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“Não acho que se importasse. Estava seguro do bem que fazia”: a história do médico inseminador dos 100 filhos

O médico Jan Karbaat nunca admitiu ter usado seu próprio esperma. “Brincou com as mulheres”, disse uma de suas possíveis descendentes, que o conheceu

Moniek Wassenaar, uma das supostas filhas do médico holandês Jan Karbaat.
Moniek Wassenaar, uma das supostas filhas do médico holandês Jan Karbaat. EL PAÍS

“Não se preocupe; trago agora mesmo sêmen fresco”, dizia Jan Karbaat, o médico de Roterdã (Holanda) famoso porque se dedicou secretamente a inseminar dezenas de mulheres que foram a sua clínica de fertilização com seu próprio sêmen, às clientes que não conseguiam engravidar. Segundos depois, eram inseminadas com a mistura decisiva, que era seu próprio esperma. “Minha mãe me disse que houve duas tentativas frustradas de fertilização. A terceira deu certo, e suponho que tenha sido com seu sêmen, porque ele sabia que era muito fértil. Na vida privada, teve 22 filhos reconhecidos de quatro ou cinco parceiras”, diz Moniek Wassenaar, de 36 anos, psiquiatra e uma das possíveis descendentes do médico. Num dos momentos mais vulneráveis de suas vidas, e convencidas de que seria usado material de doadores anônimos, as futuras mães não perguntavam nada. Confiavam nos procedimentos de um médico com boa reputação, com clínica própria e bons resultados. Um homem sadio, de boa aparência, loiro e de olhos claros. Em suma, seria o candidato ideal, exceto pelo fato de que cada uma delas tinha escolhido outro tipo de pai biológico para seus filhos.

Presa de um afã desmedido de sucesso profissional, e talvez de notoriedade genética, os resultados foram acima de qualquer previsão. Os supostos filhos de Karbaat pode exceder uma centena e querem respostas legais. Um grupo de 25 espera que os juízes decidam a seu favor em junho e autorizem um exame de DNA com amostras do médico para tirar a dúvida. Mesmo que postumamente, porque o médico morreu no mês passado, aos 89 anos, idade que acrescenta a longevidade às qualidades que parece se arrogar.

Moniek está entre essas 25 pessoas e é uma das poucas que o conheceram. “Foi em 2011, e me pareceu muito convincente, encantador, até”, diz, por telefone, de Curaçao, onde está de férias. “Só por um momento, porque brincou com as mulheres. Nunca considerou o alcance de seus atos. Não acho que se importasse. Estava seguro do bem que fazia: conseguia gravidezes sem pensar nos efeitos para os filhos. Quando nos vimos e lhe falei sobre sua falta de ética, ele disse que tudo aconteceu nos anos setenta. Que estava tudo bem, porque as mulheres queriam o sêmen de um homem com formação superior. Muito melhor que o de um policial, por exemplo”, disse.

Como isso pôde acontecer sem que a inspeção sanitária percebesse, com a clínica, aberta em 1980, tendo sido fechada só em 2009? A pergunta é básica, e a resposta, desoladora. A administração interna era irregular e desordenada, “mas eram muito bons em esconder isso, entre outras coisas, porque sua atual viúva era a codiretora”, diz Moniek. Enquanto as doações eram anônimas, não aconteceu nada, mas em 2004 a lei mudou, e todos os adolescentes de 16 anos podiam pedir o passaporte dos doadores no centro de atendimento a suas mães. “Uma mulher não conseguiu encontrar o pai biológico de sua filha, e aí começou a fundo a inspeção. Mas depois continuou fazendo isso por conta própria”, afirma a psiquiatra.

Ameaça de deserdar

Moniek, que tem dois filhos, quer a verdade. “Embora já não me afete o resultado; minha vida é estável”, admite. Ela conta que surgiu um sentimento de comunidade entre os 25 demandantes. Outros 18 fizeram antes uma análise genética, que deu positivo, graças a um dos filhos reconhecidos pelo médico. Um rapaz que acreditava ser sua única família e descobriu que seu pai teve outras namoradas, e outros filhos, ao mesmo tempo. O do filho é confiável, mas o DNA do pai tirará todas as dúvidas.

“Não buscamos dinheiro, embora ele tivesse uma boa situação. Puseram à venda o centro de fertilização por sete milhões de euros (cerca de 28 milhões de reais), e é possível que tenha deixado um legado ainda maior. Sempre negou más práticas, mas imagine que determinou em seu testamento deserdar os filhos legítimos que fornecessem seu DNA para exames como esse”, prossegue Moniek. Horas depois da conversa, ela envia uma mensagem dizendo que foi feita uma análise legal com amostras de Joey Hoofdman. Trata-se de um jovem holandês que relatou seu caso na rede televisiva RTL 4 e é muito parecido com o médico. “É 100% positivo”, anuncia, de modo que são irmãos por parte de pai.

Sanne, de 37 anos, é outra das afetadas em busca de respostas, não de reparação. Embora admita que nunca pensou na identidade de seu pai, as coisas mudaram ao ver que havia mais gente envolvida no caso. “Enviei uma amostra genética, e há poucos dias me disseram que eu tinha uma meio-irmã no grupo dos 18. Considero que ele seja meu pai, e só. Tenho um filho de meu relacionamento anterior, e outros dois de minha companheira atual, e embora nenhum deles seja meu filho biológico, tenho uma família. Além disso, gosto de pensar que tenho muitos irmãos espalhados por aí. Mas o que aconteceu não é justo para as mães. Disseram a elas que o doador escolhido era anônimo, e se deparam com isso”, lamenta.

Dois meses antes de sua morte, Jan Karbaat chamou de loucura as acusações de seus supostos filhos. O mesmo disse sua viúva ao juiz. Duas de suas esposas anteriores tentaram denunciá-lo por usar seu próprio sêmen. Não conseguiram. A última, que sempre o ajudou, teme uma onda de reclamações.

Doações sem controle

O escândalo de Jan Karbaat chega em hora ruim para as doações de sêmen na Holanda. O limite de filhos por varão é de 25, mas os registros atuais não rastreiam as diferentes clínicas em que possam ter feito sua doação. Como os dados não podem ser comparados, quando um centro chega ao teto de gravidezes com sêmen de uma mesma pessoa, não informa aos outros. Daí casos como o de um doador que acaba de descobrir que nasceram pelo menos 37 filhos de seu esperma. A Fundação Filhos de Doadores deu um basta e pede que a Saúde tome medidas.

No Brasil

A descoberta das ações do holandês lembra o caso do famoso médico brasileiro Roger Abdelmassih. Especialista em reprodução humana e um dos pioneiros da fertilização em laboratório no país, Abdelmassih foi preso por abusar sexualmente de suas pacientes enquanto elas estavam sob efeito de sedativo.

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