Os 10 melhores filmes de Denzel Washington, e seus 5 fracassos

O ator está há 30 anos encabeçando o pelotão, abrindo caminho para os que vêm atrás. Uma carreira que tem sucessos colossais, e alguns buracos

Denzel Washington interpretando o boxeador 'Hurricane' Carter, no filme que leva o mesmo nome (1999).
Denzel Washington interpretando o boxeador 'Hurricane' Carter, no filme que leva o mesmo nome (1999).Trailer do filme.

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"Quando era jovem, não planejava ser ator, porque não via pessoas como eu nos filmes". Denzel Washington (Nova York, 62 anos, cujos melhores foram vividos em torno de Hollywood) cresceu sem ídolos negros para se inspirar (com a exceção de Sidney Poitier), então, decidiu converter-se nesse líder. Está há 30 anos encabeçando o pelotão, abrindo caminho para os que vêm atrás. Derrubou barreiras raciais, preconceitos e clichês como mais gosta Hollywood: fazendo dinheiro.

Sua trajetória equilibra como poucos o prestígio e o sucesso comercial. E nunca triunfou por ser negro ou apesar disso. Denzel Washington está no topo porque é um grande ator. Nada mais e nada menos.

O ator derrubou barreiras raciais, preconceitos e clichês como mais gosta Hollywood: fazendo dinheiro

Nenhum escândalo, nenhuma saída de tom (seu viralizado apoio a Donald Trump acabou sendo outro exemplo da moda de notícias falsas), nenhum deslize. Está há 34 anos casado com sua mulher Pauletta, com quem tem quatro filhos. Sua impecável fé cristã deixa-o tentado a mudar de profissão e se tornar pregador, mas sua mensagem de igualdade, integridade e justiça é muito mais eficiente e abrangente quando proclamada por meio de seus filmes.

Desde que a escola militar salvou-o de uma vida criminosa nas ruas, a honra tem sido seu motor artístico. E, se algum dia decidir subir a um púlpito e pregar, vamos todos segui-lo aonde quer que seja: nenhum outro ator consegue, desde a série Hospital até John Q ou Maré Vermelha, que nos coloquemos automaticamente ao seu lado. Agora, dirige seu quarto filme, Um limite entre nós, e conseguiu quatro indicações ao Oscar 2017 (já tem duas estatuetas: melhor ator por Dia de Treinamento, 2001; e ator coadjuvante por Tempos de glória, 1989). O sucesso de Um limite entre nós torna o filme um dos poucos longas sobre negros que não precisou de um personagem branco para atrair o grande público aos cinemas.

Fizemos um ranking de seus filmes. Os melhores (que são muitos) e os menos bons (que também existem)...

Os 10 melhores filmes de Denzel Washington

O melhor: 1. Dia de treinamento. (Antoine Fuqua, 2001)

O segundo Oscar de Denzel Washington foi um feito histórico: foi o segundo negro protagonista a vencê-lo, depois de Sidney Poitier, por Uma voz nas sombras (Ralph Nelson, 1963). Depois dele, dois afro-americanos também conseguiram a estatueta (Jamie Foxx e Forrest Whitaker), uma proporção infame que não se deve à falta de talento, mas à falta de oportunidades. Este policial corrupto, que acredita ter o direito de levar vantagem sobre todo mundo, torna-se um vilão para a posterioridade graças ao magnetismo do ator. Seu carisma consegue que, acima da repugnância que desperta, o espectador queira vê-lo na tela. O vigor de seu discurso gera uma sensação culpável de que, no fundo e de forma perversa, tem bastante razão. Nas mãos de outro ator, o detetive Alonzo Harris teria sido um casulo antipático. Mas Washington o aborda com uma qualidade tão tangível quanto inegável: a capacidade de se destacar mais que qualquer personagem.

2. Malcolm X (Spike Lee, 1992)

A América branca sempre preferiu Martin Luther King como a cara amável e amistosa da luta pelos direitos civis dos negros do que o radical Malcolm X. Mas Washington não tremeu quando optou por reivindicar as atitudes às vezes hostis e sempre controversas de Malcolm X. Seu rosto no pôster atraiu o grande público (branco), e a humanidade com que o ator interpreta o ativista consegue que, compartilhando ou não do seu ponto de vista, entendamos a decepção que o motivava. Hoje em dia, Malcom X embeleza a filmografia de Denzel Washington, mas, naquela época, muitos consideravam o filme um tiro no pé e uma contaminação de sua imagem entre o espectador médio. Ele não se importou: não chegou aonde chegou preocupando-se com o que pensam os outros.

