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Uma cidade onde ninguém morre

O afã por ser imortal fez com que nas ilhas Svalbard fossem proibidos os enterros

O cemitério de Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, não recebe novos inquilinos desde que se proibiu enterrar ninguém mais na ilha nos anos 30.
O cemitério de Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, não recebe novos inquilinos desde que se proibiu enterrar ninguém mais na ilha nos anos 30. Getty

Há no mundo uma cidade onde é possível nascer, mas não morrer? Se é que existe, soa algo bem como a utopia ideal de Tomás Moro e seria, em consequência, um sonho da razão. Mas resulta que tal cidade figura nos mapas e abriga uma população de pouco mais de 2.000 habitantes.

Chama-se Longyearbyen, capital do arquipélago das Svalbard. Encontra-se na ilha principal, Spitsbergen, a 78 graus e 15 minutos de latitude Norte, isto é: a uns 1.500 quilômetros do Polo Norte. É a cidade povoada mais setentrional do planeta, com temperaturas que podem ultrapassar no inverno os 50 graus abaixo de zero. Nela há pubs, discoteca, piscina climatizada, igrejas, escolas, hotéis, restaurantes, hospital, concessionárias de carros, supermercados, casas de vários andares, Internet e um jornal diário. Mas não há cemitérios que acolham enterros há uns 70 anos. É que ninguém morre em Long­yearbyen? Não é isso; o que acontece é que nesta cidade está proibido morrer.

Tudo responde a uma série de razões. A primeira, o status político do arquipélago. Embora, na teoria, a soberania destes territórios seja norueguesa, a ONU não aceitou ainda de uma forma clara essa circunstância e, por exemplo, persistem no tempo reclamações sobre direitos pesqueiros na área: entre outras, uma espanhola, já que os primeiros pescadores de baleias da zona foram, a princípios do século XVII, pescadores bascos. Além disso, os russos mantêm uma exploração de carvão ao sul de Long­yearbyen, Barentsburg, que conta com administração própria, fora do controle norueguês, e população estável de 800 almas.

De modo que o status impreciso das Svalbard permite que a vida nas ilhas seja mais anárquica que na Noruega continental. Em Spitsbergen bebe-se sem restrição nenhuma e a um bom preço. E qualquer que o deseje pode se instalar livremente em seu território. Também abriga um dos baluartes que poderiam salvar a humanidade em caso de catástrofe mundial: a “abóbada do fim do mundo”. Construída a 120 metros de profundidade em uma montanha, este armazém a prova de bombas nucleares e terremotos recolhe desde 2008 dezenas de milhares de sementes com objetivo de salvaguardar a biodiversidade.

Mas vamos ao assunto da morte. No início do século XX, uns cientistas desenterraram os cadáveres de alguns marinheiros que morreram de gripe, pensando que o chão congelado conservaria os vírus da doença. Acertaram e conseguiram criar uma vacina contra um mau que desatava a enorme pandemia de 1918. Isso não foi tudo: resultou que os cadáveres estavam em perfeito estado de conservação por causa da enorme camada de gelo que cobria e rodeava os caixões.

E aí começou o problema. Desde séculos atrás, são muito numerosas as pessoas que sonharam com um dia em que, graças aos avanços da ciência, a humanidade encontrará os remédios para curar todas as doenças, o que converterá o homem em um ser imortal. De maneira que pode ser possível que um corpo congelado depois de sua morte poderia ser curado e ressuscitado no futuro. E com essa ideia, muita gente começou a instalar nas ilhas para morrer e ser enterrada nelas.

Não restou outro remédio que o de proibir os sepultamentos nas Svalbard. Mais ainda, em nenhum imóvel é permitida a construção de rampas para pessoas com dificuldade de locomoção, para que os idosos deficientes físicos não possam se instalar e morrer na cidade. Se alguém morre nestas ilhas, seu cadáver é enviado a outra cidade em um avião. Pois é proibido morrer em Longyearbyen.