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A filha de Woody Allen rompe o silêncio e acusa o pai de abusos sexuais

Dylan Farrow relata pela primeira vez, em uma carta dentro de um blog do jornal 'The New York Times', o abuso sofrido quando tinha sete anos

Woody Allen, no último mês de agosto em Paris.
Woody Allen, no último mês de agosto em Paris. AFP

Dylan Farrow, filha adotiva de Woody Allen, relata em uma carta publicada dentro de um blog do diário The New York Times os supostos abusos sexuais aos quais foi submetida por seu pai quando tinha sete anos. Esta é a primeira vez que ela, agora com 28 anos, falou publicamente sobre o caso, que veio a tona em 1993 depois da difícil separação entre o cineasta e a atriz Mia Farrow.

A carta de Dylan Farrow detalha um episódio concreto que aconteceu quando ela tinha sete anos e que se repetiria mais para frente. “Ele me disse para ficar de bruços e para brincar com o trem elétrico de meu irmão. Então, abusou de mim sexualmente”, lembra Farrow. “Falava comigo enquanto o fazia”, prossegue ela, com um relato singelo, mas ainda assim muito impactante. “Ele sussurrava que eu era uma boa criança e que este seria nosso segredo, me prometia que iríamos para Paris e que eu seria uma estrela do cinema (...) Até hoje, é muito difícil pra mim ver um trem de brinquedo”.

A carta de Farrow chega após as críticas feitas pelo seu irmão Ronan depois do tributo recebido por Allen na última entrega do Globo de Ouro. Na ocasião, o jovem questionou se alguém que cometia este tipo de abuso devia ser premiado. Dylan Farrow pergunta agora à atriz Cate Blanchett ou ao ator Alec Baldwin o que aconteceria se o abusado fosse um de seus filhos. “E se fosse você, Emma Stone? Ou você, Scarlett Johansson?”, questiona. “Diane Keaton, você me conheceu quando eu era uma criança. Esqueceu?”

Farrow diz que se considera afortunada porque depois de anos de abusos  –que lhe provocaram desordens alimentares e crises em que ela se machucava com cortes –hoje em dia é uma mulher felizmente casada, mas que durante muito tempo foi impossível deixar que algum homem a tocasse. “Eu me escondia para evitar, mas ele sempre me encontrava”, explica sobre os ataques de Allen. “Sempre pensei que isso era o que os pais faziam com suas filhas”, prossegue. “Até o incidente com o trem", confessa. “Então decidi que não podia guardar mais esse segredo”.

A jovem lamenta que seu silêncio tenha permitido que Allen pudesse ter abusado de outras crianças e relata como a sociedade lhe deu as costas em detrimento do homem famoso e respeitado, que colocou em dúvida a versão da mãe, que foi acusada de mentir para prejudicar o cineasta.

Woody Allen nunca foi formalmente acusado pelo caso, que encheu páginas e páginas dos tabloides. O diretor sempre negou as acusações. A carta é publicada dentro do blog do jornalista Nicholas Kristof, que costuma escrever e pesquisar sobre estes abusos e a tratar de pessoas. Kristof diz que Allen tem direito à presunção de inocência, mas que considera que a voz da jovem Farrow devia de ser ouvida depois do debate surgido devido ao Globo de Ouro.

O último filme do diretor de Manhattan , Blue Jasmine, concorre a três prêmios no Oscar, incluindo o de melhor roteiro original, obra de Allen. “Woody Allen é a prova viva da maneira como nossa sociedade falha com os sobreviventes de abusos e ataques sexuais”, afirma sua filha adotiva. Dylan Allen começa (e termina) sua carta perguntando aos leitores: "Qual é seu filme favorito de Woody Allen?”.