3. Filadélfia (Jonathan Demme, 1993)

Na contramão da percepção geral, Tom Hanks não é o protagonista desta façanha sobre um paciente de Aids que leva a julgamento a empresa que o despediu. A figura principal é Denzel Washington. Ele embarca em uma viagem, aprende uma lição e funciona como a âncora que escolta o grande público através da história. Começa limpando as mãos depois de estendê-las ao paciente e acaba abraçando-o. O personagem de Hanks é uma vítima instrumental. O filme e suas piadas sobre homossexuais envelheceram, mas servem como relíquia do primeiro olhar de Hollywood (e, por extensão, do mundo inteiro) à injustiça perpetrada por Reagan e Bush contra as vítimas da Aids. Washington resistiu a protagonizá-lo porque não queria ser associado a um filme sobre gays. Mas, como seu personagem, finalmente entendeu que se tratava de um relato sobre a misericórdia humana. Um filme soberbo.

4. Chama da Vingança (Tony Scott, 2004)

Depois de um suicídio frustrado, um colega lhe diz que "as balas sempre falam a verdade". A partir daí, sabemos que estamos em um filme com mais clichês que um monólogo de O clube da comédia. Os vilões são latinos, as cores parecem saturadas por um filtro de Instagram, os carros explodem facilmente e uma criança em apuros devolverá ao herói sua razão de viver. Não importa que cada cena transmita essa sensação de "já vi esse filme", porque Chama da Vingança é um dos bons. Aos 50 anos, Washington reciclou-se como um homem duro e assegurou uma aposentadoria milionária. Seus personagens buscam justiça com serenidade, sem perder a calma e sem disparar contra o alvo errado. A moral da história é que, se alguma vez formos sequestrados (e Liam Neeson tem a agenda completa), colocar nossa liberdade nas mãos de Denzel Washington é sempre uma boa ideia.

5. Hurricane - O furacão (Norman Jewison, 1999)

Esta biografia do boxeador Rubin Carter quase consegue ser mais comovente que Hurricane, música dedicada a ele por Bob Dylan. Quase. O fator 'família branca de classe média que ajuda o negro em apuros' nos lembra que estamos nos anos 90. A dignidade com que Washington encara o personagem é o coração do filme. 'Huricane' Carter, apesar de seu espírito otimista, não hesita em colocar sal grosso na ferida (ainda sem cicatrizar) da desigualdade racial nos Estados Unidos: é preciso de muito pouco para um negro ser colocado na prisão. Até mesmo sem provas. O pesadelo americano daquele que poderia se tornar o melhor boxeador do mundo encontrou em Washington seu símbolo. O espectador quer vê-lo vencer, porque é Denzel Washington. Mas a vida real nem sempre termina em final feliz. Este filme expôs um dos episódios mais vergonhosos do século XX. E o fez com emoção e tensão.

6. Tempo de glória (Edward Zwick, 1989)

Esta história de escravos transformados em soldados é protagonizada por um homem branco que aprende a respeitá-los "apesar" de serem negros. Em uma curiosa, ainda que nada surpreendente, reviravolta, os negros (Washington e Morgan Freeman) cozinharam os brancos (os muito 'pão de forma' Matthew Broderick e Cary Elwes). Denzel ganhou o Oscar e mexeu na consciência do público com uma cena em que seus cílios parecem costurados. O vigor desta cena está no ator não cair, mas chorar por pura impotência enquanto tenta com todas as forças conter suas lágrimas. Denzel Washington demonstra neste filme que nunca será um dos que buscam brilhar: suas emoções são desvendadas a partir de seu olhar, não estão explicadas. Por isso, é um dos grandes.

7. O Colecionador de Ossos (Phillip Noyce, 1999)

Uma lenda urbana diz que o ator nega-se a beijar mulheres brancas na telona. Mesmo que seja Angelina Jolie. Este 'thriller' insinua que a camaradagem transformada em amizade que constroem os protagonistas acabará em romance. Nunca saberemos porque outra coisa que ele se nega a fazer é sequências. O sucesso deste filme confirmou que Denzel Washington era, oficialmente, o ator favorito dos brancos. Este status não apenas é deliciosamente rentável, mas também demonstra aos grandes estúdios que há mais de uma raça possível quando se busca um protagonista. E conseguiu isso sem que ninguém percebesse, sem alardes. Denzel Washington simplesmente fez seu trabalho, mas, enquanto isso, semeou um terreno que, quando apareceu em Hollywood, era pouco fértil para atores negros.

