“Não basta só dar camisinha, tem que direcionar seu discurso”

Abordagem de profissionais de saúde inibe quem deveria se prevenir Há 150.000 brasileiros que desconhecem ser portadores do virus

Beatriz Borges

O Governo estima que das 718.000 pessoas que vivem com HIV, 150.000 desconhecem sua situação. “Um dos aspectos da discriminação é de pessoas que se encontram em um grupo de risco e que não procuram se diagnosticar, com receio de serem identificadas”, afirma a psicóloga Gabriela Junqueira Calazans, especializada em Saúde Coletiva do Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids da USP.

Eliana Battaggia Gutierrez, coordenadora Programa Municipal de DST/AIDS de São Paulo, nota este receio e acredita que os formulários usados pelos profissionais de saúde e a abordagem dos mesmos quando algum paciente procura informação ou ajuda são muito invasivos. “Os profissionais perguntam tanto que criam uma barreira de acesso. Não preciso saber do sexo do vizinho do fulano para dar uma camisinha”, opina. Ele conta que no laboratório onde trabalhava anteriormente, dos interessados em fazer o teste de HIV, apenas 40% acabava realizando o exame. Marcelo G, de 42 anos, descobriu que tinha aids há nove anos porque pediu ao dentista que na solicitação do exame de sangue para ver sua coagulação também pedisse o teste do HIV. “Meu parceiro também fez o teste e deu negativo, mas ele não se afastou, o que foi muito importante para eu me reerguer e encarar a doença com a qual viveria até o resto da vida”, relata o funcionário público.

Uma das saídas para superar a dúvida e direcionar o tratamento adequado é o exame, que atualmente no Brasil pode ser feito de forma rápida, com a pulsão digital (um furinho no dedo para analisar a gotinha de sangue) e o teste oral (cotonete que recolhe material genético na gengiva). Segundo o Ministério da Saúde, em 2013 foram distribuídos 4,7 milhões de testes. No entanto, na cidade de São Paulo, das 90 unidades básicas de saúde apenas 26 estão capacitadas para realizar estes exames, o que leva a pensar que em outras partes do país o acesso pode ser ainda mais difícil.

Por esta razão o foco é na prevenção e o Brasil é um dos poucos países da América Latina que distribui gratuitamente camisinhas nos postos de saúde e em campanhas durante o ano. Para 2014, serão repartidos 104.249.194 preservativos entre todos os estados, que previamente demonstraram suas demandas. Alexandre Chulvis, da Associação de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), não acredita que sejam suficientes. “Não basta dar a camisinha, você tem que falar com as pessoas e direcionar seu discurso.”

Ele cita algumas barreiras práticas na vida de quem não é heterossexual, que não são debatidas. “É o mesmo que uma lésbica que se sente homem e decide não ir ao ginecologista ou um travesti que se sente mulher e não quer ir ao urologista”, explica. Para ele, a grande questão são as travas que o governo coloca para que os coletivos LGBT abordem de forma mais específica determinados grupos. “A bancada fundamentalista (no Congresso) censura. Quando tentamos abordar os homens que fazem sexo com homens não tivemos respaldo, porque ele não é bissexual nem gay”, conclui pessimista.