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A Petrobras é castigada com a fuga de capitais do Brasil

A companhia já perdeu quase 36 bilhões de reais em valor de mercado desde o início do ano, com a volatilidade do mercado financeiro global e as incertezas sobre seu plano de investimento

Se algum investidor tivesse comprado as ações da Petrobras em novembro de 2008 e voltado para olhá-las apenas agora, iria pensar que elas não saíram do lugar. Os papéis da empresa, que chegaram a valer mais de 40 reais nos tempos áureos, estão hoje na casa dos 14,30 reais. Apenas em 2014 as perdas em suas ações já somam cerca de 16% e a empresa foi a que mais perdeu valor na BM&FBovespa, ou 36 bilhões de reais. Nesta quinta-feira, os papéis da empresas se recuperaram e subiram mais de 2%, mas o movimento foi visto somente como um repique pontual, puxado por dados positivos do emprego mais forte nos Estados Unidos. A expectativa é de um ano duro para a maior empresa do país e a quarta petroleira do mundo.

Na quarta-feira, os papéis da Petrobras tinham caído mais de 3%. O resultado foi atribuído à prorrogação do prazo de divulgação do balanço patrimonial, que passou do dia 14 deste mês para o dia 25. O ministro da Fazenda e presidente do conselho de administração da Petrobras, Guido Mantega, afirmou, no entanto, que a prorrogação foi decidida para dar mais tempo de levantar dados para a reunião da diretoria. Posturas como essa, somadas com uma política defasada de reajuste do preço dos combustíveis, estão causando uma fuga de investidores que chega a ser considerada exagerada por alguns especialistas.

“Cada vez que o ministro da Fazenda abre a boca, as ações da Petrobras caem mais”, diz o analista Antonio Carlos Góes, da TOV Asset. O valor das ações deveria ser de 26,17 reais, de acordo com os cálculos do gestor da HPN Invest, Paulo Brito, em vez dos atuais 14,22 reais. Esse valor reflete quanto uma outra empresa teria de investir se fosse construir um patrimônio que pudesse entregar as mesmas receitas que a Petrobras consegue obter. A defasagem se explica por uma série de fatores, entre eles, o alto endividamento, e a intervenção política para que a gasolina não aumente e não impacte na meta inflacionária brasileira. “O Governo tem uma política clara de priorizar o controle da inflação por meio dos preços dos combustíveis, em vez de agregar valor à empresa. Os fundos de investimentos e os investidores institucionais já perceberam isso.”

Para o professor Edmilson Moutinho dos Santos, da Universidade de São Paulo (USP), as eleições presidenciais devem levar o Governo a adiar reajustes dos combustíveis que equiparem o mercado interno ao internacional. “Pode ocorrer um aumento dos preços até a casa dos 6%, mas é difícil imaginar que o Governo vá apertar esse gatilho impopular. O fato é que, terminadas as eleições, o novo presidente da República vai ter de fazer esses aumentos”, afirma ele. Como as eleições só acontecem no final do ano, os investidores estão pagando o que a companhia vale neste momento, ou seja, menos do que deveria.

O professor da USP é um dos que acreditam que a desvalorização da ação da Petrobras foi excessiva, sem refletir a realidade financeira da empresa. “Muita gente que entrou para investir na esteira (das descobertas de petróleo) do pré-sal não fez as contas. Esses investimentos são de médio prazo a longo prazo e esses poços agora estão começando a produzir em um nível que já corresponde a 25% do consumo diário do país, que é de 2 milhões de barris. O retorno vai acontecer”, diz ele. “Eu investi em 2008 na empresa para a minha aposentadoria. De lá para cá, o cenário para produção da empresa até 2030 e suas reservas não mudaram significativamente, e uma empresa petroleira tem seu valor medido basicamente por esses fatores.”

Além disso, o analista Brito afirma que a perspectiva de retomada da produção, que caiu cerca de 5% em 2013 no país, prevalece para o ano de 2014. “Não estamos falando de uma expectativa distante. O mercado trabalha com projeções de aumento da produção em torno de 5% a 10% este ano. E muitos investidores estão vendo uma oportunidade em investir agora na empresa”, diz ele.

No dia 25, quando divulgar seu balanço, a companhia vai apresentar seu plano de negócios revisto. No planejamento atual, a meta é investir 236 bilhões até 2017. A companhia tem vivido um processo de ajuste de contas, para reduzir o endividamento, vendendo alguns ativos e reduzindo custo de produção. Mas o valor das ações ainda não refletem essas melhorias. Estão numa proporção de sete vezes o valor do lucro da petroleira, segundo a gestora Franklin Templeton. Os papeis da AmBev, por exemplo, dona das marcas de cerveja Brahma e Skol, têm uma proporção de 19 vezes o lucro. Por ora, é melhor investir em cerveja do que em petróleo no Brasil, apesar das ricas descobertas dos poços de petróleo na camada do pré-sal. Um cenário ruim para a companhia que já foi vedete internacional e hoje é castigada pelos investidores que permitiram aumentos de capital generosos em outras épocas.

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