Seleccione Edição
Login

China culpa separatistas de Xinjiang pelo ataque no sul do país

Um grupo matou a facadas 29 pessoas, enquanto quatro “terroristas” morreram por causa dos disparos da polícia

O incidente indica uma grave escalada das tensões étnicas no país asiático

Uma vítima é examinada depois do ataque na China. Ampliar foto
Uma vítima é examinada depois do ataque na China. EFE

As autoridades chinesas culparam a separatistas da região autônoma de Xinjiang – onde concentra-se a minoria étnica muçulmana uigur– pelo ataque perpetrado no sábado à noite na estação ferroviária de Kunming (capital da província de Yunnan), no qual morreram 33 pessoas. Mais de 10 pessoas armadas com grandes facas entraram na praça e na estação –uma das maiores do sudeste da China-, atacando quem estivesse no caminho, matando 29 pessoas, segundo a agência de notícia oficial Xinhua. Cerca de 143 pessoas ficaram feridas. Quatro “terroristas”, como foram classificados pela imprensa oficial, morreram com disparos pela polícia, e uma mulher foi presa. As forças de segurança estão em busca dos outros envolvidos.

Algumas vítimas afirmaram que o grupo estava vestido de preto, e movimentavam-se dando facadas de forma indiscriminada contra as pessoas que estavam na fila para comprar os bilhetes. Qiao Yunao, uma estudante de 16 anos, estava esperando o trem quando as pessoas começaram a gritar e a correr. Viu como um homem esfaqueava um outro no pescoço. “Fiquei congelada, e corri para um restaurante de fast food. Muita gente também corria para lá para proteger-se”, disse à agência Associated Press. “Vi duas pessoas atacando, ambos homens, um com uma faca para cortar melões e outra para frutas. Corriam e davam golpes em tudo o que podiam”.

Fotografias divulgadas pelo Weibo – um serviço de mensagens instantâneas pela internet parecido com o Twitter – mostraram corpos ensanguentados no chão da estação. A televisão pública CCTV transmitiu imagens nas quais se via uma grande presença policial na estação e como agentes à paisana guardavam uma faca de grandes dimensões em uma bolsa de plástico.

As autoridades não revelaram a identidade dos acusados, mas evidências recolhidas no lugar do crime mostram que “foi um ataque terrorista conduzido por forças separatistas de Xinjiang”, informou a agência Xinhua, que cita o Governo municipal. Segundo a administração local, foi “um ataque terrorista violento premeditado e organizado”. Segundo a CCTV, duas pessoas envolvidas no ataque eram mulheres; uma morreu e a outra está presa.

O presidente chinês, Xi Jinping, pediu “o máximo esforço” na investigação para castigar os responsáveis “de acordo com a lei”. A gravidade do ocorrido foi condenada “severamente” pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, segundo seu porta-voz em um comunicado, no qual afirma que “não há justificativa para o assassinato de civis inocentes e espera que os responsáveis sejam julgados.

O ataque indica uma nova escalada do conflito étnico vivido por esta região no oeste da China, na qual existe um forte ressentimento contra o Governo de Pequim que, para muitos uigures, reprime sua cultura e sua religião, além da discriminação por parte dos han, a etnia majoritária na China, que controla a vida política e econômica desta zona do país, rica em recursos energéticos e minerais.

Em outubro passado, três membros de uma mesma família de Xinjiang arremessaram o veículo em que estavam contra uma multidão de turistas sob o retrato de Mao Tsé-Tung na praça Tiananmen, em Pequim, e o incendiaram, segundo informou a polícia. Duas pessoas morreram. Os três suicidas –que Pequim classificou como militantes de Xinjiang- morreram. Desde então, o Governo aumentou as medidas de segurança na região autônoma.

O incidente em Tiananmen alarmou os dirigentes chineses, já que pela primeira vez a violência que atinge regularmente Xinjiang alcançou a praça de Pequim, coração e símbolo do Estado. O ocorrido agora em Yunnan, uma das províncias mais bonitas e turísticas da China, aumenta ainda mais a crise étnica. É a primeira vez que supostos habitantes de Xinjiang teriam conduzido um ataque de tamanha escala tão longe de sua região.

