carnaval

Campanha pública, doença privada

Especialistas reconhecem a falta de comunicação mais específica para prevenir grupos de heterossexuais e gays jovens, onde o número de infectados continua crescendo

Casal se beija no bloco Cordão do Boitatá, semana passada no Rio de Janeiro
Casal se beija no bloco Cordão do Boitatá, semana passada no Rio de JaneiroMarcelo Sayão (EFE)

O carnaval é uma grande festa com forte conotação sexual desde os tempos mais remotos. Câmara Cascudo recolheu em seu Dicionário do Folclore Brasileiro de 1954 uma definição ampla da celebração, afirmando que “todas as lembranças clássicas de saturnálias, februálias, florais, festas orgiásticas assírias, medo-persas, babilônicas, revivem no carnaval”. Também acrescentou que as distâncias entre classes sociais quase se anulam durante este período, “nas senzalas e casas-grandes, nivelando amos e servos na alegria igualitária do entrudo”. No entanto, ainda que o pobre e o rico estejam festejando juntos durante o carnaval - uma verdade contestável depois da invenção dos camarotes e alas Vip - existem grupos sociais que estão excluídos de uma via de diálogo direta sobre a prevenção de Aids e DST no período, como heterossexuais em relação estável e homens que fazem sexo com homens entre 13 e 29 anos.

Eliana Battaggia Gutierrez, coordenadora Programa Municipal de DST/AIDS de São Paulo, reconhece a falha. “São campanhas generalizadas para uma epidemia concentrada. Muitas vezes não tem mesmo uma linguagem que atinja todos os setores”, afirma. Prova disso são os jingles e vídeos veiculados durante esta época, que abordam a festa e a necessidade de usar camisinha, mas não se dirigem especificamente a homens que fazem sexo com homens (HSH), prostitutas ou transexuais, grupos que ainda estão mais vulneráveis e onde há uma incidência alta do vírus HIV. E ainda, bissexuais que se relacionam com mulheres e homens ao mesmo tempo, sem o conhecimento dos parceiros.

Dos 15.411 casos de aids no sexo masculino registrado em 2011 no país, 42,6% são em homens que se declaram heterossexuais. Os dados foram compilados pelo Ministério da Saúde. O restante se divide entre homossexuais (24%), bissexuais (8,2%) e o restante se divide entre usuários de drogas e hemofílicos. “As pessoas acham que a aids é gay, homossexual e não é. Muitos homens têm suas parceiras e fazem sexo com outros homens pelo prazer e são eles que estão sendo mais afetados hoje pela doença”, explica Alexandre Chulvis, responsável de Saúde da Associação de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT). O Estado de São Paulo é um dos que reduziu o número de infectados pela doença sexualmente transmissível, o que não significa que houve uma redução em todos os setores da sociedade.

 A taxa de incidência dos casos de aids em homens jovens entre 15 e 24 anos de idade não parou de aumentar paulatinamente de 2002 a 2011, passando de 10 a 14 infectados por cada 100.000 habitantes, segundo dados do Ministério da Saúde.

As razões que expliquem este aumento a nível nacional, com uma maior expressão do Rio Grande do Sul, estado que registrou a maior incidência em 2011 (40 infectados/100.000 habitantes), são várias e apresentam certa complexidade. “Por um lado, a escolaridade é um fator determinante para que as mulheres se protejam, mas para os homens não. A proporção de homens com alta escolaridade que são infectados está aumentando e pensar em ações direcionadas com esses dados é fundamental”, explica Gutierrez.

Para Alexandre Grangeiro, pesquisador científico do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo (USP), o fato da epidemia estar centrada em regiões e grupos específicos é porque existe uma “combinação do dinamismo de parceiros e uma maior marginalização dessas pessoas”. O fato da epidemia ter sido “abrandada” também sustenta o argumento que a prevenção tenha se reduzido pelo contexto social, de enxergar a Aids como uma doença tratável. Esta percepção é compartilhada entre os especialistas, que analisam os números considerando também que esta geração descuida da prevenção porque não convivem com a ameaça de uma doença fatal.

Sobre o tratamento, de fato, houve avanço e talvez seja a principal razão para que as pessoas já não morram. “A doença, mesmo com o coquetel de medicamentos, não regride, mas ao impedir a replicação do vírus estamos reforçando o sistema imunológico, o que reduz a carga viral e faz com que o infectado tenha uma vida normal e de qualidade”, explica a infectologista Gutierrez. O microempresário Jorge F. tem 41 anos foi infectado em 2000, durante o carnaval, depois de manter relações sexuais com outras mulheres sem proteção. Hoje, afirma que leva uma vida normal. “Moro com minha namorada e a filha dela. Tomo o coquetel há 12 anos, uso preservativo sempre e sei que as possibilidades de passar a doença para alguém são mínimas com a minha carga viral de hoje”, explica. Chulvis compartilha desta opinião, mas com algumas ressalvas. “Talvez o jovem não tenha visto todos seus amigos morrerem, como eu, nem viveu a época onde Cazuza e outros famosos definhavam diante de todos. Mas precisam saber também que não é apenas tomar o remédio, existem efeitos colaterais”, explica, referindo-se doenças que podem surgir ou serem ampliadas, como diabetes, colesterol e uma maior probabilidade de ter um AVC ou necrose óssea, já que “para cada ano de coquetel a pessoa envelhece dois”, conclui taxativo.