Morrissey-artista derrota Morrissey-pessoa em ótimo novo disco

Há tempos o ex-líder do The Smiths não ajuda a salvar ninguém, muito menos seus fãs

O músico britânico Morrissey.
O músico britânico Morrissey.Robyn Von Swank / BMG

“Se vai pular, pule / Não pense / Se vai sair correndo para casa e chorar / Então não me faça perder tempo / Se vai se matar / E se não quer que percamos o respeito por você, vá em frente”. Esses fabulosos versos aparecem em ‘Jim Jim Fall’, a surpreendente música que abre o novo álbum de Morrissey. Surpreendente pela maneira como o artista de Manchester acabou por assimilar o eletrônico que colocou em algumas partes de seus últimos trabalhos e transformá-lo em algo que parece ter sempre habitado sua visão do pop. Surpreendente, porque é ótimo. Muito melhor do que qualquer um de seus últimos trabalhos. E, como esse trecho, quase todo esse álbum.

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Há tempos Morrissey não ajuda a salvar ninguém, muito menos seus fãs. Tudo a ver com o jeito de ser desse senhor de 60 anos. The Smiths foi a banda que deu sentido à vida de uma geração e ele, o líder que elevou a autoestima de milhões de adolescentes humilhados, frustrados, incompreendidos, solitários, deslocados. Falavam, e o único que parecia escutar era Morrissey. Hoje, se você ligar para ele, dizer que está péssimo e que vai pular da sacada, certamente responderá a mesma coisa que canta nesse trecho.

Para apreciá-lo em 2020 é preciso afastar-se muito dele. De suas ideias políticas, de sua atitude de velho ranzinza sem graça, de suas incongruências, ironias e delírios. É curioso que uma pessoa que construiu sua carreira apostando que a vida e suas circunstâncias são um bom romance tenha abandonado essa ideia para abraçar o conceito de realidade como algo que se desmantela em uma manchete. Clikbait metafísico. Na era em que questionamos constantemente a distância entre o artista e sua obra, a seu favor é preciso dizer que outros na mesma posição que ele têm décadas de vantagem em atitudes imbecis e, bom, por enquanto, ele é só um imbecil, não um delinquente. E esse imbecil escreveu uma música a meio caminho entre o trip hop e Lorde chamado ‘Love Is On Its Way Out’ que é uma delícia. E outra que é como se Mick Jagger tivesse bons discos solo. Chamou de ‘'Bobby, Don’t You Think They Know?' e conta com a voz convidada da lenda da Motown Thelma Houston.

É tudo o que gostávamos nele até mesmo quando começamos a duvidar dele. O restante do longo debate entre experiências que dão certo (‘The Secret of Music’ é Morrissey se transformando em algo digerível ao último Scott Walker), lembranças bem-sucedidas ao divo do pop que foi (‘Once I Saw the River Clean’, ‘What Kind of People Live in These Houses?’) e propostas para conseguir essa residência em Las Vegas que ele merece e na qual todas as noites Nigel Farage reservaria um lugar, desde que Morrissey não vetasse a carne do menu (‘The Truth About Ruth’). Por fim, se você quer um amigo, compre um cachorro. Se quer um bom disco escrito por alguém que só sai de casa para arrumar confusão, escute esse.