Os protestos da oposição na Venezuela deixam três mortos

A televisão venezuelana não transmite imagens da violência em Caracas no horário da tarde, depois do término de um protesto da oposição O órgão regulador Conatel bloqueou o sinal de um canal internacional

Membros da Polícia Científica durante a marcha em Caracas.
Membros da Polícia Científica durante a marcha em Caracas.MIGUEL GUTIÉRREZ (EFE)

Uma manifestação convocada pela oposição ao governo de Nicolás Maduro terminou com um saldo trágico. A procuradora-geral Luisa Ortega Díaz confirmou a morte de três pessoas e ferimentos em outras 23 nos protestos ocorridos em Caracas e nas principais cidades do país.

Nas primeiras horas da noite, os protestos continuaram no município de Chacao, a leste de Caracas. O prefeito da cidade Ramón Muchacho relatou o assassinato de outra pessoa não identificada. Até as 23h (hora local) havia 29 detidos na sede do Comando Regional 5 da Guarda Nacional .

Os distúrbios começaram quando a polícia tentou acabar com a marcha de um grupo de estudantes, que passava em frente à sede do Ministério Público, no centro da capital. Os principais líderes da oposição política imediatamente se distanciaram da violência.

Um dos mortos é o responsável pela coordenação de todos os coletivos – grupos paramilitares armados pelo governo– do bairro 23 de enero, enclave chavista . Seu nome é Juan Montoya. Ele já foi policial em Caracas. Em 2008, e foi acusado de plantar uma bomba na sede da Fedecamaras , o sindicato que representa os representantes sindicais dos empregadores. Montoya estava entre o grupo de pessoas esperando atrás de um cordão policial impedindo a passagem de manifestantes anti- governamentais.

A outra pessoa morta com um tiro na cabeça se chama Bassil da Costa, de 24 anos. Ele era aluno de marketing da Universidade Alejandro de Humboldt.

Um grande número de seguidores da oposição caminhou desde a Praça Venezuela até a sede central da Procuradoria-Geral da República, no bairro La Candelaria. Os estudantes pretendiam entregar um documento em que rechaçavam a prisão de cinco de seus companheiros nos protestos realizados na semana passada nos Estados de Táchira e Mérida, no oeste da Venezuela.

A atividade teve o ponto culminante pouco depois das 14 horas, mas às 15 horas, segundo pôde comprovar EL PAÍS no mesmo local, tudo indicava que a manifestação acabaria em violência. Havia pessoas com pedras na mão e sem camisa. Utilizavam suas camisas para cobrir o rosto. Outras usavam máscaras para evitarem ser asfixiadas pelos gases lacrimogêneos usados pela polícia para reprimir protestos. Sentia-se um forte cheiro de vinagre, produto usado para dissipar os efeitos dos gases. Enquanto isso, um cordão policial impedia os manifestantes de se dispersarem por ruas vizinhas.

Às 15h30 começaram a voar pedras e garrafas em ambos os lados. A polícia avançou para dispersar os manifestantes. Os estudantes correram até a vizinha Avenida Bolívar e para as saídas do metrô. Usuários do Twitter falavam de disparos. A televisão estatal mostrava os manifestantes lançando pedras contra a fachada do edifício do Ministério Público.

Televisão censurada

Enquanto tudo isso acontecia, a televisão venezuelana não transmitia ao vivo as imagens, em um claro indício de autocensura. O canal internacional NTN24 era o único que transmitia. O líder da Vontade Popular, Leopoldo López, e a deputada María Corina Machado, dirigentes da ala da oposição favorável à tomada das ruas para pressionar por uma saída constitucional, se desvincularam da violência em declarações nessas emissoras, e afirmaram que o Governo, por meio de seus grupos paramilitares, provocou a violência.

Às 15h59, William Castillo, presidente da Comissão Nacional de Telecomunicações, o órgão regulador, pediu em sua conta do Twitter às emissoras internacionais: “Respeitem o povo venezuelano. Promover a violência e o desconhecimento das autoridades é um delito”. Foi uma advertência para o que viria depois. Às 18 horas (horário local), a empresa de televisão por assinatura DirecTV retirou a emissora de sua grade de programação. Aos venezuelanos restou sinalizar o canal oficial Venezolana de Televisión ou a transmissão no YouTube da NTN24.

O governo prometeu investigar os fatos e punir os responsáveis. O presidente Nicolás Maduro comparou o movimento desta quarta-feira ao que aconteceu no dia 11 de abri de 2002, quando uma enorme manifestação popular, que terminou em tiros e culminou com a queda do ex-presidente Hugo Chávez. Ele expressou suas condolências às famílias dos mortos , especialmente Montoya , a quem ele disse que conhecia desde os 14 anos de idade.

O ministro das Relações Exteriores, Elias Jaua, acusou Leopoldo Lopez de ser o "autor intelectual das mortes e dos ferimentos em Caracas". "O Estado não tem mais desculpas para não punir esse assassino", acrescentou . "O fascismo se corta pela cabeça. Nosso país merece a paz e a vida " , disse ele via Twitter.

Horas antes, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, afirmou que Montoya era um líder revolucionário e diretamente responsável pelos eventos de Caracas tanto quanto López como Machado, já que esses dois convocaram para o protesto em frente à Procuradoria. "Eles são os responsáveis", disse Cabello.