Rússia busca petróleo e gás da Síria

Moscou blinda a aliança com Assad por meio de um acordo para explorar as reservas em águas sírias O investimento russo no processo é de 65 milhões de euros

Poço de petróleo na fronteira entre a Síria e a Turquia.
Poço de petróleo na fronteira entre a Síria e a Turquia.FABIO BUCCIARELLI / AFP

A Rússia poderá procurar petróleo e gás em águas territoriais sírias durante os próximos 25 anos. Os governos de Moscou e Damasco firmaram um acordo energético que deixará em mãos russas a perfuração, extração e prospecção de uma possível jazida localizada no leste do mar Mediterrâneo, onde já foram detectados grandes bolsões de gás natural em águas de Chipre e entre essa ilha e Israel. Trata-se da primeira permissão de exploração offshore que a Síria concede a um país estrangeiro, e a entrega à sua principal aliada, a nação que continua protegendo o presidente Bashar al Assad, que bloqueia as condenações a seu regime no Conselho de Segurança das Nações Unidas e que se nega a aplicar a política internacional de sanções, mantendo seus laços comerciais – especialmente os armamentícios –robustos como sempre.

Suleiman Abbas, o ministro sírio do Petróleo, disse em uma entrevista coletiva à imprensa que a exploração se dará em uma área de 2.190 quilômetros quadrados entre Banias e Tartus. É nessa última cidade costeira, aliás, que a Rússia mantém sua última base militar no país, unidade fundamental para apoiar sua Marinha a caminho do mar Negro. A empresa concessionária do projeto é a Soyuzneftegaz, controlada pelo Banco Central da Rússia, cujo presidente é o ex-ministro de Energia Yuri Shafrakin. Ela já tem esboçado um plano de ação em duas fases: a de pesquisa, topografia e prospecção, no valor de 15 milhões de dólares (quase 11 milhões de euros), e a de perfuração, de 75 milhões de dólares (54,5 milhões de euros). O custo do projeto variará conforme as reservas que forem encontradas. Incluirá ainda a formação de todo o quadro de pessoal.

A agência oficial síria de notícias, a Sana, afirmou que os trabalhos podem começar de imediato, mas levará anos até que todo o projeto seja posto em prática. “É um grande desafio”, reconhece o ministro. “E uma prova das boas relações que mantemos”, completou o embaixador russo em Damasco, Azamat Kulmuhametov.

A Soyuzneftegaz, com investimentos no Iraque e Uzbequistão,já detinha desde 2012 concessões no território sírio, onde abriu dois poços que por enquanto não produziram petróleo algum. Esse novo projeto, segundo confirmou o ministro Abbas, estava sendo negociado havia meses. Ele não deu um claro motivo para ter sido acelerado agora, já que um investimento tão complexo e elevado requer um alto grau de estabilidade, hoje distante, considerando que se tem ao fundo um conflito de quase três anos e cifras próximas de 125.000 mortos.

Pode ser entendido, então, como uma tentativa de Moscou de reforçar sua tutela e seu poder político sobre Damasco, de mostrar à comunidade internacional que continuará a seu lado nas negociações de paz que em 22 de janeiro começarão em Genebra (Suíça), de sustentar uma frente comum perante os opositores. Como explica o Syria Report, um site especializado na economia do país, “é um meio de a Rússia capitalizar seu apoio político à Síria”, uma simbiose entre geoestratégia, economia e política.

Para a Síria, muito além do respaldo internacional de seu aliado, representa um balão de oxigênio, uma via para receber dinheiro e fazer frente ao buraco em seus cofres que as sanções estão deixando em seu mercado petrolífero, um sustentáculo importante para a economia nacional. Antes da revolução transformada em guerra, a Síria produzia 370.000 barris por dia – 0,4% do suprimento global – e exportava menos de 150.000, na maior parte para a Europa. Essa produção, com o veto, caiu 90% desde março de 2011. No caso do gás, passou de 30 para 16,7 milhões de metros cúbicos por dia. São dados divulgados pela France Presse, citando fontes oficiais.

A infraestrutura síria de petróleo e gás sofreu importantes prejuízos com o conflito, com tubulações, refinarias e trens afetados pelos combates entre o Exército e os rebeldes armados. Na quarta-feira, por exemplo, o gasoduto que nutre a capital do país foi atacado pela terceira vez este ano, com os consequentes cortes de fornecimento.

Além do mais, as outras reservas importantes de petróleo estão localizadas no norte e nordeste, regiões de maioria sunita atualmente sob controle de diversas facções da oposição. O grupo Exército Livre da Síria (ELS) garantiu em vários comunicados que é capaz de furtar 40.000 barris por dia, uma cifra impossível de ser confirmada de modo independente.

O governo de Assad acusa os dissidentes de levarem o petróleo à Turquia, onde é refinado, financiando-se dessa maneira.

"É o regime que esgota os recursos de nosso país. Esse acordo é um intercâmbio de riquezas da nossa pátria”, denunciou a Coalizão Nacional Síria. O maior grupo opositor assegura que Assad busca com o acordo a entrega de mais armas russas “para matar o povo sírio” – indica em um comunicado, no qual adverte Moscou de que será “cúmplice”. Segundo o instituto Internacional de Estudos para a Paz, de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês), as exportações de armas da Rússia para a Síria passaram de 1% para 4% do total, considerando somente os anos da guerra.

Joseph Daoud, assessor da Coalizão que trabalha com os refugiados na Jordânia, teme que o acordo energético russo-sírio seja “a garantia de que Assad permaneça no poder”. “A Rússia vai querer que seu investimento fique protegido”, resume. “É mais uma desculpa para pedir que ele fique no governo de transição, quando o que nós pedimos é que Assad não esteja presente, porque ele é a origem do mal”, diz. Fontes da Defesa de Israel ressaltam que o pacto não produziu um grande debate internacional, “o que leva a pensar que era um passo conhecido de Washington”. “Pode ser que os EUA o tenham aceitado em troca de que a Rússia ajude de verdade na obtenção de um acordo político em Genebra", afirmam.

Por ora, a Rússia mantém uma semana intensa de atividade para detalhar os avanços do regime de Damasco na eliminação de seu arsenal químico. A primeira fase de destruição das armas, de acordo com informações de Moscou, foi concluída, e a segunda terminará em abril.

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