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Time feminino da Chapecoense pode acabar por falta de apoio e patrocinadores

Abandonadas após tragédia de avião, as meninas da Chape pedem ajuda do clube para seguir no futebol

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Laura, de 16 anos, integra a equipe feminina da Chape.

Passados quatro meses do acidente na Colômbia, Chapecó ainda se recupera do trauma que abalou a cidade. Para a equipe feminina da Chapecoense, a tragédia deixou outra sequela. As meninas que chegaram à segunda fase da última Copa do Brasil adulta acabaram escanteadas pelo clube, que direcionou todos os recursos para a reformulação do time masculino. Sem investimentos, o projeto corre o risco de ser extinto em poucos dias.

O grupo de 25 atletas sequer tem um campo à disposição, já que a Chapecoense não oferece mais seu centro de treinamentos para a equipe feminina. O local dos treinos varia a cada semana. A atividade acompanhada pela reportagem do EL PAÍS aconteceu em um campo na periferia da cidade, a 25 quilômetros do centro, que não conta nem mesmo com instalações de água no vestiário.

“A dificuldade é muito grande”, diz a volante Laura Gieseler, de 16 anos. “No ano passado, a gente estava bem, fazendo um grande trabalho, mas agora ficou complicado. Ainda estamos abaladas pelo acidente. Os meninos sempre nos davam conselhos, eram muito queridos. Além da dor pela morte deles, também sofremos com a perda de apoio ao projeto feminino. Espero que o clube volte a nos ajudar.”

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Os vestiários deteriorados do campo onde treinam as meninas.

Coordenador do projeto, o professor de educação física Amauri Giordan é quem tem bancado a continuidade da equipe desde o fim de novembro. Em 2008, ele organizou um time feminino de futsal em uma escola pública da cidade e, quatro anos mais tarde, levou as meninas para o futebol de campo. A Chapecoense abraçou a ideia em 2014, ano em que disputou o Brasileirão feminino, sua primeira competição oficial na modalidade. O clube apenas emprestava sua estrutura e cedia o uniforme à equipe. Os salários das atletas eram pagos pela Female, tradicional time de futsal da cidade.

“Entreguei o projeto nas mãos do presidente da Chapecoense. Mas, depois do acidente, a nova diretoria resolveu dar uma segurada e não ampara mais nosso projeto do futebol feminino. Tínhamos uma relação diferente, de mais abertura, com os antigos diretores”, conta Giordan.

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Caroline e Isabela foram para Chapecó em busca do sonho de triunfar com a bola.

A maioria das garotas deixou a família e muitos quilômetros para trás em busca do sonho de vingar no futebol. É o caso da lateral Caroline Shimoguiri, 17, e da atacante Isabela Momesso, 15, que saíram do interior de São Paulo para viver em Chapecó. Na cidade catarinense, elas dividem uma casa com outras 13 adolescentes que ainda não completaram 18 anos. Algumas delas conciliam o futebol de campo com futsal e recebem ajuda de custo da Female. Uma parte das despesas da casa é bancada por Giordan. A outra, pelos próprios familiares. Para ir aos treinos, elas dependem de caronas e precisam se espremer no banco de trás do carro de Giordan.

Nem o fato de serem as atuais campeãs catarinenses sub-17, com cinco atletas convocadas para a seleção brasileira da categoria, foi capaz de atrair o apoio da direção alviverde. O presidente da Chapecoense, Plínio David de Nês, que assumiu o cargo em dezembro, admite que não há investimento previsto para o futebol feminino, pelo menos por enquanto. “Com toda franqueza, não tenho nenhuma definição a respeito disso. O estatuto da Conmebol obriga a manutenção de um time feminino [a partir de 2019] para disputar a Libertadores e temos a intenção de cumpri-lo. Precisamos encontrar um patrocinador. Mas hoje nossa prioridade é a reconstrução do clube e do time principal”, afirma o presidente.

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Sem dinheiro para transporte, as garotas improvisam para ir aos treinos.

Segundo Giordan, cerca de 20.000 reais por mês seriam suficientes para tocar o time feminino. Afastadas das competições de campo, as meninas disputarão no próximo mês os Jogos Escolares de Santa Catarina no futsal. Caso não consigam recursos financeiros até o fim de abril, as meninas da Chape podem ficar definitivamente entregues à própria sorte. “Eu acredito muito no potencial delas. Mas não tenho mais condições de bancá-las sozinho. Ou o clube volta a nos dar suporte, ou seremos obrigados a abortar o projeto”, diz Giordan.

Para muitas garotas como Laura, continuar treinando é uma forma de superar a tragédia da Chapecoense e manter viva a esperança de ver o futebol feminino mais valorizado no Brasil. “Somos o exemplo de como ainda é difícil para a mulher jogar bola. Temos pouco incentivo e sofremos muito preconceito. Mas eu quero acreditar que um dia isso vai mudar.”

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Time feminino da Chape pode encerrar atividades no fim de abril.

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