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A Venezuela alcança a inflação mais alta do mundo

A inflação de janeiro chegou a 3,3%. Em um ano, os preços subiram 56,3%

Cartazes com reprodução de cédulas, em Caracas.
Cartazes com reprodução de cédulas, em Caracas. EFE

O Banco Central da Venezuela (BCV) divulgou nesta terça-feira o índice de escassez – que mede a ausência total de bens e a impossibilidade de substituí-los por equivalentes de outra marca – do primeiro mês de 2014. A menor oferta de todos os bens no mercado nacional já prenunciava o que foi revelado. O índice ficou em 28%, a cifra mais alta desde que o organismo passou a apresentar esse indicador, 5,8 pontos percentuais a mais do que o resultado de dezembro.

Até então, o número mais elevado havia sido registrado em 2008, quando o BCV anunciou uma escassez de 24,7%. Esse índice é obtido com base numa média do registro de todos os itens que o compõem. Essa situação permitiu que o organismo estabeleça uma análise otimista no comunicado à imprensa em que explicava os resultados. “Nos alimentos básicos, o resultado foi de 26,2%, o que representa um melhor abastecimento desses itens com relação ao mês de dezembro (28,3%). Para o nível de escassez de janeiro foi determinante a menor disponibilidade de veículos, motocicletas e outros itens que não estão associados às necessidades essenciais da população venezuelana.” No caso dos mantimentos, significa que em 26 de cada 100 estabelecimentos visitados não há mantimentos básicos. A inflação, enquanto isso, registrou uma variação de 3,3% em relação ao mês anterior, a mais alta do mundo. Em um ano, os venezuelanos viram um aumento de 56,3% nos preços.

A Câmara Automotriz Venezuelana afirmou na semana passada que, no primeiro mês do ano, a montagem de veículos havia diminuído 84% com relação a janeiro passado. Ontem, a fila em frente a uma concessionária de motos Empire, no bairro de Los Chaguaramos, em Caracas, dava voltas no quarteirão. Um caminhão repleto de motos esperava para descarregar diante do olhar de expectativa dos clientes.

A escassez de produtos reflete uma contração da oferta. Em janeiro, como recorda o jornal El Universal, o Governo distribuiu 1 bilhão de dólares ao câmbio preferencial – de 6,30 bolívares por dólar – a menos que um ano antes, além de suspender o leilão de divisas convocado no fim de janeiro. A Venezuela, que importa quase tudo o que consome, está vivendo com os poucos estoques que restam no setor privado e com as importações públicas. O empresariado se nega a trazer mercadorias, porque teme que sua estrutura de custos seja afetada pela nova Lei Orgânica de Preços Justos – que estabelece um teto de 30% nas margens de lucros –, além do risco de arbitrariedades do Governo na sua aplicação.

Todos esses contratempos sofridos pelas companhias não parecem preocupar o BCV. “A população continua recebendo, com igual ou superior intensidade, os benefícios que o Estado brinda em todo o país, através do sistema público de comercialização, no qual podem ser adquiridos os mantimentos da cesta básica a preços solidários”, diz a nota distribuída à imprensa na terça-feira. Embora o BCV mantenha uma lista técnica que, segundo especialistas, não está contaminada por veleidades políticas, o órgão perdeu a autonomia que teve no passado. A Lei de Reforma do Banco Central da Venezuela, aprovada em 2005, estabeleceu o conceito de “reservas ótimas”, pelo qual passaram a ser destinados ao Executivo, sem nenhuma supervisão, todos os dólares que ingressam nos cofres nacionais acima de um teto, o que iniciou um processo que explica a tomada de partido do organismo.

 O governo afirma que a disparada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor, como é chamado tecnicamente, se deve a uma “guerra econômica” iniciada pela “burguesia parasitária”. Apesar disso, o BCV observa que a grande maioria dos itens que compõem o índice – 9 entre 13 – está abaixo do indicador mensal. Sobre este resultado, o órgão emissor adiciona: “As taxas interanuais correspondentes aos últimos quatro meses (54,3%, 52,8%, 56,2% e 56,3%) determinam a interrupção da tendência de alta que caracterizou o comportamento do ano anterior até o mês de outubro”. Em outras palavras, a inflação se estabilizou.