UE e Brasil defendem um acordo entre a Europa e o Mercosul

O presidente da Comissão e Rousseff esperam que o acordo seja feito antes de maio “Não temos nenhuma oposição de princípio à Zona Franca de Manaus”, afirma Barroso

Chega de Dilma Rousseff a Bruxelas nesta segunda-feira. (reuters_live)

Os presidentes da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, e do Brasil, Dilma Rousseff deram nesta segunda-feira um passo a mais no “necessário” acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Ambos os mandatários têm salientado a importância de um projeto que, a seu julgamento, seria um importante impulso para o crescimento e para a criação de emprego em ambos os blocos. Tanto a UE como o Brasil esperam que o acordo não demore muito mais do que a data do encontro técnico, que está previsto para acontecer no dia 21 de março, quando ambas as partes vão expor suas ofertas.

“É fundamental que as negociações se concretizem o quanto antes”, assinalou Dilma Rousseff no encontro UE-Brasil ocorrido nesta segunda-feira 24 em Bruxelas. As conversas entre o Mercosul (o bloco comercial que agrupa a Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Venezuela e o próprio Brasil) e as autoridades europeias começaram 2010, mas estavam paradas desde então. O encontro desta segunda-feira poderia ajudar com que as conversas fluíssem com maior celeridade, dada a importância do Brasil no principal bloco comercial latino-americano. Embora nenhuma das duas partes quisessem adiantar acontecimentos e tenham sublinhado que o acordo depende do resto dos Governos presentes no Mercosul —especialmente o argentino, que mostrou reservas sobre seus benefícios—, a sintonia demonstrada nesta segunda-feira é um forte respaldo ao processo de integração econômica.

“É um acordo ambicioso, que vai para além do comercial”, apontou Barroso sobre um convênio que, segundo suas palavras, só encontra dificuldades em “alguns pontos muito concretos”. O presidente do Executivo comunitário quis emoldurar este processo negociador no enquadramento de uma “ambição” europeia por assinar acordos de livre comércio com vários países e blocos econômicos. “A UE está trabalhando em vários importantes acordos e seria uma pena não alcançar um entendimento com o Mercosul. Se temos claro nosso objetivo, seguro que poderá ser assinado cedo”. Foram nessa mesma linha os representantes da delegação de empresários brasileiros que acompanhou Rousseff até Bruxelas, que se mostram otimistas sobre a possibilidade de que o acordo se firme “antes de maio”.

A Zona Franca de Manaus, sobre a qual a UE fez uma consulta à OMC em dezembro ao se sentir prejudicada em suas exportações, foi outro dos assuntos centrais do encontro. "Não temos nenhuma oposição a princípio”, assinalou Barroso. Esta zona da Amazônia brasileira está assinalada em vermelho pelas autoridades comunitárias pelas ajudas fiscais que concede à indústria de equipes eletrônicos. A presidenta brasileira mostrou seu “estranhamento” pela queixa europeia e defendeu um projeto que é “muito melhor que cortar árvores”.

O encontro, de marcado tom econômico, também serviu para que os mandatários firmassem posturas sobre a exibição de um cabo de fibra óptica submarino que unirá Lisboa e Fortaleza e que melhorará a conexão entre ambas as orlas do Atlântico. Embora o projeto corra sob responsabilidade de um consórcio privado eurobrasileiro, fontes comunitárias não descartam a participação pública no projeto pelo lado do financiamento.

Em outra ordem de coisas, Rousseff e Barroso têm salientado sua vocação de “melhorar” os programas de intercâmbio educativo —A Europa é o principal destino dos estudantes e pesquisadores brasileiros— e reiteraram a importância do fluxo de capitais entre ambas as regiões. Na atualidade, as empresas europeias lideram o investimento estrangeiro no Brasil e na UE se mantém como seu principal sócio comercial. Os 20% das exportações brasileiras dirigem-se ao mercado europeu, que, por sua vez, é responsável por 21% de suas importações.

A importância do Brasil como novo ator no mapa geopolítico mundial também teve reflexo no encontro. Para além dos assuntos próprios da região —a crise interna que a Venezuela vive só recebeu uma leve menção por parte de Rousseff, que defendeu a democracia na América Latina—, as delegações discutiram o acordo nuclear com o Irã, a instabilidade no Sahel, a situação na Siria e a resolução do conflito entre Israel e Palestina. “Compartilhamos valores com a Europa e a cooperação é fundamental, especialmente em um momento de grandes mudanças como o atual”, sublinhou a presidenta brasileira ao termo da cimeira. Rousseff também mostrou interesse pela situação interna que vive a Ucrânia depois da queda do Governo de Viktor Yanukóvich.