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Principais países da UE apostam em uma Europa de várias velocidades

Líderes da Alemanha, França, Itália e Espanha buscam formas de evitar a desintegração do bloco

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François Hollande recebe Angela Merkel em Versalhes (França). AP

Em tempos de instabilidade, o velho núcleo da União Europeia busca formas de evitar a desintegração do bloco. Em um encontro em Versalhes (França), os líderes da França, Alemanha, Itália e Espanha se reuniram nesta segunda-feira para defender a criação de uma Europa com ritmos diferenciados entre seus integrantes. Como já acontece com o euro ou com o chamado espaço Schengen, os países que quiserem avançar mais rapidamente do que os demais em um determinado campo poderiam se unir e avançar sem que os mais hesitantes os detivessem. Um desses campos poderia ser o da Defesa, que é hoje subordinada à OTAN.

O presidente da França, François Hollande, que deixa o cargo nos próximos meses, convidou para um jantar, realizado nesta segunda-feira no castelo de Versalhes, os dirigentes da Alemanha, Itália e Espanha. Hollande, a chanceler Angela Merkel (Alemanha) e os primeiros-ministros Paolo Gentiloni (Itália) e Mariano Rajoy (Espanha) pretendiam, com o evento, lançar uma mensagem de unidade. A retirada do Reino Unido, a ascensão dos populismos após anos de crise econômica e as rusgas com os Estados Unidos de Donald Trump e com a Rússia de Vladimir Putin geraram uma forte tensão no interior do projeto europeu.

“Unidade não quer dizer uniformidade”, disse Hollande em declaração à imprensa ao lado dos demais governantes, com cada um destes lendo também uma mensagem de seis minutos, sem direito a perguntas por parte dos jornalistas. “Defendo que haja novas formas de cooperação ou novos projetos, o que chamamos de cooperações diferenciadas, que permitam que alguns países possam avançar mais rapidamente (...) sem que outros países fiquem afastados ou possam se opor”. De formas variadas, Merkel, Gentiloni e Rajoy endossaram essa mensagem, que tem o caráter de uma proposta informal que poderá marcar as discussões dentro do bloco ao longo das próximas semanas.

Esse encontro se dá em um momento de grande significado simbólico. Nas próximas semanas, a primeira-ministra britânica, Theresa May, deverá oficializar o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia decidida em plebiscito realizado em junho de 2015. Será a primeira vez que um membro do grupo o abandona. Em 25 de março, uma reunião de cúpula comemorará em Roma o 60º aniversário do tratado que leva o nome da capital italiana e que instituiu a Comunidade Econômica Europeia (CEE), embrião da UE. Para Gentiloni, o anfitrião das comemorações, o evento de Roma será uma oportunidade para se olhar para trás e “relançar” o projeto.

A publicação, na semana passada, de um dossiê sobre o futuro europeu elaborado pela Comissão Europeia alimenta o debate com ideias. O documento apresenta cinco cenários hipotéticos para uma Europa sem o Reino Unido, com 27 membros. Entre uma federação dos Estados Unidos da Europa, ideia com pouquíssimo respaldo em tempos de nacionalismo exacerbado, e limitar a UE a um mercado único, o que significaria dar marcha a ré após décadas de integração, a França e a Alemanha se inclinam pelo ponto intermediário da Europa de várias velocidades.

Não se sabe em que terrenos poderiam se entender os países que preferiam avançar mais rapidamente. As dúvidas de Trump sobre a OTAN, por exemplo, reforçam os argumentos dos partidários de acelerar a Europa da defesa. A Alemanha é o país mais reticente nesse âmbito. Outras possíveis esferas de integração reforçada citadas pelos líderes em Versalhes são a união econômica e monetária, a política de imigração, a proteção das fronteiras e o combate ao terrorismo.

“A Espanha está disposta a ir além na integração com todos aqueles que desejem continuar com a integração”, disse Rajoy, fervoroso partidário da integração europeia em seu discurso, e decidido a garantir uma vaga permanente no diretório de Versalhes. A cúpula é uma versão ampliada – e mais mediterrânea, mais ao gosto da França – do eixo franco-alemão, desequilibrado em favor de Berlim e menos poderoso na Europa com quase trinta Estados do que na antiga Europa dos 15.

De Versalhes, emblema da grandeza da França e também dos fracassos da chamada comunidade internacional depois da Primeira Guerra Mundial, a Roma, a cidade imperial que iluminou a Europa pacífica das últimas seis décadas, os Governos buscam formas de superar a crise. A partir de quinta-feira voltarão a se reunir, já com todos os sócios, em Bruxelas. Em todo caso, não será o grupo de Versalhes – Hollande, Merkel, Gentiloni e Rajoy – que pilotará a solução.

O paradoxo é que, dos quatro participantes do conclave de Versalhes, três vivem uma situação provisória. Hollande deixará o Palácio do Eliseu dentro de três meses, e uma das candidatas à sua sucessão, Marine Le Pen, faz campanha com a promessa explícita de destruir o projeto europeu. Merkel enfrenta em setembro uma eleição legislativa em que tentará renovar seu mandato como chanceler, mas sua vitória não está assegurada. Na Itália, a atual legislatura terminará em fevereiro de 2018, mas amplos setores do espectro político pressionam por uma convocação antecipada às urnas.

Rajoy, que se soma às reuniões com o núcleo da UE após meses de Governo interino na Espanha, surge como o elemento mais estável no grupo dos quatro.

UMA PROPOSTA QUE CAUSA RECEIO

A Europa de várias velocidades, um conceito debatido há décadas nos corredores das instituições continentais, causa suscetibilidades. Ninguém quer ser excluído da ponte de comando do navio, mas nem todos querem o mesmo rumo. Um exemplo da assimetria que definirá o futuro do clube – ou melhor, que já o define – é o próprio formato da cúpula de Versalhes. Os organizadores da reunião rejeitavam a etiqueta de diretório, palavra maldita por dar a ideia de que uma minoria entre os 28 membros do clube decide pelos demais. Às vésperas da reunião, insistiam em que ela não tinha caráter decisório e que atendia apenas à vontade de oferecer pistas, de expressar o desejo de continuar construindo a Europa. Mas era algo bastante semelhante à tentativa de ditar as linhas gerais da UE do futuro. E também uma maneira de responder às perguntas sobre quem está na ponte de comando, que hoje parece à deriva.

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