Um (elogiado) Cantinflas espanhol

Estreia no Brasil o longa sobre o grande comediante mexicano, interpretado por um espanhol. O que era uma polêmica – Cantinflas com sotaque? – se tornou o trunfo do filme

Jaenada, em uma cena do filme.
Jaenada, em uma cena do filme.Ángel González

O advogado – altivo, presunçoso e pedante – se aproxima do acusado – um mexicano baixinho com jeito simples e desalinhado – e lhe diz:

- Você é um estúpido.

Cantinflas lhe responde rápido como uma bala, como disse uma vez definiu o escritor mexicano Carlos Monsivais, “com uma torrente de palavras de brilhante incoerência”:

- Não me insulte! Senhor juiz, eu protes... Vamos lá fora, cara, vamos lá! Senhor juiz, ele não pode me insul... você aqui não é nada... preciso de.... me comportar... co... corretamente com um indivíduo... Por que não sai, cara?

Fica visível que Mario Moreno (Cidade do México, 1911-1993) improvisava constantemente o roteiro. Seu carisma, seu sotaque, sua lábia entrecortada e sua capacidade de dizer muito sem dizer nada marcaram a maneira de conversar de um país inteiro, durante gerações. Foi um pioneiro do slang da capital mexicana – a popular gíria ‘chilanga’ (modo de falar dos naturais da Cidade do México) – e do verbo ‘cantinflear’, que expressa a difícil habilidade de falar sem se comunicar, com palavras incoerentes e incompletas. Para muitos, é quase impossível imaginar um ator não mexicano captando a infinidade de matizes que ele imprimiu para seu personagem. Mas um espanhol se empenhou em nos demonstrar o contrário. Desde que surgiu a ideia de fazer um filme biográfico sobre o ‘Gran Mimo’ (Grande Comediante), Óscar Jaenada era uma das opções do elenco e até pagou de seu bolso vários voos para o México para conseguir o papel. Foi escolhido em 2010, mas o projeto não foi para frente. Em 2012, o filme foi retomado graças à produtora Kenio Films, e Óscar foi novamente selecionado.

Dessa vez, finalmente, a filmagem foi feita durante seis semanas sob uma grande pressão midiática, pela escolha de um espanhol como protagonista. E foi encerrada em agosto de 2013 com uma festa memorável no Hotel Presidente, no bairro de Polanco (Cidade do México). A mensagem que a equipe transmitiu foi bem clara: felicidade e absoluta confiança no projeto.

Na época da gravação, enquanto pedalava sua bicicleta pelo centro da cidade, o ator passava por milhares de mexicanos que andam pelas ruas. Nenhum deles poderia imaginar que acabava de cruzar com a nova versão do ídolo nacional. O eleito para interpretar o grande comediante é um espanhol pálido, de traços afilados, de abundante franja negra e um sorriso de malandro da noite. Com uma carreira de mais de 20 filmes, na Espanha as pessoas lembram dele por seu papel de ator de teatro impulsivo e rebelde de Noviembre (2003), e principalmente por encarnar o rei do flamenco em Camarón (2005). No México, sua escolha como Cantinflas causou raiva, inveja e muito ceticismo. Alguns dos atores que trabalharam em vida com Mario Moreno foram fulminantes: “Escutá-lo com sotaque espanhol, com a pronúncia de lá? Claro que não! É melhor que não façam nada”, comentou Eric del Castillo. “Um espanhol? Quem é? Deve ser muito famoso. Ele vai conseguir falar como os mexicanos? Como isso aconteceu?”, se perguntou Lucia Méndez. “Não vejo um Cantinflas com sotaque espanhol. Se isso ocorrer, não acredito que o México o aceite”, disse María Sorté. “Ele não terá legitimidade; não é possível tê-la quando é um espanhol que interpreta Cantinflas”, cutucou o imitador do humorista, Carlos Espejel.

Tanto Jaenada como o resto da equipe de filmagem consideraram essas declarações compreensíveis e respeitáveis, tratando-se de alguém tão presente na cultura mexicana como Cantinflas. “Não, não se trata de interpretar Cantinflas com sotaque espanhol”, resume Jaenada, ironicamente. “Essa não é a ideia. Vamos deixar de sacanagem”. “Eu também fui muito cético quando fiquei sabendo, em 2010, que escolheram um espanhol para interpretar Cantinflas”, reconhece o diretor Sebastián del Amo (El fantástico mundo de Juan Orol), referindo-se ao projeto anterior. “Mas quando me tornei o diretor do filme, Óscar voltou a se apresentar para a escolha do elenco, e logo entendi tudo. Sem dúvida escolhemos quem melhor o interpretou”. “Não há dúvidas de que Óscar é o mais indicado para nosso filme”, assegura Vidal Cantú, da produtora Kenio Films.

