Putin esfria a escalada das sanções

Moscou suspende, por enquanto, a imposição de vistos aos ucranianos

O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, em março. / D. Astakhov / R. Novosti (EFE)
O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, em março. / D. Astakhov / R. Novosti (EFE)

O presidente Vladímir Putin declarou nesta sexta-feira que a Rússia vai se abster, ao menos por enquanto, de responder às últimas sanções norte-americanas e de introduzir vistos para os cidadãos ucranianos. O primeiro-ministro, Dmitri Medvédev, informou por sua vez a Putin, que Kiev tem uma dívida com Moscou de 16 bilhões de dólares (37,4 milhões de reais) e opinou que a Rússia não pode se permitir perder esse dinheiro. Enquanto isso, como se esperava, o Senado aprovou as leis necessárias para completar o processo de incorporação definitiva da Crimeia na Federação Russa.

"Estabelecer o regime de vistos com Kiev causará o sofrimento a milhões de ucranianos que não têm culpa de nada e que, sem isso, já vivem pobremente, e trabalhando na Rússia ganham um pouco de dinheiro para alimentar a suas famílias" [na Ucrânia], disse Putin na reunião do Conselho Nacional de Segurança, onde se discutiu, entre outras coisas, as relações com o país vizinho.

Nessa reunião, o ministro das Relações Exteriores, Serguéi Lavrov, informou que a Ucrânia continua fazendo declarações contraditórias relativas às suas relações com a Rússia. "Designadamente, não está claro se cessam ou congelam sua participação na Comunidade de Estados Independentes"; também disseram que "pensam em exigir vistos", mas alguns dirigentes se opuseram a essa questão.

Putin minimizou a importância das sanções impostas contra a Rússia e se permitiu caçoar e ironizar o fato. Assim, assegurou que abrirá uma conta no banco Rossiya, cujos clientes já estão sentindo as consequências das sanções, já que os sistemas Visa e Marstercard deixaram de prestar serviço aos cartões dessa e de outras entidades financeiras russas. A bolsa de Moscou sofreu uma queda de 1% depois que a agência de qualificação Fitch anunciou que a nota da Rússia caiu de estável para negativa, algo que a Standard & Poor’s já havia dito na quinta-feira.

O líder russo disse que, segundo tinha entendido "se trata de um banco médio". "Eu não tinha uma conta ali, mas na segunda-feira abrirei uma sem falta", agregou.

O banco Rossiya está controlado por pessoas próximas a Putin –Yuri Kovalchuk tem 40% da instituição, Dmitri Gorélov e Niloái Shamálov, 10,5% cada um; Guennadi Tímchenko, 8%; Alexéi Mordashov 6% e Gazprom cerca de 16%- e em Washington pensam que, na realidade, se trata do banco pessoal do presidente russo. Mais tarde, Putin deu instruções para que transferissem seu salário para o banco

Quanto à dívida ucraniana, da qual informou Medvédev, não está claro quando a Rússia exigirá a devolução desses bilhões de euros, e nem quais são as possibilidades de recuperá-los.

O Conselho da Federação, a câmera alta do Parlamento russo, aprovou com unanimidade as leis necessárias para terminar os trâmites legais de aceitação da Crimeia e Sebastopol pela Rússia. Na quinta-feira, os documentos recebiam o apoio irônico dos deputados, mas teve um voto na contra. Como se soube mais tarde, o membro da Rússia Justa, Iliá Ponomariov, conhecido por sua oposição ao Kremlin, foi o único que se pronunciou contra à incorporação da península na Federação Russa.

Ponomariov disse que Moscou cometia um erro que "pode ser trágico tanto para os povos irmãos da Rússia e da Ucrânia, como para a ideia da unidade eslava" e o sistema geral de relações internacionais. Ao mesmo tempo, assinalou que não tem "nenhuma dúvida sobre a aspiração da maioria dos habitantes da Crimeia e da Rússia: A Crimeia é russa e de acordo com a justiça deve estar na Federação Russa", manifestou.

Nesta sexta-feira, Putin assinou as leis já aprovadas por ambas câmeras do Parlamento pelas quais a Crimeia passa a ser parte da Rússia. A cerimônia ocorreu de forma solene na Sala de Catalina II, a imperatriz que conquistou a península que desde o século XV e até o XVIII pertencia ao império otomano. A península será a vigésima segunda república da Federação Russa e o porto de Sebastopol, a terceira cidade federal com status especial, depois de Moscou e São Petersburgo. A sala escolhida para a cerimônia, que decorreu na presença dos dirigentes da Duma Estatal e do Conselho da Federação, não foi casual. E não só porque a Catalina é consagrada, mas também pela inscrição que nela pode ser lido: "Ottórgnutoye prisoyediniayu", frase que segundo as preferências ideológicas de cada um pode ser traduzida como "Ou separado ou incorporado". Ao cair a noite a promulgação dessas leis será festejada em Moscou com fogos artificiais.

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: