A FIFA e o Brasil assumem “riscos de última hora” pelos atrasos

Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, tentou tranquilizar sobre a “preocupante” demora apresentada a 77 dias da Copa

“Sempre nos criticam por falar só dos estádios, mas lembro que sem estádios não haverá Mundial”, afirmou nesta manhã o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, em uma abarrotada sala de imprensa, onde tentou tranquilizar a imprensa sobre o “preocupante” atraso apresentada a 77 dias do Mundial em metade das obras dos estádios. O dirigente suíço quis ressaltar os “grandes avanços” registrados em suas reuniões desta semana. Ao responder às perguntas dos jornalistas, no entanto, afirmou que “estamos atrasados” e que este não cumprimento dos prazos poderia implicar “riscos de última hora” pela “falta de tempo para fazer testes nas instalações”.

Rodeado pelo ministro dos Esportes, Aldo Rebelo (“faltam muito esforço e muito trabalho”, repetiu em várias ocasiões), por alguns altos funcionários da FIFA e pelos ex-jogadores e conselheiros do Comitê Organizador Ronaldo e Bebeto, o núcleo de Valcke (que começou com meia hora de atraso tarde sua explicação, em coerência com a temática) foi esclarecer o “progresso” na solução dos três grandes obstáculos na organização da Copa.

Como detalhou o secretário-executivo do Ministério dos Esportes, Luis Fernandes: a falta de financiamento para terminar o estádio Beira-Rio, em Porto Alegre (resolvida nesta semana com uma isenção fiscal às empresas construtoras); a negativa do Corinthians em assumir o custo das instalações temporárias de seu estádio, Itaquerão (em São Paulo, onde será disputada a partida inicial entre Brasil e Croácia), ainda não foi solucionada; e os “meios extraordinários” de ordem financeira para “fazer viável” a construção do estádio da Arena de Baixada, em Curitiba.

“Estamos fazendo um grande trabalho”, disse Valcke, “mas o tempo voa […] e ainda há muito a fazer nos doze estádios do Mundial”. O compromisso do Brasil com a FIFA era o término das obras no dia 31 de dezembro de 2013.

Vacke tratou em todo momento de evitar as críticas disparadas em janeiro por Joseph Blatter, presidente da FIFA, contra o Governo brasileiro e buscou mostrar uma imagem de unidade com as autoridades locais e com as empresas construtoras: “somos uma equipe.” Uma grande parte do conflito gerado se deve à negativa de alguns clubes brasileiros em arcar com as despesas das instalações adicionais em seus estádios (a maioria privado). “É um problema e evidentemente uma lição”, reconheceu Valcke, que disse não esperar problemas similares na Rússia em 2018, já que na ex-república soviética ocorre a situação contrária: onze dos doze estádios mundiais são públicos. Os testes prévios às instalações incluem exames de segurança, competição esportiva, transporte, voluntários, limpeza, gerenciamento de resíduos, serviços ao espectador e tecnologia.

O Comitê Local Organizador, segundo Ronaldo, criticou a imagem de desafeto do povo brasileiro em relação à Copa mostrada por alguns meios depois de uma pesquisa do Datafolha. Na mesma linha, um “emocionado” José María Marín, presidente da Federação Brasileira de Futebol, anunciou a entrega de 50.000 entradas para todos os operários que participem nas obras dos estádios. O ex-jogador Bebeto agradeceu os operários presentes na sala por seu “esforço incansável”, comemorou que “participem da festa do futebol” e convidou o legendário Zico, que defendeu que “o Brasil, o país do futebol, precisava de estádios cômodos, que estavam obsoletos, e que o estádio do Maracanã [onde ocorreu a coletiva de imprensa] segue bonito como sempre”.

Durante a coletiva de imprensa, perguntou-se sobre a possibilidade de a FIFA decidir mudar a sede da partida inaugural da Copa. “O que diria, então, a imprensa?”, disse Valcke. “Tem de ser São Paulo. Tenho bastante confiança em que será assim. Não se pode mudar uma partida inaugural: milhares de pessoas compraram suas entradas, chefes de Estado virão. É impossível.”