64ª edição da Berlinale

O ato de fé de Richard Linklater

O diretor norte-americano, favorito ao Urso de Ouro graças a ‘Boyhood’ O filme, rodado durante doze anos, percorre o processo de maturidade de um menino

Richard Linklater durante entrevista coletiva de ‘Boyhood’ em Berlim.
Richard Linklater durante entrevista coletiva de ‘Boyhood’ em Berlim.Target Presse Agentur Gmbh/WireImage

Devemos agradecer a Richard Linklater (Houston, 1960) por sua paixão pela vida. Nada mais. Não os grandes acontecimentos históricos. Não. Simplesmente a vida, que flui, que passa de pais para filhos. Se com sua trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite ele já apontava que o que lhe interessa como cineasta são as pequenas mudanças que acabam moldando as pessoas comuns e correntes, Boyhood, que está em competição e foi apresentado na quinta-feira, se aprofunda nesta visão, muito humana e distante de pretensões elitistas, do que significa ser humano. Aliás, se tornou o filme favorito para ganhar o Urso de Ouro.

Boyhood é um projeto arriscado. Durante 12 anos – “lembro perfeitamente do primeiro dia de filmagem, em julho de 2002”, conta seu autor – Linklater filmou por etapas uma família fictícia composta por uma mãe que luta para completar seus estudos e ir adiante (Patricia Arquette), dois filhos – a menina é a autêntica filha do diretor, Lorelei – e um ex-marido algo maluco (Ethan Hawke).

Richard Linklater (esquerda), junto à sua filha Lorelei, Ellar Coltrane e Patricia Arquette, em Berlim.
Richard Linklater (esquerda), junto à sua filha Lorelei, Ellar Coltrane e Patricia Arquette, em Berlim.REUTERS/Tobias Schwarz

“Quando comecei, eu tinha uma arquitetura do assunto. Não filmamos nas mesmas épocas a cada ano, mas às vezes com nove meses de diferença, em outro momento passaram-se 18 meses entre as tomadas... Eu queria mostrar uma família normal, capturar seus pequenos momentos, não me concentrar no primeiro beijo, na primeira vez que os adolescentes fazem sexo... Não, mostrar o fluir da vida tal e como, passado o tempo, nos lembramos de nossa infância e juventude. Se sabia quando tinha que terminar, porque eu comecei com a entrada do menino [Ellan Coltrane] na escola, aos cinco anos, e acabo com a sua chegada à universidade, com 18”. Linklater, nesta bela obra-prima, mantém o tom e o estilo – “Não há nenhum mérito porque eu, como cineasta, não mudei” – e na tela as crianças vão crescendo harmoniosamente e seus pais, envelhecendo. “Evitei o drama, quis capturar pequenas conversas, a vida”.

Ethan Hawke não está em Berlim e foi curiosamente o primeiro a quem o diretor propôs a aposta.

Durante estes 12 anos, Linklater e sua equipe – mais de 400 pessoas chegaram a se envolver no projeto – preparavam as filmagens durante semanas, rodavam durante três dias e realizavam outra grande pós-produção. E editavam o conteúdo filmado com o que havia sido feito anteriormente: era assim que iam montando o longa durante o processo. A última vez que se puseram diante das câmeras foi em outubro do ano passado.

“Por isso, se somarmos os dias, teremos feito quase dois anos de pré-produção e preparações e outros dois anos de pós-produção e montagem. E nós filmamos em 39 dias. Foi uma pequena produção indie, embora todo esse tempo trabalhado seja economicamente impossível de avaliar”. O conteúdo filmado nunca foi mostrado aos atores até dois meses atrás. Para Patricia Arquette foi um sucesso: “As crianças foram atores mirins, sem sofrer o pior do processo”.

O menino, Ellan Coltrane, contou que foi um momento “catártico”. “Agradeço por não tê-lo visto antes, de verdade. Eu me apaixonei pelo projeto e pela equipe no meio do processo, quando tinha 14 anos”. Lorelei Linklater, sentada ao lado do pai na apresentação e que chorou ao ver o filme pela primeira vez, confessou que quis abandonar o filme no meio das filmagens. “Eu lhe pedi se eu podia morrer”, algo que seu pai rejeitou porque não queria fanfarra dramática. Mas na tela se nota que, se nos primeiros anos as duas crianças aparecem por igual, conforme avança o tempo Mason acaba sendo o protagonista. Ethan Hawke não está em Berlim e foi curiosamente o primeiro a quem o diretor propôs a aposta. “Ele se envolveu totalmente. Eu conhecia a Patricia desde a metade dos anos noventa e continuo sendo sua fã. Minha filha, agora, se distanciou do cinema, é uma grande escultora e pintora [justificando, em parte, a tentativa de ela deixar o projeto], e Ellar... é o filho que não tive. No meio da rodagem pensei que acabaria em algo relacionado à música, mas ele começou a tirar fotos, uma paixão que acrescentamos ao seu personagem”.

Linklater apresentou um “ato de fé”, segundo suas próprias palavras, porque se lançou à produção sem saber se chegaria a um bom resultado. “Era a fé na colaboração. Por exemplo, não assinamos contratos nos primeiros sete anos. A verdade é que os pais de Ellar foram maravilhosos, nem tanto os de Lorelei”, brinca. Na verdade, é um ato de fé na força do cinema, na capacidade emocionante de recuperar o tempo – que marca a habitual insatisfação humana – de recuperar as memórias.

Boyhood dura 164 minutos hipnóticos, que também servem para retratar a classe média norte-americana. “Eu vivo em Austin, e a ação se passa ali, em Houston e em San Marcos [cidades no Texas]. No filme aparecem Los Angeles ou Nova York, mas a maioria dos norte-americanos é criada nessas cidades pequenas”. Graças às canções ouvidas durante o filme, Linklater consegue capturar a cultura, “algo que foi o mais divertido das filmagens, que também tinha muito a ver com o espírito do projeto”. A política também está presente: os atentados de 11 de setembro de 2001, George W. Bush, a eleição de Obama... “embora sem grandes divagações ou pensamentos. Quando você é criança essas coisas te chegam pelas conversações dos pais, pelo o que vê na rua. Sua base política é marcada por pequenas conversas em casa”.

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