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A polícia da Venezuela frustra a recuperação de um bastião da oposição

A oposição tenta fechar a principal estrada da capital venezuelana. No Estado de Mérida morre outro manifestante e o número de vítimas fatais durante os protestos chega a 34

Manifestação da oposição na Venezuela.
Manifestação da oposição na Venezuela. REUTERS

A caminhada convocada pela oposição para protestar contra a repressão do regime chavista terminou nesse sábado com novos focos de protesto em vários pontos de Caracas. Os manifestantes tentaram fechar a via expressa Francisco Fajardo, que corta a capital venezuelana de Leste a Oeste, e foram repelidos pela Guarda Nacional. Alguns deles tentaram colocar barricadas ao redor da Praça Francia, no bastião tradicional da oposição, recuperado no início da semana pelo governo nacional, e enfrentaram os agentes do governo com tudo o que tinham nas mãos. Ali teve início a pior parte.

Do edifício For You, localizado na calçada oposta à praça, foram jogados recipientes onde se cultivam plantas sobre a polícia, que decidiu, no que pareceu uma resposta desproporcional, procurar os responsáveis derrubando as portas dos apartamentos sem ordem judicial. No prédio funcionam as sedes de duas embaixadas, mas também moram famílias em vários dos apartamentos também. Quem levou a pior foi a jornalista Mildred Manrique, do jornal da capital 2001, uma das líderes do grupo Dearmas. A Guarda Nacional arrebentou a fechadura da porta principal, revirou os cômodos e levou consigo três computadores, um notebook e pertences pessoais usados na cobertura das atuais manifestações de rua.

O chefe do Comando Regional 5 da Guarda Nacional, general de Brigada Manuel Fernández Quevedo, garantiu que na residência da repórter foram encontrados coquetéis molotov, máscaras antigás e propaganda contra o governo. Manrique foi levada até a sede do comando em El Paraíso, a oeste de Caracas, onde prestava depoimento na presença de sua colega Jenny Oropeza quando fechávamos esta notícia. A diretora de 2001, Luz Mely Reyes, confirmou a este jornal que tinha duas versões sobre a prisão da jornalista: uma segundo a qual foi detida porque encontraram em sua casa equipamentos antidistúrbios e propaganda contra o governo; outra que a Guarda Nacional Bolivariana queria falar com ela para saber de onde haviam sido jogados os objetos.

Diferentemente de outras jornadas, a polícia do município Chacao, onde se encontra o edifício For You, interveio para tentar restabelecer a ordem pública e deteve várias pessoas que tentaram incitar a rebelião. A mudança de atitude da política municipal pareceu também a resposta a uma intervenção do presidente Nicolás Maduro, que nesse sábado marchou junto com os estudantes chavistas para repudiar o incêndio de um núcleo da Universidade Nacional Experimental das Forças Armadas (Unefa) em San Cristóbal. Dirigindo-se a ao prefeito Ramón Muchacho, o governante venezuelano disse: “O senhor é o responsável pela paz no município Chacao. Se a promotoria ou os tribunais ordenam ao governo prender Ramón Muchacho por desacato à Constituição, Ramón Muchacho será preso, não tenham dúvida”.

O governo nacional mantém em cheque Muchacho e para isso usa como lição o caso do burgomestre do município de San Diego, na cidade de Valência, Enzo Scarano, que na quarta-feira foi destituído de seu cargo por descumprir uma decisão da Sala Constitucional do Tribunal Supremo de Justiça. O Supremo ordenou às máximas autoridades locais garantir o livre trânsito naqueles municípios onde os protestos opositores se tornaram persistentes.

A prisão de Mildred Manrique foi condenada pelas associações jornalísticas e foi o fecho de um dia movimentado. À tarde, a deputada María Corina Machado ficou retida durante uma hora e meia no aeroporto de Maiquetía. A parlamentar voltava de Washington, onde participou da assembleia do Conselho Permanente da Organização de Estados Americanos. Quando se dirigia para a Imigração, Machado foi conduzida a uma sala sem qualquer explicação. Ao perceber a demora, os passageiros que vinham no voo decidiram não sair do terminal até que a dirigente da oposição fosse liberada. Não houve explicação oficial.

No Estado de Mérida, a oeste da Venezuela, morreu um manifestante, Jesús Orlando Labrador, depois de ser baleado no abdômen. Depois do incêndio de uma unidade de transporte público começaram os distúrbios na Avenida Cardenal Quintero, onde se confrontaram opositores e coletivos.

Os protestos de hoje demonstram que a oposição não parece disposta a voltar para casa, apesar da ofensiva desenvolvida pelo governo desde o início da semana. As prisões dos prefeitos Scarano e Daniel Ceballos e a frustrada intervenção de María Corina Machado na OEA, deram ânimos ao antichavismo para voltar às ruas em Caracas e nas principais cidades do país. Não são poucos os que pensam que o governo precisa que se mantenha a tensão para distrair a atenção da caótica situação econômica que o país vive.

A oposição parece estar preparada para empreender essa longa luta, a julgar pela grande quantidade de mercadorias vendidas nas concentrações. Camisetas nas que destacam verbos como “perseverar” e “vencer”, adesivos com a cara do dirigente opositor Leopoldo López, criador do lema: “Quem se cansa, perde”, o mantra da oposição mais mencionado nesses dias. Lópes, que está preso há um mês na prisão militar de Ramo Verde, enviou uma carta escrita de próprio punho que foi distribuída a milhares de pessoas que caminharam nesse sábado em Caracas sob um sol escaldante. Dirigindo-se ao presidente Maduro, disse: “Da prisão peço a Deus que te ilumine para que dês o passo valente e patriota de renunciar e abrir caminho assim a um futuro melhor para todos os venezuelanos”. O comunicado foi lido por sua esposa, Lilian Tintori.