Renuncia o quarto primeiro-ministro peruano do Governo Humala

César Villanueva disse que a administração avaliava aumentar o salário mínimo, mas a primeira-dama e o ministro da Economia o desautorizaram em público

César Villanueva em uma coletiva de imprensa em dezembro.
César Villanueva em uma coletiva de imprensa em dezembro.

Antes de assumir como primeiro-ministro (presidente do Conselho de Ministros) do Peru em novembro, César Villanueva era um dos líderes regionais de maior sucesso em seu gerenciamento, em San Martín, no departamento (estado) da região da selva norte. A sua longa trajetória política não foi aproveitada pelo governo nos quase três meses em que esteve no cargo: acabou pouco visível. A forma com que abandona o posto mostra novamente que no Executivo tem mais poder Nadine Heredia, a esposa do presidente, e o ministro da Economia, Luis Miguel Castilla.

Na quarta-feira passada, Villanueva comentou que o governo estudava aumentar o salário mínimo, que é de cerca de 625 reais, ou 750 novos sóis. No entanto, no dia seguinte, a primeira-dama corrigiu o primeiro-ministro Villanueva. “Isso não está em discussão nesse momento”, comentou, a respeito da possível alta do salário mínimo, um montante recebido por apenas 10% dos trabalhadores no Peru, o que se traduz em menos de 650.000 pessoas. O presidente Ollanta Humala estava em viagem pelo Catar na ocasião.

Quando assumiu em 1o de novembro último, só substituiu o ministro da Educação, mas uma crise política acabou levando junto o titular da pasta do Interior dias depois. Os políticos e especialistas perguntavam-se desde a época por que mantinha o restante da equipe. Há duas semanas, Villanueva anunciou que haveria mudanças no gabinete. O analista político Mirko Lauer referiu-se, no sábado último, a um enfrentamento pelo perfil dos novos ministros que seriam designados: Castilla buscava tecnocratas e Villanueva preferia profissionais com capacidade política, que pudessem fazer declarações e não se ausentassem no debate público.

Na noite de domingo, em uma entrevista a uma emissora de TV, o ministro da Economia, que acompanhava o presidente em sua viagem ao Oriente Médio e ao Catar, disse que não conversava sobre o acréscimo da remuneração mínima vital com o primeiro-ministro. Quando perguntado sobre quando foi a última vez em que falou com Villanueva, respondeu que fazia poucas horas voltava de uma viagem e não lembrava bem “pelo fuso horário”.

Com um bronzeado muito visível, Castilla depois acrescentou que conversou sobre as palavras de Villanueva com o presidente, durante a viagem, e que havia uns dez dias ou uma semana que não estava em contato com o primeiro-ministro. O titular de Economia e Finanças é um dos poucos que se mantém no gabinete desde o início do governo de Humala em julho de 2011, e é uma das pessoas mais próximas à primeira-dama.

“É uma crise que a oposição não gerou, senão o próprio governo, produzida pelas diferenças sobre as decisões econômicas”, opinou o congressista da Ação Popular Víctor Andrés García Belaunde, que pertence a uma bancada não opositora à da Ganha Peru, o partido no poder. Na manhã desta segunda-feira, ficou-se sabendo que o presidente peruano aceitava a renúncia de Villanueva, que depois fez a declaração a uma rádio de notícias.

Horas após a divulgação da saída do primeiro-ministro, os meios de comunicação e as redes sociais reportaram que Castilla também seria substituído. Políticos de diversas tendências expressaram sua surpresa ante um ministro da Economia que desautorizou em público o presidente do conselho de ministros. Segundo o artigo IV da Constituição peruana, ao primeiro-ministro corresponde ser o porta-voz do governo após o presidente, e coordenar as funções dos demais ministros.

Villanueva, agora sem a pressão de fazer parte do governo, argumentou sobre a pertinência de se aumentar o salário mínimo, um dos mais baixos da América Latina. “Dentro do equilíbrio fiscal, econômico, queremos (queríamos) ampliar um país de assalariados antes que se amplie um país de (vendedores) ambulantes”.

A discussão sobre o salário mínimo surge depois das críticas pelo aumento do salário dos ministros, aprovado na véspera de o presidente iniciar a viagem pelo Oriente Médio. Segundo uma pesquisa nacional do instituto GFK difundido no domingo, Humala tem 21% de aprovação, a menor de seu governo, cinco pontos a menos que a registrada em em janeiro.

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