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Um ‘rolezinho’ no shopping JK contra a proibição dos ‘rolezinhos’

A manifestação reuniu mais de dez entidades que protestaram contra o racismo e contra a liminar obtida pelo centro de compras, que acabou fechando as portas, temendo confusão

Manifestantes com bandeiras e um cartaz que diz "No país da Copa do Mundo, shoppings racistas proíbem a entrada de pessoas negras e pobres".
Manifestantes com bandeiras e um cartaz que diz "No país da Copa do Mundo, shoppings racistas proíbem a entrada de pessoas negras e pobres".

O shopping JK Iguatemi, no bairro Itaim Bibi, zona nobre de São Paulo, foi o palco de mais um rolezinho esta tarde. No entanto, diferente dos rolezinhos iniciados em dezembro em shoppings da periferia da cidade, este não contou somente com pretos e pardos da periferia. Mais de dez associações e grupos que lutam contra o racismo atenderam ao chamado da União de Núcleos da Educação Popular para negros e classe trabalhadora, a UNEafro, incluindo universitários da Universidade de São Paulo (USP), Pontifícia Universidade Católica (PUC) e Presbiteriana Mackenzie. A razão principal da mobilização foi a liminar concedida a seis centros comerciais semana passada, entre elas a do Iguatemi JK. Há uma semana, o shopping indicou que obteve a liminar ao saber que um rolezinho estava sendo organizado através das redes sociais, o que justificou o possível impedimento de "jovens desacompanhados" de entrarem no local, em uma seleção que poderia ser arbitrária.

A concentração foi marcada para as 12h no Parque do Povo, ao lado da estação de trem Cidade Jardim. Às 14h um grupo de cerca de 300 pessoas caminhou até o shopping, a poucos metros do parque. Assim que se aproximaram, as portas foram fechadas pelos seguranças. A proposta da manifestação, publicada no Facebook era fazer um "Rolé contra o racismo JK Iguatemi – Para denunciar Shopping, Polícia, Justiça e Estado racistas!". Nem mesmo quem ia trabalhar conseguiu entrar, como Larissa: "Vim, não entrei e resolvi ficar porque desde muito cedo determinaram os locais onde os negros devem estar. Fiquei para apoiar", explica. Já Noeli Patrícia trabalha no shopping e foi liberada porque "decidiram fechar a loja". Segundo ela, a maioria das lojas estavam fechadas, mas ainda havia gente comprando nas lojas que permaneceram abertas. Enquanto isso, lá fora, a batucada era acompanhada por pessoas que entoavam letras do Rappa e dos Racionais.

Segundo a assessoria de um dos empreendimentos mais luxuosos da cidade, o shopping permaneceria fechado sem previsão de abertura. Também confirmou que não havia confinamento de clientes e que "quem quisesse sair poderia utilizar a saída indicada", sem determinar o local exato. No momento da manifestação, com bandeiras dos movimentos, bateria e muitos cantos na entrada principal do shopping, alguns carros ainda conseguiram entrar pelo estacionamento, que foi fechado rapidamente pelo enfurecimento dos participantes. Marcela Carbone, membro da Assembleia Nacional dos Estudantes Livres (Anel), explicou que além de revogar a liminar, "temos que cobrar da justiça que se desculpe pela discriminação". Para ela, não se trata somente do acesso ao shopping, mas a todos os serviços públicos, "como educação, transporte e saúde". Ainda assim, um grupo com dez representantes e um advogado foi até o 96° DP para fazer um boletim de ocorrência para "registrar um caso de racismo e discriminação", completa.

O representante da UNEafro, Douglas Belchior, vai além da briga pelos direitos e analisa os rolezinhos como um subproduto da melhora econômica do país nos últimos anos. "O shopping contraditoriamente recusa um público que ele foi buscar: passamos por um período que a população que teve mais acesso à renda e ao consumo, sim, mas esta população também passou a ser 'frequentada' pelos shoppings, que agora lhe recusa a presença de maneira preconceituosa e discriminatória", explica. O advogado que acompanhou o grupo, Dr. Elizeu Soares Lopes, alegou que se trata de um "crime de constrangimento legal" o impedimento de entrar em um shopping, "simplesmente porque são pobres ou negras", concluiu, ovacionado pelos participantes.

Entre os movimentos que engordavam a voz no cântico "Que coincidência! Não tem polícia, não tem violência!" estavam a UNEafro, o Movimento dos Sem Terra, a Marcha Mundial das Mulheres, o Quilombo Raça e Classe, a Frente Perspectiva, Consulta Popular, CSP-Conlutas e Coletivo Construção. Beatriz Lourenço, participante do Levante Popular da Juventude, foi à concentração porque "um rolezinho deveria ser algo natural, a juventude pobre deveria ter acesso a todos os lugares. Não podemos aceitar uma liminar que decide isso por eles". E completa: "Só é natural ver negros em shoppings como este quando entramos para trabalhar como faxineiras ou seguranças". Até mesmo quem não participa de nenhum movimento, apareceu por lá. Izabel Sampaio ficou sabendo do encontro pelo Facebook e decidiu "incomodar". "A gente naturalizou o racismo no Brasil, existe uma desigualdade velada, todos se colocam nos seus lugares para que ninguém se incomode", dispara.

A concentração começou a se dispersar ao redor das 17h, diante da impassividade dos seguranças do shopping, que não se dirigiram aos manifestantes em nenhum momento. Os pequenos grupos que permaneciam, discutiam sobre a entrevista do presidente da Alshop (Associação Brasileira dos Lojistas de Shopping), Nabil Sahyon, ao site Terra, onde ele afirmou que vai propor à Prefeitura e ao governo do Estado que criem espaços como o Sambódromo como opção de lazer aos jovens. Quando já não havia gente e o último grupo estava quase na esquina, Douglas gritou para os seguranças: "Pode abrir agora".

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