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Grammy se rende ao poder de Adele

A britânica supera a outra favorita, Beyoncé, e leva cinco prêmios, entre eles todos os importantes

Adele ganhou todos os prêmios mais importantes da noite.

A indústria da música se rende a Adele, uma mulher britânica de 28 anos, de voz inigualável, que transforma em sucesso mundial tudo que faz. Quando Adele estreou, em 2008, o Grammy a premiou como melhor artista revelação. Três anos depois, com seu disco 21, levou seis prêmios em uma das vitórias mais contundentes da premiação. Neste domingo, 12 de fevereiro, levou os cinco prêmios para os quais foi indicada, incluídos os três máximos: canção do ano, álbum do ano e gravação do ano (o prêmio para o produto completo). É a primeira artista na história a ganhar esses três categorias duas vezes.

Hello é a canção e a gravação do ano. Há pouco a discutir nesse sentido. A megabalada é uma ostentação vocal que supera o que Adele tinha feito em Rolling in the deep e Someone like you, as canções que lhe deram seus prêmios anteriores há cinco anos. Adele subiu para pegar os troféus com o produtor Greg Kurstin, que além de assinar como compositor da música levou o prêmio de melhor produtor do ano.

Adele posa com seus cinco grammys.
Adele posa com seus cinco grammys. REUTERS

Nas últimas categorias, Adele já estava chorando. Muito emocionada, relembrou que os últimos anos foram marcados por sua gravidez e pela maternidade que tanto a consumiu. No palco, fez sua própria homenagem a Beyoncé, a artista com quem disputava a coroa do Grammy este ano. “Você é meu exemplo. O álbum Lemonade é monumental. Nós te amamos!”, disse a uma Beyoncé chorosa, com barriga de gêmeos e acompanhada de sua família. “Meu sonho, meu ídolo é queen B, te adoro, quero que você seja minha mãe.”

Beyoncé viu mais uma vez um grande disco seu ser premiado nas categorias especializadas, mas superado por outro artista nas gerais. Lemonade, um álbum muito pessoal aclamado pela crítica, com oito indicações, levou o prêmio de melhor álbum urbano contemporâneo e de videoclipe. Beyoncé, com 22 grammys em sua carreira, só conseguiu uma vez triunfar nas categorias gerais, com uma canção do ano. Adele foi a protagonista absoluta da noite. Ela abriu o show cantando Hello e também o encerrou.

Beyoncé, durante sua apresentação.
Beyoncé, durante sua apresentação. AFP

O ano de 2016 foi desolador para os fãs da música, que viram a morte de vários gênios, um após o outro. Não é sempre que um dos momentos mais esperados da festa seja o segmento in memoriam. No deste ano, com John Legend cantando Beach Boys, foram lembrados Leonard Cohen, Prince, Keith Emerson, Greg Lake, Sharon Jones, Merle Haggard, Juan Gabriel, Toots Thielemans, George Michael, Sir George Martin...

No ano passado, tinha sido a vez de David Bowie. Independentemente dos prêmios máximos, esta edição dos Grammy será lembrada como uma homenagem dramática da indústria da música a Bowie, uma das estrelas maiores criadas pelo rock, em todos os sentidos. Blackstar foi laçado no dia que Bowie completou 69 anos. Desde o início, a crítica se pôs a seus pés. Morreu dois dias depois. Neste domingo, levou cinco prêmios da indústria.

“Você é meu exemplo. O álbum Lemonade é monumental. Nós te amamos!”, disse Adele 

Blackstar começou ganhando dois Grammys técnicos. Na metade da cerimônia, Bowie estava triunfando mais do que as divas e os rappers juntos. Finalmente, ganhou o prêmio de rock do ano e de disco de música alternativa. A indústria da música se despediu com toda pompa de um de seus grandes ícones, a quem deve tanto não só musicalmente como na própria definição do que é o rock. Ao premiar Bowie, a indústria da música também fechava uma ferida que revela a importância relativa dos prêmios em geral quando se trata de lendas. Antes deste domingo, Bowie só tinha ganhado um grammy em toda sua carreira, pelo vídeo de Blue Jean. Em 2006, recebeu um prêmio honorário por sua carreira.

