O futebol uruguaio, descabeçado a 70 dias da Copa do Mundo

A federação se demite em massa diante a escalada da violência nos estádios e a FIFA investiga se o Governo propiciou a ação, o que poderia chegar a excluir a seleção do torneio

García, do Nacional, e Bernardi, do Newell's, na partida da Libertadores em que foram registrados os incidentes entre torcedores e a polícia.
García, do Nacional, e Bernardi, do Newell's, na partida da Libertadores em que foram registrados os incidentes entre torcedores e a polícia.ANDRES STAPFF / Reuters

A Associação Uruguaia de Futebol (AUF) se demitiu em massa nesta segunda-feira depois de uma rápida escalada das tensões que rodeiam há alguns meses o futebol uruguaio, e que levaram ao presidente do Governo, José Mujica, a retirar a proteção policial dos estádios do Peñarol e Nacional (os maiores clubes do país, ambos de Montevidéu) nas partidas do campeonato no fim de semana passado. Uma polêmica que se agrava pela proximidade da Copa do Mundo e a possibilidade, remota, de que a FIFA possa suspender o Uruguai se for comprovado que o Governo influenciou na saída dos dirigentes da federação.

Os incidentes da quarta-feira 26, durante uma partida da Copa Libertadores entre o Nacional e a equipe argentina Newell’s Old Boys, com um saldo de dezenas de feridos (entre torcedores e policiais) e quarenta presos, esgotaram a paciência do Executivo uruguaio. “A intenção do Governo não foi para parar o futebol, porque não pode fazê-lo e isso nem lhe interessa. Mas temos que frear a violência, ou a enfatizar essa freada, pelo menos, falando entre todos”, explicou o secretário da Presidência, Homero Guerrero.

Na sexta-feira passada, Mujica convocou o ainda presidente da Federação, Sebastián Bauzá, e os presidentes do Peñarol e do Nacional, Pedro Damiani e Eduardo Ache, respetivamente, para lhes transmitir que as forças policiais passariam a cuidar unicamente da segurança nas bilheterias dos estádios, enquanto seriam os próprios clubes os responsáveis pela segurança de de seus recintos. Os clubes amargaram então com a suspensão do torneio, mas a partida do sábado ocorreu não sem que cessassem os rumores de paralisação. A Mutual de Futebolistas, um sindicato que agrupa os jogadores, alegou nesse mesmo dia que seus filiados não podiam disputar as partidas sem as garantias de segurança suficientes, e a Federação acenou ao pedido de suspender, entre outros, o jogo Miramar-Peñarol do domingo. As suspeitas do Nacional (que perdeu no sábado por 1 a 0 contra o Liverpool) de que por trás da suspensão se escondia uma artimanha para beneficiar seu arquirrival, o Peñarol, para que tivesse mais dias de descanso de olho na Copa Libertadores, acabaram com qualquer possibilidade de consenso.

O Governo quer que os clubes se responsabilizem pela segurança dos estádios

Diante das pressões exercidas, na segunda-feira pela manhã Bauzá e os outros membros do Comitê Executivo da AUF apresentaram a demissão. “Os fatos de pública notoriedade ocorridos nos últimos tempos demonstram a necessidade de dar um passo ao quatro cantos e permitir que outras versões políticas outorguem governabilidade ao Futebol”, explicou o Conselho Executivo no documento publicado em seu site. As diferenças entre clubes e a federação se agravaram há várias semanas durante as negociações pelos direitos de televisionar as partidas da seleção celeste a partir de 2016, quando começa a classificação para a Copa do Mundo de 2018. Nesta terça-feira, o presidente Mujica tinha previsto se reunir com os dirigentes dos clubes, a federação e a associação de jogadores para resolver a situação. O artigo 67 do código da FIFA estabelece que os clubes são responsáveis pela conduta imprópria de suas torcidas e são passíveis de multas e outras punições mais severas “em caso de confrontos”.

O palco se complica ainda mais pela proximidade do Mundial e a possibilidade de que a FIFA possa suspender o Uruguai, caso se comprove alguma influência do Governo nacional na demissão dos dirigentes da federação. Tanto porta-vozes de vários clubes como alguns jornais de Montevidéu apontavam ontem para esta possibilidade, descartada pelo próprio Mujica horas depois: “Não acho que a FIFA nos suspenda". Por sua vez, o presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), Eugenio Figueredo, disse à Reuters: “Não acho que ocorra nenhum risco a participação no Mundial” do Uruguai, um país de três milhões e meio de habitantes, cuja seleção ficou em quarto lugar no Mundial da África do Sul de 2010 e foi campeão da Copa América em 2011. Um porta-voz da FIFA recusou a possibilidade de fazer comentários a este jornal “por não ter recebido ainda confirmação oficial” sobre a situação da federação uruguaia.

A partida que o Peñarol ia disputar no domingo passado foi suspensa

A medida de retirar a Polícia dos principais estádios do país parece ser apoiada por um amplo setor da população uruguaia, segundo as informações da imprensa local. O Executivo propõe adquirir câmeras de vídeo com identificação facial e aprovar o sistema de penalizações recomendado pela FIFA para que se tirem pontos dos clubes cujas torcidas protagonizem brigas. A crise do futebol uruguaio não é nova e tem pontos de contato com o problema endêmico do futebol argentino, na outra orla do Rio da Prata, açoitado por episódios de violência crônica, protagonizadas pelas mãos dos barrabravas e por acusações generalizadas de corrupção, e onde a torcida da equipe visitante é proibida de assistir às partidas. “Uma arquibancada com três mil pessoas não é só pulsação. É também um mercado formidável para realizar todo tipo de transações ilegais”, escrevia ontem no diário uruguaio El País o colunista Gerardo Sotelo. O próprio ministro do Interior, Eduardo Bonomi, se referiu recentemente às brigas dos barrabravas  nas cercanias dos estádios e assegurou que tinha interesses relacionados com o merchandising, o negócio dos estacionamentos, o narcotráfico e a prostituição. Seu subsecretário, Jorge Vázquez, qualificou a medida governamental de “uma sacudida” […] “É uma chamada de atenção, isto é: vamos assumir a responsabilidade”.