Brasil busca seu nicho no mapa das passarelas

A semana de moda de São Paulo se reinventa para enfrentar seu futuro

Parece estranho dizer que pela primeira vez o Brasil pensa pequeno quando daqui uma semana terminará no Rio o lançamento da quarta coleção de inverno do país no ano. Mas a última edição da São Paulo Fashion Week foi reduzida, com o orçamento encolhido e uma ausência generalizada de novas propostas.

Em meio à pressa e à improvisação, Pedro Lourenço se viu forçado a cancelar seu desfile, porque não teve tempo de trazer a coleção do seu ateliê em Nova York. Modelos que vivem em Paris não tinham, a menos de uma semana da inauguração, nem ideia do seu plano de trabalho.

Atípica, essa semana precisou ser considerada como de transição. O Brasil mudou seu calendário, e os estilistas tiveram que procurar em seus baús o DNA de suas marcas para tecer, em dois meses menos que o previsto, o que venderão no próximo inverno para o resto do mundo.

Os eventos de moda de São Paulo e do Rio não serão mais em janeiro e junho, e sim em março e em outubro, para que as empresas tenham mais tempo de confeccionar as roupas desde o lançamento nas passarelas até a chegada às lojas. Isso foi um pedido dos próprios estilistas para ajudá-los a lidar com o lento, enorme e ainda caro processo de produção do país, onde eles vendem 95% de suas criações.

O quebra-cabeça das datas é também mais um passo rumo à profissionalização do setor, para a qual Paulo Borges, organizador dos desfiles e considerado o pai da moda brasileira, trabalha há 15 anos. O calendário também se aproxima à programação internacional, na que o Brasil busca seu papel.

A Osklen, uma das marcas com maior presença no exterior, foi a primeira a passar no teste. Oskar Metsavaht apresentou uma coleção de apenas 18 propostas numa pequena galeria no rico bairro dos Jardins. Foi o “resumo do seu trabalho”, disse ele. E foi também a confirmação de que a Osklen cria com um olho voltado para os seus admiradores fiéis do jet-set brasileiro, e com o outro na sua crescente clientela de Tóquio, Roma, Buenos Aires e Miami. Isso explica por que a marca elegeu a sofisticação dos anos 1960 em Aspen e o estilo rústico da Patagônia para desenhar coletes de lã vermelhos, pretos e brancos, saltos de couro e calças de neoprene. Um look gélido, com as costas nuas, difícil de digerir no Brasil.

Várias das propostas vistas nestes dias em duas tendas no Parque Villa-Lobos – o grandioso pavilhão da Bienal estava ocupado nesse período – parecem o rescaldo do que foi apresentado durante a coleção primavera-verão de 2012, em Paris. A reinterpretação aqui é assumida. “Eu não acredito em tendências, é apenas uma expressão usada para orientar o consumo. Está tudo inventado, o que a moda faz é reinventar olhares”, garante Borges.

Tufi Duek quis basear sua coleção no filme “Os Pássaros”, que Hitchcock lançou em 1963, embora esse seja um dos mais batidos recursos vintage. O cineasta também foi o protagonista da proposta apresentada por Marco Zanini para a Rochas na temporada passada em Paris. A adaptação de Tufi Duek optou pelo preto em corpetes, luvas e botas de cano alto, e deu destaque total ao tomara-que-caia. O bico do corvo inspirou o resto dos decotes, e suas asas são a referência para os volumes das cinturas.

Mais fieis à identidade brasileira foram os consagrados Ronaldo Fraga e Alexandre Herchcovitch. O legado de Fraga é alimentado por uma visão intelectual do regionalismo brasileiro, e desta vez foi a enciclopédia de Paulo Marques de Oliveira “sobre os fundamentos do mundo” que estampou suas peças. O estilista propõe uma viagem a partir da gola mandarim oriental até a leveza da seda em vestidos estampados com as matas de Minas Gerais. As referências ao velho continente, no entanto, permanecem: a mulher de Fraga usa malhas de maxi tricô que foram tendência na última temporada, e sapatos abertos estilo oxford de couro azul envernizado, também aplaudidos meses atrás na Europa.

O desfile de Alexandre Herchcovitch começou com parte do público se remexendo em seus assentos por causa das vaias dos fotógrafos que gritavam em coro, furiosos, a expressão “São Paulo Furto Week”, porque uma câmera da France Press desapareceu da sala de imprensa. Mas terminou com os aplausos mais entusiasmados do evento até agora. Herchcovitch desconstruiu jaquetas e vestidos para colocar mangas, golas e decotes em saias peplum, e imprimiu um ar romântico às suas estampas, o que, pelo menos nesta edição, pareceu algo novo.

Nenhum vestígio das cotas

Os organizadores da SPFW geralmente se referem ao DNA brasileiro para tentar descrever a moda do país. Eles falam de felicidade, cores e transparências, mas se esquecem da miscigenação. Enquanto no Brasil 51% da população se declara negra ou parda, nas passarelas se impõe o modelo ariano de Gisele Bündchen.

Dos 19 estilistas, apenas a Osklen, Lino Villaventura, João Pimenta e a Uma, de Raquel Dawidowicz, apostaram em uma representação significativa de modelos negras. O debate vem de longe e, às vezes, vai além da intimidade dos bastidores e dos escritórios das agências.

Na temporada passada, a Osklen abordou a questão ao decidir que sua coleção de verão deveria ser apresentada em corpos não brancos. A grife não conseguiu nem completar o casting e precisou se contentar com 30% de mestiçagem. "Fui a quatro agências em que fui rejeitado porque já tinham um negro", diz Jorge Gaspar, o modelo que abriu o desfile de João Pimenta. "Antes, eu achava que nos faltava profissionalismo, mas agora vejo que é o mercado que não quer nos usar. As marcas evitam usar negros tão escuros como nós. Na Europa e nos EUA, a gente vê muito mais negros do que no Brasil", lamenta.

O comprador da alta costura brasileira é branco, e ver suas roupas em um corpo escuro está longe de ser um sentimento que impulsione o mercado de luxo no país, de acordo com especialistas. “É uma questão comercial. O consumidor quer se sentir identificado com o que você vê nas passarelas”, argumenta Graça Cabral, uma das responsáveis pelo evento. A SPFW tem um acordo com o Ministério Público para respeitar uma cota de 20% de negros, que não é cumprida.