Outro dos grandes ganhadores da noite foi Chance the rapper, saído de Chicago e a nova sensação do mundo do rap. Com 25 anos e apenas quatro gravando música por conta própria, conseguiu os dois primeiros grammys de sua carreira. O de melhor artista estreante, um dos prêmios mais cobiçados da música, porque é um detonador de carreiras sem igual, e o de melhor interpretação de rap. “Glória ao Senhor. Recebo este prêmio em nome do Senhor”, disse no palco. Vencedor do prêmio de melhor disco de rap do ano à frente de Drake e Kanye West, reconheceu que não tinha mais o que dizer: “Não esperava ganhar este”.

Os prêmios para Chance the rapper também abrem um caminho interessante na indústria da música. A indicação dele foi a primeira da história, com notável sucesso, para um disco distribuído exclusivamente por streaming e gratuitamente.

Blackstar foi laçado no dia que Bowie completou 69 anos. Morreu dois dias depois. Neste domingo, levou cinco prêmios da indústria

A primeira vez que James Corden, o apresentador da festa, fez seu famoso sketch de cantar no carro com um artista famoso foi em Londres, com George Michael. A indústria também homenageou Michael, falecido repentinamente em dezembro passado, com uma interpretação de Fast Love por Adele, no estilo de Adele. A artista fez a orquestra parar no meio da apresentação e começar de novo porque não estava satisfeita com alguma coisa. A interpretação teve um ar lúgubre, mas foi um sucesso total, aplaudida de pé como nenhuma outra atuação da noite.

Mais tarde, The Time e Bruno Mars se encarregaram da homenagem a Prince, um dos artistas favoritos do Grammy, que deixou atuações memoráveis e sempre esteve disponível para apresentar prêmios. The Time arrebentou no palco com o funk de Jungle Love e The Bird. Depois, Bruno Mars fez uma excelente imitação de Prince com Let’s go crazy.

Jason Lindner, Mark Guiliana, Donny McCaslin e Tim Lefebvre, a banda que gravou 'Blackstar' com David Bowie.
Jason Lindner, Mark Guiliana, Donny McCaslin e Tim Lefebvre, a banda que gravou 'Blackstar' com David Bowie. EFE

A Academia mais uma vez procurou oferecer grandes momentos, que deveriam ser únicos e inesquecíveis, nas atuações ao vivo no Staples Center. Uma foi, logo de cara, o impressionante Hello interpretado por Adele sozinha no palco, a primeira imagem que se viu e a primeira palavra que se ouviu na cerimônia. Foram poderosas também as atuações de Beyoncé, um gênero próprio, grávida de gêmeos e cercada de um grande aparato circense. Dezenas de bailarinas, combinando sua presença no palco com uma tela e sua interpretação ao vivo com segmentos pré-gravados. Certamente uma das atuações mais complexas tecnicamente que já se viu no Grammy ou em qualquer outro show.

Bruno Mars eletrificou o público com uma atuação excelente. Nos prêmios anteriores que não apareceram na televisão, a cantora Judy Collins fez uma grande interpretação ao piano de Suzanne, de Cohen, com quem cantou nos anos setenta. Outro momento interessante teria sido o de Metallica com Lady Gaga, se o microfone de James Hetfield tivesse funcionado, uma falha técnica imperdoável em uma festa desse tipo. Pouco depois, Sturgill Simpson se apresentou com os Dap Kings, a banda de Sharon Jones.

Por último, a tensão política vivida pelos Estados Unidos desde a vitória de Donald Trump nas eleições (e antes) deixou sua marca no evento, mas em menor medida do que alguns anteciparam. Foram apenas detalhes em algumas apresentações. Apenas A Tribe Called Quest e Anderson Paak fizeram maior alarde político em uma apresentação na qual convidaram pessoas de diversas raças e religiões ao palco e acabaram com o punho no ar ao grito de “Resista!”.

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