Coluna
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Cataguases, Ucrânia

O mundo, maior do que eu imaginava, que comportava idiomas diversos e diferentes paisagens, servia apenas como pasto para o ser humano alimentar seu egoísmo e crueldade?

Leitores que generosamente me visitam nesse espaço mostraram-se divididos com relação a uma lacuna deixada na última crônica. Uns acreditavam que, por lapso da memória, deixei de citar o nome do primeiro volume que, obrigado, levei para casa, quando entrei sem querer na biblioteca do Colégio Cataguases. Outros desconfiaram que, por trás da omissão, residisse uma estratégia, para eu ter assunto com que me ocupar nessa semana. Como, independente de terem razão uns ou outros, mostraram todos interesse em que, afinal, revelasse nome e sobrenome do autor e título do livro, volto ao tema agora, inclusive porque, numa dessas coincidências, estaremos, de certa forma, falando da Ucrânia...

Só para retomarmos o fio da meada, ao me ver chegar em casa com um objeto estranho na pasta, meu pai questionou, O que é isso, menino? Sem graça, respondi: Um negócio que a moça lá do colégio deu... Ela falou pra eu ler e devolver. Ele: se ela falou pra ler e devolver, leia e devolva, que não quero nada dos outros aqui não! Logo depois do almoço, peguei contrariado o livro, deitei no cimento amarelo que recobria o chão da pequena varanda, e, sob um céu azulíssimo, sem nuvens, descortinei a primeira página. Caí doente de espanto...

Cataguases é uma cidade tão quente, mas tão quente, que quando alguém bate as botas por lá e vai pro inferno só estranha a comida, pois o calor é o mesmo... E a história que estava lendo se passava em um lugar cuja temperatura descia a muitos e muitos graus abaixo de zero... Minha cidade era tão pacata – não mais, infelizmente – que os raros episódios de “morte matada” viravam uma espécie de marco – “Fulano de tal casou um ano antes de matarem o Zé da Vilma” ou “A Márcia foi batizada no ano em que assassinaram o Dr. A.” (naquela época, pobre era morto e rico, assassinado)... E a história que estava lendo narrava o massacre de cerca de 100 mil judeus em Bábi Iar, perto de Kiev, capital da Ucrânia, durante a Segunda Guerra Mundial... Ou seja, tudo conspirava, pela estranheza, para provocar em mim profunda rejeição. No entanto, aquela leitura abriu o Mar Vermelho da ignorância para a passagem das minhas inquietações...

Eu tinha 12 anos e conhecia apenas três cidades, além daquela em que nasci: Rodeiro (onde passava as férias na casa dos meus tios), Ubá (onde parte da família se radicou) e Santos Dumont (onde meu pai permaneceu um ano internado, com tuberculose, no Sanatório Palmira). Todas as pessoas à minha volta se chamavam João, Pedro, Francisco, Maria, Lúcia, Angélica. E, no redemoinho daquelas inacreditáveis duzentas e noventa e duas páginas de violência insana contra pessoas de nomes impronunciáveis, eu me perdi, queimando em febre. Então, o mundo, maior do que eu imaginava, que comportava idiomas diversos e diferentes paisagens, servia apenas como pasto para o ser humano alimentar seu egoísmo e crueldade?!... Fechei o livro e quando voltei à tona tudo me pareceu completamente diferente de há pouco...

Os pneus da minha bicicleta, arqueados ao peso das trouxas de roupa que minha mãe lavava e passava, rodavam sobre os mesmos paralelepípedos, mas em meu rosto roçava o vento gelado das estepes da Ucrânia... Eu mirava as pessoas com quem cruzava nas ruas e por trás dos corpos mal vestidos enxergava a tristeza de quem batia cartão ainda com migalhas de sonhos espalhadas pelas roupas e só saía da fábrica quando a Rádio Cataguases anunciava a Hora do Ângelus. Atormentado, eu me via caminhando, com as meninas e os meninos da minha idade, rumo às tecelagens, que roubariam o melhor da nossa juventude, devolvendo-nos mulheres e homens amargos e infelizes. Eu percebia agora com nitidez a injustiça do mundo, dividido entre os que vão ser alguma coisa na vida e os que nunca serão nada, entre os que virarão avenidas e os que nem na lápide dos cemitérios terão seus nomes inscritos.

Houve um tempo em que gostava de garimpar raridades baratas nos sebos do centro de São Paulo. Num sábado de junho, me recordo que usava uma blusa de lã marrom, que sumiu como desaparecem canetas, guarda-chuvas e esperanças, eu desfilava os olhos por uma estante caótica de uma sala abafada e cheirando a mofo na Praça João Mendes, quando meus olhos dispararam meu coração. Eu estava diante daquele volume que iluminara o quarto escuro que eu era aos doze anos. As mãos trêmulas, tomei o volume, observei a capa, conferi o nome do autor e o título do volume, e, sem folheá-lo, depositei-o de volta na prateleira empoeirada. As pernas trôpegas me conduziram pelo que restava da manhã fedendo a gás carbônico.

O livro chamava-se Bábi Iar, do autor, na época soviético, hoje ucraniano, Anatoly Kuznetsov, lançado pela Civilização Brasileira, em 1969, três anos depois da edição original.

Não o reli. Não o quero reler.