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A crise econômica argentina já acabou?

Afirmação do ministro da Economia de que “a recessão já terminou” gera polêmica no país

O presidente Mauricio Macri em visita a obra de reforma do aeroporto de San Martín de los Andes, no último dia 10 de fevereiro.
O presidente Mauricio Macri em visita a obra de reforma do aeroporto de San Martín de los Andes, no último dia 10 de fevereiro. Telam

Mauricio Macri voltou de sua viagem à Espanha e pegou alguns dias de folga na casa de campo presidencial de Chapadmalal, mas já sabe o que o aguarda quando regressar à capital do país. Nesta quarta-feira, o presidente da Argentina fará o grande discurso político do ano, diante do Parlamento, no início do ano legislativo e da abertura das sessões. Macri e sua equipe se empenham em difundir um otimismo que não consegue contagiar plenamente milhões de argentinos. O Governo insiste em dizer que a recuperação econômica já começou, mas muita gente, sobretudo a oposição, rechaça essa avaliação. “Na Argentina, a recessão já acabou. Acabou”, declarou o inflamado ministro da Economia, Nicolás Dujovne, ao jornal La Nación. Depois disso, várias vozes surgiram para criticá-lo ou até mesmo para zombar da afirmação. Para tentar ridicularizar o ministro, a ex-presidenta Cristina Kirchner chegou a lembrar uma frase quase idêntica de 1996 de Domingo Cavallo, que foi o todo-poderoso ministro da Economia dos anos 90 e que muitos argentinos responsabilizam pelo desastre de 2001.

Pela primeira vez em oito anos de apagão estatístico, a Argentina volta a exibir dados confiáveis. E estes indicam que as coisas estão melhorando, mas que os problemas de fundo estão longe de ser resolvidos, razão pela qual o Governo lida com um equilíbrio difícil entre o otimismo que quer difundir e a realidade vivida por milhões de argentinos, que sofrem com os preços mais altos da América Latina, uma inflação que continua sendo a mais alta do continente, com exceção da Venezuela, e aumentos generalizados em itens básicos no retorno das férias de verão.

Uma rápida visita à página oficial do Instituto Nacional de Estatística (INDEC) mostra essas contradições, tão comuns na economia argentina. Pela primeira vez desde que Macri assumiu o Governo, vê-se um dado positivo: o indicador mensal da atividade econômica saiu do negativo, passando para 1,6% de crescimento. É o índice de dezembro, quando a economia produziu mais do que em novembro. No entanto, até mesmo esse dado é relativizado pelo próprio INDEC: “O indicador, série original, mostra uma variação negativa de 0,1% com relação ao mesmo período do ano anterior”, lê-se na análise dos dados.

Dujovne afirma que os dados que ele já tem em mãos revelam que no último trimestre de 2016 a Argentina deixou a recessão para trás e retomou o crescimento, que será, segundo o ministro, de 3,5% ao final deste ano. O último dado disponível do INDEC, que compara o terceiro trimestre de 2016 com o mesmo período de 2015, mostra uma queda de 3,8% no Produto Interno Bruto, o que denota uma recessão profunda. O ministro insiste: isso é passado. E é verdade que o INDEC produz um retrato bem depois dos acontecimentos.

A indústria argentina, com preços exorbitantes e uma taxa de câmbio muito elevada que leva milhares de argentinos da classe média-alta a viajarem para o Chile, para os EUA ou para a Europa e comprar ali roupas e aparelhos eletrônicos, não consegue se recuperar. O INDEC apurou em janeiro uma queda de 1,1% em relação ao mesmo mês de 2016. Mas a agricultura está avançando. Uma das primeiras medidas de Macri foi diminuir radicalmente os impostos para as exportações agrícolas e de pecuária, que constituem um alicerce histórico da economia argentina. O campo avança, e um dado colateral é demonstração disso: o veículo mais vendido na Argentina não é um utilitário, como na maioria dos países, mas sim o Toyota Hilux, uma picape cara – com preço entre 28.000 e 55.000 dólares [86.000 e 170.000 reais] –, que é a estrela entre os agricultores e pecuaristas. “No caso do trigo, tivemos uma colheita recorde histórica. Em 2017, teremos um novo recorde: perto de 125 milhões de toneladas”, argumenta Dujovne.

Macri retorna da Espanha, assim, com o desejo de transmitir aos argentinos o mesmo discurso com o qual obteve apoios no mundo do poder empresarial e político espanhol: a ideia de que o pior já passou, de que a Argentina voltou a crescer e está pronta para receber novos investimentos. Em Buenos Aires, porém, a coisa não será tão fácil como em Madri, onde Macri praticamente só ouviu aplausos. Na capital argentina, aguardam-no manifestações, greves, a irritação com os cortes de energia elétrica e uma enorme pressão política por parte dos sindicatos e da oposição, que já deram início ao ano eleitoral. “A angústia e a desilusão são muito grandes. As tarifas são impagáveis e os cortes de luz continuam afetando milhares de usuários todos os dias”, escreveu Sergio Massa, um dos principais líderes da oposição peronista. “Quando se sai da recessão, não é tão fácil as pessoas sentirem isso”, resume Guillermo Nielsen, um dos principais economistas dentro do campo de Massa.

A inflação, de fato, disparou novamente em fevereiro, como efeito de um forte aumento da eletricidade – 148% – e de outras tarifas. Mas Macri e seus apoiadores insistem em dizer que ela está sob controle e que será contida no segundo semestre. O embate entre o otimismo do Governo, baseado nos primeiros dados positivos de seu mandato, e a dura realidade de um país devastado por crises sucessivas nos últimos 40 anos dará o tom em um ano eleitoral que se mostra imprevisível.

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