O Eurogrupo acredita que os sócios do euro estão a salvo do contágio

A Comissão Europeia exige medidas do BCE para evitar a deflação

Mario Draghi e o comissário de Assuntos Monetários, Olli Rehn.
Mario Draghi e o comissário de Assuntos Monetários, Olli Rehn.F. L. (REUTERS)

A Grande Recessão, a segunda maior crise do capitalismo depois da Grande Depressão do século passado, continua mostrando suas mil e uma caras. Até agora teve duas facetas, pois seus efeitos foram muito mais nocivos para o primeiro mundo do que para o segundo mundo. Pode ser que isso esteja acabando: em uma das suas primeiras mutações, a crise passou dos EUA para a UE, e era questão de tempo até que cruzasse para a Ásia e os grandes emergentes. Os líderes europeus sentem um mal disfarçado alívio pelo fato de terem se afastado dos holofotes. E acreditam estar a salvo: tanto o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, como o vice-presidente econômico da Comissão, Olli Rehn, asseguraram nesta segunda-feira que, apesar da lógica inquietação, os sócios do euro “não estão especialmente preocupados com os riscos de contágio”.

Essa é uma velha história. Quando estourou a crise, a Europa viveu placidamente durante meses, inclusive cunhando o termo desacoplamento (decoupling), uma ilusão adotada pelos líderes da zona do euro para explicar que a crise era financeira e norte-americana, relacionada com as loucuras dos bancos dos EUA em relação às hipotecas podres, e que nada tinha nada a ver com a Europa. Até que, de repente, a música deixou de tocar. Algo parecido aconteceu nos anos noventa, quando a Europa se considerava alheia às crises asiáticas.

Com uma sombria semelhança em relação às explicações que os dirigentes davam naquela época, Dijsselbloem afirmou que a posição da eurozona “é diferente” daquela dos países que agora se veem envoltos em dificuldades. “Será preciso manter os progressos com as reformas e as políticas fiscais”, disse, “mas as turbulências estão mais relacionadas com os mercados de divisas e as políticas de EUA [os programas de abrandamento quantitativo, com compras maciças de dívida por parte do Federal Reserve]”. Rehn se mostrou um pouco mais precavido: “As turbulências deveriam servir como aviso de que os riscos ainda estão presentes”.

Os problemas da Europa não estão diretamente relacionados à entrada maciça de capital que valorizou as moedas dos países emergentes nos três últimos anos – para agora viverem um movimento pendular contrário, com fortes oscilações, após o mero anúncio de que os EUA pretendem retirar os seus estímulos fiscais. Mas na verdade também a União sofre os efeitos secundários da política monetária norte-americana: o euro se manteve forte ao longo de toda a crise – o que dificulta a recuperação pela via das exportações –, e a zona do euro flerta há semanas com a deflação, tanto pela recusa do BCE em embarcar nesse tipo de política monetária quando pelos ajustes fiscais em alguns países. Rehn foi excepcionalmente direto a respeito disso: “Um período muito prolongado de inflação baixa atrapalha os ajustes necessários no sul [da eurozona] e não beneficia a UE em seu conjunto”. Tradução livre: o BCE deveria ser ativado.

Em geral, Bruxelas vê com preocupação, mas à distância, as dúvidas que emergem sobre o sistema bancário chinês e o superaquecimento da economia brasileira. E se considera alheia aos problemas que saltaram como uma mola nas economias possivelmente mais frágeis: Argentina e Turquia. Ao mesmo tempo, os mandarins do euro não deixam de repetir que o pior da crise europeia já passou, e que os resgates funcionam, passando por cima do fato de que ninguém está a salvo de uma nova onda de pânico nos mercados. Em meio a esse estado de ânimo, a Espanha monopolizou nesta segunda-feira elogios na reunião do Eurogrupo (o conjunto dos ministros das Finanças da zona do euro), apesar de as empresas espanholas terem interesses em muitos dos países que estão metidos em dificuldades, que a recuperação da economia espanhola seja ainda muito pálida, e que o desemprego continue em 26%. Os sócios do euro celebraram “o sucesso” do resgate financeiro, para depois lançarem o refrão habitual: “Incentivamos as autoridades espanholas a manterem com determinação o impulso das reformas”.

O ministro Luis de Guindos recebeu a salva de palmas e, no que diz respeito aos emergentes, se aferrou a cantilena oficial: limitou-se a assinalar que as empresas espanholas têm uma exposição “reduzida” na Argentina, e que, portanto, o risco de contágio é limitado. “A Espanha deixou a recessão para trás e está comprometida com as reformas”, disse ele, respondendo à imprensa do seu país.

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