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Dilma e Odebrecht, uma “conflituosa” relação de benefício mútuo

Delatores dizem que ex-presidenta sabia de caixa dois e ilícito na Petrobras. Dilma nega em nota

"No que tange a questões de caixa dois, tanto Lula quanto Dilma tinham conhecimento do montante, não necessariamente do valor preciso, mas da dimensão de todo o nosso apoio ao longo dos anos". Ex-presidente da maior empreiteira do Brasil, Marcelo Odebrecht deixa claro nos depoimentos de sua colaboração com a Operação Lava Jato que a ex-presidenta Dilma Rousseff tinha ciência de que foi eleita com dinheiro oculto de sua empresa. Mas isso não quer dizer que Odebrecht e Dilma se davam bem. Pelo que os dois dizem, aliás, muito pelo contrário.

Em nota divulgada nesta quinta-feira, a petista diz que "o senhor Marcelo Odebrecht faltou com a verdade" em seu depoimento, e acrescenta, ainda em sua defesa, que o depoimento do empreiteiro evidencia a "relação distante, e em certa medida conflituosa" que mantinha com o herdeiro da Odebrecht. Caberá ao juiz Sérgio Moro, titular da 13ª Vara de Curitiba, decidir quem está mentindo sobre o caixa dois. Mas, ainda que a Odebrecht tenha conseguido manter seu acesso ao alto escalão do Governo, em especial o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, o conflito apontado por Dilma é de fácil identificação nas palavras dos delatores.

"Logo que a Dilma assumiu, toda vez que eu me encontrava com ele [Lula] ele fazia críticas de que Marcelo e ela não estavam se dando", conta Emílio Odebrecht. Apesar dos desentendimentos, Emílio, pai de Marcelo, conta que propôs a Lula ajudar seu filho caçula, Luís Cláudio Lula da Silva, com o projeto de promover o futebol americano no Brasil. "Disse que ele procurasse patrocinadores, falei sobre empreendedorismo, como se ele fosse um filho meu. Ajudamos financeiramente também", conta Emílio, que resume o resultado: "Marcelo passou a ter uma relação positiva com a Dilma. Eu tenho até que admitir isso: não tenho afinidade com a Dilma".

Apesar dos atritos ao longo do primeiro mandato, a Odebrecht teria garantido os 11 minutos e 24 segundos de tempo de televisão da campanha vitoriosa da reeleição de Dilma em 2014. O ex-executivo da empreiteira Alexandrino de Alencar diz que foi designado pelo coordenador da campanha de Dilma, o hoje prefeito de Araraquara (SP) Edinho Silva, de fechar o apoio de partidos como PROS, PRB e PCdoB. Segundo ele, cada partido levou cerca de 7 milhões de reais. Edinho teria lhe dito que essa orientação de negociar o apoio dos partidos vinha do comitê eleitoral de Dilma, que era composto por João Santana, Rui Falcão, Aloizio Mercadante, Gilles Azevedo e pela então presidenta.

Petrobras

Das duas petições que dizem respeito a Dilma nessa última leva de delações, a ex-presidenta aparece apenas uma vez como ciente de um ilícito cometido na Petrobras. "Especificamente em 2015, num encontro, já com a Operação Lava Jato deflagrada, já quando eu tive consciência de todos os depósitos que tinham sito feitos, posso relatar que mostrei para ela quantidade que poderia contaminar a campanha dela [já que eram repasses feitos para o marqueteiro João Santana]", conta Marcelo Odebrecht.

O empreiteiro se refere ao Plano de Ação de Certificação em Segurança, Meio Ambiente e Saúde , conhecido como PAC SMS. Segundo Odebrecht, ele estava em Angola quando recebeu uma ligação da então presidenta da Petrobras Graça Foster. “Marcelo, que historia é essa do assunto do PAC?”, ela questionou. Foster queria saber se o PMDB tinha recebido algum pagamento por conta do plano. "Até então eu nunca tinha tido nenhum tipo de conversa com Foster sobre nenhum tipo de conhecia ou fazia pagamentos. Nem nunca tinha tido com a presidente Dilma nenhum tipo de conversa no que tange à Petrobras", conta o empresário.

Após se inteirar sobre o assunto na empreiteira, Odebrecht respondeu a Graça Foster que o PMDB tinha recebido dinheiro, mas o PT também. " Aí a postura dela mudou", relata. Segundo o empreiteiro, Foster iniciou investigação dentro da Petrobras e o caso acabou encaminhado para o Ministério Público. "Tenho trocas de e-mail pesadas com ela. Peguei esses e-mails e mandei para a presidente, com a minha versão. Tive uma reunião com a presidente nessa época, na biblioteca do Palácio [da Alvorada]. Aí eu fui claro com a presidente, contei tudo o que tinha contado para Graça", disse.

Diante das acusações, Dilma se defende: "A verdade dos fatos será demonstrada. Não são insinuações ou mentiras, lançadas por empresários ou executivos de uma construtora, que esconderão ou mesmo distorcerão os fatos. A verdade vai triunfar, apesar dos ataques". 

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