Para o ator espanhol, nada foi um mar de rosas. Quando chegou ao México encontrou um ceticismo brutal da imprensa, da população e do próprio elenco. “É um desafio que pode me levar muito para o alto ou muito para baixo se isso não ficar bom: poucas vezes vi um filme encher tantas páginas sem ter filmado um só plano. Mas um ator tem que assumir esses desafios e dar a cara para bater”, comentou no começo da filmagem, com uma tensão que mal podia esconder.

Com o passar das semanas seu rosto angustiado mudou para um sorriso constante. O elenco começou a confiar plenamente nele, e a filmagem fluiu entre risadas e um ambiente agradável, que segundo muitas pessoas, é “bem incomum no cinema”. Ocorreu um episódio emblemático que encheu a equipe de otimismo. Mario Moreno Ivanova, o filho de Cantinflas, apareceu no set pela primeira vez, extremamente cético. Pouco tempo antes, declarou para a imprensa que, sem dúvida, teria preferido um ator mexicano. Quando viu uma tomada recém gravada, Ivanova ficou impressionado: “Não é possível, esta cena está dublada”, disse-lhes. “Não, é a voz de Óscar”, responderam. “Meus olhos encheram-se de lágrimas. A maneira de falar, os gestos, o andar... é impressionante como captou seu jeito de ser. Engoli todas as minhas palavras”.

A meticulosidade com que Jaenada preparou o personagem é digna de elogios. O filme recria Mario Moreno desde a criação de Cantinflas, quando ele tinha pouco mais de 20 anos, até vencer o Globo de Ouro em 1957. “Coloco gravações de suas frases mais célebres a todo momento no Ipad, a parede do meu hotel está completamente tomada com o roteiro e, além disso, contratei Celedonio Núñez (o mais premiado imitador do humorista)”. O comediante não economiza elogios para falar de Jaenada: “É surpreendente vê-lo passar de um profundo sotaque espanhol para o tom ‘chilango’, nasal e às vezes afônico do comediante mexicano. Uma transformação completa corporal e auditiva em questão de minutos.

Nos teatros do centro da capital mexicana, a praça de Touros do México e as ruas de Coyoacán foram testemunhas de um filme de quase três milhões de dólares (7,5 milhões de reais) de orçamento que em parte também é uma homenagem à cidade, um lugar que, nas palavras do diretor, “poderia ser o melhor do mundo se tivesse dez milhões de habitantes a menos”. Os Estúdios Churubusco (na região sul da Cidade do México) são uma das maiores e mais antigas locações de filmagem da América Latina. A imensidade do lugar evoca a grande época do cinema mexicano: aqui filmaram Buñuel, Pedro Infante, Jorge Negrete e o próprio Cantinflas. “Não vi nada parecido na Espanha. Aqui se respira cinema”, comentou Jaenada, vestido como Cantinflas, com bigodinho postiço, calças estilo ‘knickerbockers’ e lenço no pescoço.

Óscar Jaenada, que interpretou Cantinflas

Pelas diferentes cenas, abundam rostos conhecidos do cinema mexicano, espanhol e norte-americano, como Michael Imperioli (Família Soprano), que interpreta o produtor norte-americano Michael Todd; Luis Gerardo Mendez (Nosotros los nobles), o encarregado de interpretar Estanislao Shilinsky, braço direito de Mario Moreno, e Joaquin Cosío (El infierno), na pele de outro mito do cinema mexicano, O Índio Fernández. O músico espanhol Javier Gurruchaga também atua, “em um pequeno papel de empresário judeu um pouquinho pilantra. Quem diria que eu, que quando era criança pedi um autógrafo para Cantinflas, mais de 40 depois estaria no seu filme. Voltei a ser esse garoto fascinado, e dessa vez finalmente o vi com o bigode”.

No final do processo, apesar do começo difícil, todo o elenco previa uma história com final feliz. Os adjetivos com os quais definem o trabalho de Jaenada são quase sempre grandiosos: “Um gênio”, “um mágico”, “Cantinflas revivido”. Por sua vez, o ator assegura que essa foi uma das melhores experiências cinematográficas de sua vida. “A entrega e o compromisso de todos foram incríveis. Foi um encontro cósmico que acontece poucas vezes na vida”.

Os arredores do Teatro Coyoacán (no sul da Cidade do México) ficaram cheios de trailers e furgões. Câmeras, gruas, equipe de som, focos de luz, e todo o tipo de parafernália para filmar uma sequência importante: o famoso discurso de Cantinflas no filme Se eu fosse deputado (1952) – a mesma cena com a qual Jaenada foi selecionado. Enquanto a equipe técnica colocava tudo em ordem, o ator caminhava pelo cenário do teatro de olhos fechados e andar ‘cantinflero’. Nada o distraia em sua metamorfose. Após vários minutos, por fim o diretor gritou: “Ação!”. Óscar, ou melhor, Cantinflas, abriu os olhos e começou com seu discurso inverossímil: “Poooovo que me escuta...”.

“Rock and roll!”, exclama o diretor para indicar que a cena ficou perfeita. Mas essa é uma história que somente o cinema deverá contar e somente o espectador poderá julgar.