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Trump recua na aproximação com Cuba

De volta à retórica do chicote, presidente dos EUA vai limitar as viagens à ilha, proibirá relações comerciais e estabelecerá metas para forçar avanços nos direitos civis

Em 2014, morador de Havana decora sua casa com bandeira dos EUA e de Cuba.
Em 2014, morador de Havana decora sua casa com bandeira dos EUA e de Cuba. AP

Donald Trump decidiu levar o frio para Cuba. Trinta meses depois que Barack Obama iniciou a histórica aproximação com Havana, o presidente dos EUA vai recuar no processo de abertura. Vai limitar as viagens à ilha, proibirá o fluxo comercial e vai retornar à retórica do chicote. É um triunfo da linha dura, defendido por setores anticastristas da Flórida que o apoiaram nas eleições, e que Trump apresenta hoje ao mundo como um avanço dos direitos humanos e das liberdades. "Hoje nasceu uma nova política. Dou por cancelado o acordo de Obama. Não apoiaremos o monopólio militar que oprime os cubanos", disse o presidente dos EUA.

Trump é imprevisível em tudo, menos em demolir o legado de Obama. Nessa área, o presidente anda em uma linha reta e, sempre que possível, ataca. Fez isso com o Obamacare e agora tenta com Cuba. O resultado, como é habitual com ele, termina sendo irregular. Nem foi capaz de desmantelar toda a reforma da saúde nem, agora, fechar completamente as portas para Cuba. Nesse sentido, em que pese a grandiloquência de seu discurso, a virada na política não é total. Algumas medidas permanecem. As remessas não foram tocadas, não foram proibidos voos comerciais nem o tráfego de cruzeiros e tampouco volta a política de “pés secos, pés molhados” que permitia aos cubanos entrar sem visto nos EUA.

Mas o golpe não deixou de ser duro. Os dias virtuosos da diplomacia americana acabaram. O delicado jogo de equilíbrios que Obama utilizou, os contatos secretos com o Vaticano, o próprio aperto de mão entre o ex-presidente dos EUA e Raul Castro no Panamá são desde hoje parte do passado.

Com Trump, Cuba volta a correr no campo de tiro. Qualquer avanço bilateral ficará submetido a aprovação ideológica de Washington. "Sabemos o que se passa lá e não esquecemos. Cuba deve legalizar os partidos políticos, permitir eleições supervisionadas, liberar os presos e entregar os fugitivos. Enquanto não houver liberdade, haverá restrições", disse Trump no simbólico Teatro Manuel Artime, nomeado em homenagem a um dos líderes da Brigada 2506 que desembarcou na Baía de Porcos para tentar derrubar Fidel Castro.

“Haverá cotas, de modo que se houver libertação de presos ou eleições, vamos avançar”, disse um porta-voz da Casa Branca

Foi um discurso, em tudo, beligerante e destinado a inflamar os anticastristas. Trump lançou todo seu poder de fogo contra o regime. Acusou-os de dar amparo a criminosos de fugitivos, vinculou-os com a Coreia do Norte, com o terrorismo internacional e com as turbulências venezuelanas. Traçou um discurso forte em que ressucitou até a crise dos mísseis, na década de 1960. "Em Havana seguem governando aqueles que mataram milhares de seus cidadãos", demarcou para justificar sua "nova política".

Seu principal objetivo é desencorajar o acordo com o regime cubano. Para isso proíbe, com alguma exceção aeroportuária e marítima, todas as transações financeiras com o conglomerado militar da ilha. O principal afetado será o Grupo de Administração Empresarial (Gaesa), um guarda-chuva empresarial através do qual as forças armadas e os serviços de inteligência controlam 60% da economia cubana. Uma infinidade de linhas de capital na ilha passa por esta corporação. Hotéis, entidades de exportação e importação, supermercados, redes de lojas de roupas, recepção de remessas, restaurantes, portos, transferências bancárias, aluguel de imóveis... Proibir o comércio com Gaesa afeta toda a atividade econômica do país, estatal e de pequenos empresários porque os tentáculos do conglomerado deixam poucos cantos intocados.

O outro grande retrocesso acontecerá nas viagens para a ilha. Embora o turismo continuava proibido com Obama, as viagens aumentaram através da criação de 12 categorias de viagens, de visitas familiares a projetos humanitários e atividades culturais. A abertura administrativa nas justificativas, que dependia basicamente de informações do viajante, permitiu que quase qualquer norte-americano pudesse visitar Cuba. O resultado foi fulgurante. Só nos primeiros cinco meses deste ano, 285.000 norte-americanos viajaram para a ilha, tantos como em todo 2016, e o cálculo era que se a dinâmica continuasse sem travas até o final do ano o número seria superior a 400.000.

Com o objetivo de congelar essa atividade crescente, Trump vai exigir maior controle administrativo de cada viagem e se prepara para estrangular uma das formas mais generalizadas, a chamada “pessoa a pessoa”, que permite viagens a Cuba fora de grupos organizados alegando motivos educacionais. Em princípio, estarão a salvo da proibição as viagens familiares de cubano-americanos. Isso significa um alívio para muitos lares da ilha que vivem das remessas dos emigrantes e que iniciam seus negócios particulares com os dólares enviados do outro lado do Estreito da Flórida.

Os detalhes técnicos das medidas de pressão serão estabelecidos legalmente nas próximas semanas e meses. Será um processo gradual, mas com um objetivo claro: reverter a abertura e voltar aos tempos de controle permanente. “Quando os cubanos fizerem mudanças concretas, estaremos preparados para voltar a negociar um acordo”, disse o presidente.

A mudança responde a um interesse eleitoral de Trump. No começo, quando era candidato nas primárias, se declarou partidário da aproximação, mas à medida que foi precisando de forças para vencer Hillary Clinton se aproximou de zonas mais intransigentes, buscando o apoio dos anticastristas e de senadores como Marco Rubio na Flórida, um Estado que foi central para sua vitória na eleição de novembro. Em troca, o presidente oferece agora não apenas um endurecimento bilateral, mas a recuperação da retórica agressiva e a beligerância diplomática na ONU. É a volta do frio.

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