Opositor convoca uma marcha para se entregar à justiça da Venezuela

Leopoldo López postou um vídeo em sua conta no Twitter chamando os manifestantes para evitar episódios de violência

O opositor venezuelano Leopoldo López, no dia 11 de fevereiro.
O opositor venezuelano Leopoldo López, no dia 11 de fevereiro.JORGE SILVA (REUTERS)

Leopoldo López, dirigente da oposição venezuelana que está sendo culpado pelo governo de organizar os distúrbios que estremeceram o país desde a quarta-feira passada, postou um vídeo em sua conta no Twitter convocando uma manifestação para próxima terça-feira. Ele pretende se entregar ao ministério do Interior e da Justiça, em Caracas, acompanhado de um grupo de manifestantes.

“Como é natural, tomei alguns dias para refletir”, admite na gravação, divulgada desde a clandestinidade. “Darei a cara”, assegurou, e pediu aos potenciais manifestantes para acompanhá-lo no percurso “até certo ponto”, para evitar episódios de violência.

Logo depois, o presidente Nicolás Maduro respondeu com uma advertência: “O fascismo não voltará a entrar em Caracas”, mostrando como será a postura oficial de ordem pública ante a eventual marcha. O presidente instou López a aceitar “de boa fé” as gestões que o Ministério Público tem feito para facilitar sua entrega antes da terça-feira, “sem show”, afirmou.

Na noite de sábado, forças de segurança invadiram as casas de López e de seu pai. Maduro denunciou que forças da oposição teriam se proposto a assassinar López para atribuir o atentado ao governo e provocar “uma crise política”.

Maduro fez suas declarações em rede nacional de rádio e TV transmitida desde o palácio presidencial de Miraflores. A plateia no estúdio era formada por “meu exército de tuiteros”, como chamou o mandatário venezuelano aos empregados que operam as contas oficiais nas redes sociais, e por funcionários do metrô de Caracas, que prestaram depoimento sobre as agressões das que seria objeto por parte dos manifestantes. Esses episódios foram os que motivaram Maduro a suspender o serviço de metrô e metrobús para os municípios governados pela oposição. No entanto, informou o próprio presidente, depois de falar sobre o tema com o ministro de Transporte, decidiu suspender a medida e restituir os serviços.

O sucessor de Hugo Chávez à frente da Revolução Bolivariana introduziu em suas “reflexões domingueiras” -como as chamou- um golpe de caráter nacionalista para amalgamar seus seguidores. Segundo relatou, neste domingo o subsecretário de Estado para a América Latina, Edward Alex Lee, convocaria em Washington o embaixador da Venezuela ante a Organização de Estados Americanos (OEA) –Caracas não tem embaixador ante o governo norte-americano-, Roy Chaderton, para lhe comunicar algumas exigências. Entre elas, segundo Maduro, estava a de suspender a ordem judicial de captura contra López sob pena de enfrentar graves consequências “com ramificações internacionais”.

Ante o que considerou uma pressão indevida de Washington, Maduro ordenou a expulsão de três servidores públicos consulares da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas. O presidente venezuelano assegurou que seus serviços de inteligência vinham lhe seguindo os passos aos diplomatas, a quem acusou de incentivar a subversão em universidades privadas.

O relato presidencial busca dar fundamento à versão oficial, segundo a qual os distúrbios dos últimos dias fazem parte de uma trama conspiratória maior guiada por Washington. Neste domingo duas servidoras públicas de alto nível, a Promotora Geral da República, Luisa Ortega Díaz, e a ministra de Informação e Comunicação, Delcy Rodríguez, deram declarações no mesmo sentido, com a novidade de que a ministra Rodríguez agregou uma nova figura ao elenco da conspiração, o “narcoparaco” (narcotraficante com paramilitar) –assim o denominou- Álvaro Uribe Vélez, ex-presidente da Colômbia.

O ex-candidato presidencial e governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles Radonski, deu um giro irônico a essas afirmações oficialistas, durante uma coletiva de imprensa oferecida em Caracas e que não contou com abrangência de meios radioeletrônicos venezuelanos. “Os civis não dão golpes de Estado”, e devolveu a bola ao oficialismo, “de modo que exigimos ao Governo que mostre as evidências dos militares que podem estar atuando contra a Constituição”.

O aparecimento de Capriles pareceu devolver a ele algo da iniciativa política capitalizada, depois dos fatos de rua da última semana, pelos dirigentes da opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) que, como Leopoldo López e María Corina Machado, favorecem opções para além das eleitorais para desalojar ao Governo de Nicolás Maduro. Capriles exigiu ao primeiro mandatário o desarmamento dos grupos paramilitares adeptos à revolução e, conquanto recusou a violência, pediu que não se criminalize aos estudantes “que têm razões para protestar”. Anunciou além disso que logo convocará uma concentração pública “contra a violência”.

Domingo foi o quinto dia seguido de protestos e tumultos, embora de menor intensidade. Manifestantes voltaram a levantar barricadas em frente à sede do principal canal de televisão do Estado, Venezolana de Televisión, localizado no coração de um bairro de classe média de Caracas. Forças antimotins atuaram para suspender o cerco mediante o emprego de gases lacrimogêneos.

A jornada dominical prometia abrir uma trégua após quatro dias de protestos protagonizados por grupos estudantis contrários ao Governo chavista. Pela manhã, centenas de estudantes marcharam sem incidentes pela avenida Francisco de Miranda da capital. Os dirigentes universitários disseram que nesta segunda-feira anunciarão as novas ações de protesto que vão empreender.

Em sua edição dominical o jornal Últimas Notícias, de Caracas, questionou a versão oficial sobre os distúrbios da quarta-feira, os mais graves da semana, que na capital tiveram um saldo de três mortes e dezenas de feridos. Fazendo uma análise de fotos e vídeos amadores, o diário demonstra que servidores públicos da polícia política reprimiram os manifestantes com disparos, e que poderiam ter causado duas mortes. Também no domingo, advogados e ativistas de direitos humanos formularam denúncias sobre supostos abusos sexuais que cometeriam integrantes de forças de segurança contra alguns dos quase 200 detentos depois das manifestações.