Ambos os atentados fazem pensar que os militantes poderiam estar mudando de tática para atacar os civis em lugares afastados de sua zona habitual. Até agora, os ataques aconteciam normalmente em Xinjiang, e tinham como alvo as forças de segurança. Uma prova da preocupação que este último incidente gerou no Governo é que o presidente chinês, Xi Jinping, enviou a Kumming o responsável máximo pela segurança interna na China e membro do Politburo (partido comunista), Meng Jianzhu, para supervisionar a investigação e visitar os feridos e familiares das vítimas. O atentado aconteceu num momento muito sensível, dias antes do começo, na próxima quarta-feira, da sessão anual do Parlamento, em Pequim.

O ataque em Kunming teve um grande impacto no Weibo. Alguns usuários contaram detalhes do ocorrido, ainda que muitos dos comentários tenham sido apagados rapidamente pelos censores, em particular aqueles que descreviam os agressores. Outros internautas criticaram com firmeza a violência contra inocentes e alguns pediram uma reflexão sobre as razões que estão por trás deste tipo de atentados.

Xinjiang, uma região duas vezes maior que a Turquia, tem uma população de 22 milhões de habitantes, dos quais nove milhões são uigures. Regularmente a área é atingida por incidentes de violência e revoltas, que, segundo as autoridades, são realizados por “terroristas”. O governo diz que grupos armados uigures têm conexões com militantes islamitas no Paquistão e na Ásia Central, e realizam os ataques para estabelecer um Estado independente chamado Turquestão Oriental. Especialistas internacionais afirmam, no entanto, que Pequim apresentou poucas provas de que exista realmente um movimento terrorista organizado, e que as tensões são bem mais fruto de um ressentimento local. As organizações de direitos humanos destacam que Pequim exagera a ameaça terrorista para justificar sua política de forte controle em Xinjiang.

No último ano, houve uma série de incidentes violentos relacionados com Xinjiang, que, segundo a imprensa chinesa, provocaram mais de 100 mortos em 2013, incluindo vários policiais. O caso anterior ao de agora aconteceu em 14 de fevereiro, quando a polícia matou oito “terroristas” e outros três morreram devido aos dispositivos que estariam usando como bombas suicidas durante um ataque no condado de Wushi, na cidade de Aksu, em Xinjiang, segundo a agência oficial de notícias Xinhua. Dois civis e dois policiais ficaram feridos.

O incidente mais grave dos últimos anos aconteceu em 2009, quando uigures foram para as ruas de Urumqi (capital de Xinjiang) e esfaquearam membros da etnia han aleatoriamente, inclusive crianças e mulheres. Dias depois, multidões de integrantes da etnia han armados com paus e pedras atacaram os uigures. Quase 200 pessoas morreram. Os distúrbios levaram o Governo a endurecer a vigilância e, em paralelo, a aumentar os investimentos na região. Desde então, os episódios de violência têm continuado com certa frequência.

Os uigures representam atualmente 46 por cento da população de Xinjiang e os han, 40 por cento. O restante pertence a outras minorias. Pequim insiste que os uigures têm amplas liberdades, que tem investido muito dinheiro no desenvolvimento da região e que a vida dos moradores do local tem melhorado radicalmente graças aos investimentos públicos.

No fim do mês passado, as autoridades de Xinjiang acusaram formalmente Ilham Tohti, um proeminente acadêmico da minoria muçulmana uigur que dava aulas na Universidade das Minorias de Pequim, de secessão. Tohti é um árduo defensor dos direitos dos uigures e crítico das políticas do Partido Comunista Chinês em Xinjiang. Ele foi acusado de difundir ideias separatistas, incitar o ódio étnico, participar de atividades separatistas, e pode ser condenado a até 10 anos de prisão ou inclusive à pena de morte.