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Vallejo, o vazio e o massacre dos frangos

O escritor colombiano apresenta na Feira de Guadalajara seus últimos livros, 'Peroratas' e 'Casablanca la bella'

Pablo de Llano Neira
Fernando Vallejo, sábado, em Guadalajara.
Fernando Vallejo, sábado, em Guadalajara.P. DE LLANO

O escritor Fernando Vallejo (Medellín, 1942) considera que a existência é um assunto nefasto, uma dor absurda da qual se tarda muito tempo –e muitas palavras– para escapar. Neste sábado reiterou essa ideia em um ato na Feira do Livro de Guadalajara. “Por que há de se amar a vida, se é um desastre, é dolorosa, é terrível, se estão massacrando nos matadouros milhões de vacas, de frangos, de porcos? A vida é dolorosa e a felicidade não tem pudores. Se estamos cercados de dor, por que vamos ser felizes?”.

Uma coisa curiosa de Vallejo é o contraste entre seu discurso niilista e seu bom humor. Falar do ruim, do fim dos tempos, do desastre, do horror de que é capaz a humanidade –sobretudo certas partes da humanidade às quais odeia com especial vontade: líderes religiosos e políticos– é uma tarefa que parece caber bem nele. À tarde, o autor de Virgem dos Sicários estava risonho. Com uma jaqueta cinza, uma camisa azul, e uma cor rosada nas bochechas, como um menino. Vallejo estava apresentando seus dois últimos livros, Peroratas (Peroradores, em tradução livre) e Casablanca la bella (Casablanca, a bela). Acompanhavam-no a diretora editorial da Alfaguara, Pilar Reyes, e o jornalista de EL PAÍS Juan Cruz.

Perto do fim da conversa, após Vallejo ressaltar o suficiente o inconveniente absoluto de ter vindo ao mundo, Cruz lhe perguntou:

–E o que lhe acalma?

–Estar com vocês agora –respondeu Vallejo, com feições de alegria–. Estou muito entretido. –E enfatizou–: Saindo daqui, volto ao vazio.

Ao terminar o ato, enquanto autografava livros, uma senhora se aproximou e disse a ele de forma muito misteriosa que a frase sobre o vazio tinha impactado profundamente a ela. Vallejo olhou-a sorrindo e não lhe disse nada, continuou assinando livros. “Para Manuel, professor”, disse-lhe um fã. “Com eme?”, consultou-lhe o romancista. “A Valeria, professor”. “Professor, José Pablo”. “Professor, meu marido é austríaco e quer ler em alemão seu livro Puta de Babilonia” (A Prostituta da Babilônia).

“Professor”, “professor, uma foto”, “professor, estou emocionado de estar com você, vim de Cozumel (ilha mexicana) para vê-lo”. E Fernando Vallejo autografava, Fernando Vallejo permitia que o pusessem ao lado para uma fotografia, Fernando Vallejo não deixava de sorrir. O mesmo Fernando Vallejo que minutos antes dizia: “Estamos parados no tempo e atolados em nós mesmos, odiando com os mesmos ódios, amando com os mesmos amores, e o carro que passe vai nos atropelar, e está aí o ruído dos vizinhos, e o ruído do Papa, e isso somos: ruído e ruído e ruído. Isso somos, um atoleiro de nós mesmos”. “Professor, uma foto”. “Professor". "Professor".

Contou Fernando Vallejo que ele já escreve somente para passar o tempo. Sobre seu livro Casablanca la bella disse que havia parecido uma maneira útil de “preencher dois meses” de vida. Disse que perdeu o interesse pelo cinema, pelos restaurantes, pelas reuniões, que já quase não fala com ninguém. Segundo ele, neste mundo não vale a pena construir nada, porque o tempo leva tudo, como no caso das pirâmides, as quais prognosticou que, afinal de contas, acabarão sendo arrasadas pela areia.

Vallejo, que recebeu em 2011 o prêmio da Feira do Livro de Guadalajara, ditou cátedra como de costume sobre as imundícies desta vida, o fez com simpatia, com essa ternura que coexiste comodamente com sua ira para 90 e tantos por cento das coisas, entes e indivíduos que compõem o mundo. Uma ampla percentagem de desprezo que, entre outros elementos escolhidos, não inclui a sua cadela Kina nem o mítico cantor mexicano José Alfredo Jiménez: “Eu não amo a literatura”, disse Fernando Vallejo, “eu amo José Alfredo e as músicas que me tocam o coração”.

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