pelo lado do campo. Coisas do tráfego. Podia parecer lanternagem e pintura, mas o dano era maior. Arrasate colocou em campo outro zagueiro, Ansotegi, e improvisou Mikel González, experiência pura, no lado esquerdo, com vários danos colaterais: González é zagueiro e ainda mais destro, o que reduzia o poder defensivo da Sociedad e o ofensivo passava a inexistir por esse setor do campo. Automaticamente Bale trocou de lado para combater as subidas de Carlos Martínez ou para jogar nas suas costas. O que parecia uma anedota se converteu em um argumento, porque rapidamente o Madrid descobriu que havia vias de serviço na autoestrada do Anoeta.

A Sociedad havia vivido alguns momentos de glória por uma jogada de Vela (anulada por impedimento mas defendida por Diego López) e por uma cabeçada de Griezmann. Parecia pouca gasolina para seu passeio de luxo e um prêmio pequeno para sua ambição. Mas a lesão de José Angel, sem reserva no banco, deixou o carro sem copiloto. Quase no intervalo, quando parecia que tudo estava em espera, Benzema caiu pela ponta, quebrou a defesa, chutou, Bravo defendeu e apareceu... Illarramendi, que era vaiado insistentemente por uma parte do Anoeta desde o princípio até o fim. Castigo duplo para a Sociedad, que entendia como injusta a ultrapassagem e que acima tinha um nome próprio muito conhecido.

Um acidente, o de José Ángel, havia mudado a partida e o volante deu ao Madrid o controle do carro. Ninguém entendeu o que aconteceu, mas o gol tirou o Madrid do trivial. Estava preso numa nuvem, quando de repente viu-se sujeito a um gol de Illarramendi, ainda vivo na Liga, apesar das vitórias de Atlético e Barcelona, e com uma partida a desfrutar em vez de uma partida por sofrer. Ancelotti viu seus planos se cumprirem: manter o pulso da Liga e descansar os jogadores em que mais confia para Dortmund, uma vez que os alemães são sempre imprevisíveis. Nacho, Illarramendi e Isco deram um alívio ao treinador. Ainda mais quando Claudio Bravo concedeu um presente a Bale para que marcasse após seu tiro de meta descuidado. Antes, o Madrid já havia tropeçado duas vezes com a trave quando já estava resolvido na partida. E Pepe marcou em um escanteio e Morata fez mais um em seu único toque na bola. O trivial, ao final, ficou só no princípio.

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