“Não cederemos nem um palmo de terra”

O chefe do Governo ucraniano adverte Moscou contra uma anexação territorial Kiev não enviará mais tropas à península da Crimeia

O presidente interino Oleksandr Turchínov (direita), o primeiro-ministro  Arseni Yatseniuk (centro) e o líder do partido Svoboda Oleh Tiahnibok  no 200 aniversário do poeta Taras Shevchenko em Kiev.
O presidente interino Oleksandr Turchínov (direita), o primeiro-ministro Arseni Yatseniuk (centro) e o líder do partido Svoboda Oleh Tiahnibok no 200 aniversário do poeta Taras Shevchenko em Kiev.ANDREW KRAVCHENKO (EFE)

Uma fila de dezenas de motoristas com bandeiras ucranianas cruza a praça Europa, bem perto de uma grande barricada que marca uma das fronteiras da área tomada por manifestantes desde novembro. No Maidán, centenas de pessoas desfilam com insígnias de países ocidentais –EUA, Alemanha, Reino Unido— que mostraram seu apoio aos protestos, e à Ucrânia, diante da Rússia. Elas aplaudem no seu passo, numa manhã ensolarada e patriótica, muito patriótica. Uma mulher jovem segura um cartaz com a cara do presidente russo, Vladimir Putin, com um bigode de Adolf Hitler. Muitos gritam: “fora Putin! Tire suas mãos da Ucrânia!”.

O primeiro-ministro ucraniano, Arseni Yatseniuk, se reunirá na quarta-feira em Washington com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para buscar “uma resolução pacífica à atual intervenção militar russa na Crimeia”, confirmou a Casa Blanca em um comunicado. O anúncio da viagem foi feito dias após o chefe da diplomacia norte-americana, John Kerry, ter se apresentado em Kiev para mostrar sua respaldo às novas autoridades ucranianas frente à Rússia, prometer uma ajuda de um bilhão de dólares (730 milhões de euros) e deixar-se ver em Maidán, entre as montanhas de flores que as pessoas continuam levando para honrar os mortos nos protestos. O chefe do Governo ucraniano também viajou a Bruxelas na semana passada para se encontrar com seus pares europeus, que desembolsarão 11 bilhões de euros em ajudas ao país, que está negociando um resgate com o FMI para evitar a quebra. Ele tenta fazer frente à invasão de fato que a Rússia fez na Crimeia e tenta conter a tensão nas regiões da população do leste que adota o idioma russo.

A ameaça de perda da Crimeia sobrevoou ontem a celebração do bicentenário do nascimento do poeta e pintor Taras Shevchenko, crítico com o zar e um símbolo da nação e da língua ucranianas. Muita gente levava broches com a imagem do herói e as cores da bandeira. Yatseniuk também participou de um desses atos e empregou uma retórica emocional: “Esta é nossa terra. Por ela deram seu sangue nossos pais e avôs, e não cederemos nem um centímetro de terra ucraniana”, afirmou. Depois, reunido com os ministros, anunciou que o Governo apoiará aos soldados ucranianos na Crimeia com 125 milhões de grivnas, ou 9,5 milhões de euros, informa Interfax Ucrânia, no mesmo dia em que o ministro de Defesa, Igor Tenyukh, confirmou que não há movimento algum do Exército para a Crimeia.

O ex-magnata russo Mijaíl Jodorovski, que saiu do cárcere em dezembro após dez anos, também falou neste domingo em Maidán. “Quero que saibam que há uma Rússia completamente diferente, onde há gente que participa em manifestações antibélicas apesar das detenções”, afirmou diante da multidão, e mostrou confiança de que a “Ucrânia e a Rússia irão unidas pelo caminho do desenvolvimento europeu comum”.

Os tambores dos cossacos alternavam-se com o barulho dos discursos do palco do Maidán, consagrando ontem o poeta. Um líder da igreja ortodoxa clamava contra a agressão da Rússia e lembrava aos milhares que o assistiam que a “Ucrânia é um país pacífico”. Em um posto próximo repartem-se vários montes de panfletos do Sector de direita, o grupo mais radical e nacionalista de todos que enfrentaram os anti-motins nos protestos. Continuam com seu apelo à mobilização, que começou tão logo se desencadou a crise na Crimeia. Em seu portal há uma foto do seu líder, de extrema direita, Dimitri Yárosh, que na semana passada anunciou que se apresentava às presidenciais de 25 de maio. “Estamos organizando a defesa das cidades que poderiam ser palco do apetite imperial do Kremlin”, dizia a publicação, para depois oferecer seus serviços ao Exército e à polícia e de chamar a frear a “os quintacolunistas [em referência aos ucranianos que apoiam a intervenção de Rússia] e a imprensa anti-ucraniana”.

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