8. Um limite entre nós (Denzel Washington, 2017)

O ator exibe uma qualidade quase inata na maioria de seus personagens: mesmo quando eles cometem erros, as intenções são positivas. Nesta adaptação de uma das obras de teatro mais importantes dos Estados Unidos, Um limite entre nós, o protagonista fala sem parar. Conta anedotas para preencher o silêncio, para evitar ficar sozinho consigo mesmo. A frustração e a decepção levaram toda uma geração de afro-americanos a desconfiar do sistema, e este patriarca não deixa sua família respirar. Mas, apesar de sua atitude déspota, Washington consegue que a todo momento o espectador o compreenda e sinta pena dele. Essa capacidade é o que o torna, mais que uma estrela, um ator visceral. Um ator que, quando aborda um personagem encerrado em si mesmo, o interpreta com as entranhas.

9. Um grito de liberdade (Richard Attenborough, 1987)

"Pode me bater, me prender ou até me matar, mas nunca serei quem você quer que eu seja". Esta frase de Steve Biko, o ativista/mártir contra o Apartheid sul-africano, representa também a obstinação de Washington em não se camuflar em Hollywood. Nunca quis passar despercebido, e ninguém lhe deu nada de presente. Há 30 anos, no entanto, Hollywood não se atrevia a apostar em uma produção centrada em um protagonista afro-americano. Dali saiu a moda do cinema sobre amizades inter-raciais (Máquina mortífera, Um sonho de liberdade, Jerry Maguire - A grande virada) que concediam visibilidade a atores negros, sempre quando apareciam acompanhados por um branco, com efeito calmante para o espectador. Aqui, é Kevin Kline, que interpreta o advogado e amigo de Biko, mas hoje ninguém se lembra dele. O icônico slogan do ativista, "black is beautiful", poderia ser o título da carreira de Denzel Washington.

10. O dossiê pelicano (Alan J. Pakula, 1993)

A raça de seu personagem, um repórter envolvido em uma investigação criminal, não era mencionada no romance original de John Grisham. A imensa maioria dos leitores, portanto, presumiu que era uma pessoa branca. Washington, como Will Smith e Morgan Freeman, rompeu uma barreira histórica no cinema de Hollywood, uma indústria que tradicionalmente só contrata atores negros quando o personagem já é negro no roteiro. O filme funciona como um relógio e consegue fazer com que caminhar por um estacionamento subterrâneo nunca mais seja a mesma coisa. Denzel não se encolheu diante do esplendor de Julia Roberts: e se recusou a ser seu mascote. No entanto, o estúdio eliminou uma cena em que se beijavam, por temer que o público se sentisse incomodado. Ainda havia muito caminho a se percorrer e, graças a revolucionários como Denzel, atualmente esse caminho é menos pedregoso.

Os 5 piores filmes de Denzel Washington

O pior: 1. Assassino virtual (Brett Leonard, 1995)

Ambientada em 1999 e, portanto, condenado a caducar em velocidade máxima, esta é uma daquelas delirantes distopias sobre os perigos da tecnologia que tanto gostávamos nos anos 90. Na verdade, esta não caiu nas graças de muita gente. Um policial submete-se a um tratamento letal de realidade virtual para caçar um assassino em série. Sabemos que são dois homens opostos porque Denzel usa agasalhos e Russel Crowe veste trajes de luxo. Os efeitos visuais deste filme foram revolucionários por mais ou menos duas semanas. Trata-se talvez do único filme em que se nota que Washington não tem ideia do que está fazendo. Nunca voltaria a cometer este erro.

2. Sete homens e um destino (Antoine Fuqua, 2016)

Washington assinou com esse projeto antes de decidir qual papel interpretaria. Nem mesmo existia um roteiro. Sua presença no elenco foi o que convenceu o produtor a investir 100 milhões no filme. Com mais de 60 anos, Washington ostenta o poder de levar filmes inteiros nos ombros como poucas outras estrelas. Ali também estavam Ethan Hawke, Chris Pratt, uma clone de Jennifer Lawrence e outras quatro pessoas cujas únicas utilidades eram preencher cotas raciais. "Ainda bem que temos um mexicano", exclama Pratt, em um momento, sem nenhuma vergonha. Entre tanta gente adorável, o diretor esqueceu de vernizar este western com autenticidade, e o cheiro é de tinta fresca. Mais que uma homenagem aos filmes do velho oeste, parece uma visita guiada pelo Far West de Port Aventura (parque temático próximo a Barcelona). Sem mencionar o quão bonitos são todos os dentes.

3. Possuídos (Gregory Hoblit, 1998)

Denzel recusou o papel de Brad Pitt em Seven - Os sete crimes capitais (David Fincher, 1995) porque sua violência o enojou, e até hoje se arrepende. Mas deveria lamentar ainda mais ter feito sua própria cópia de Seven. Possuídos é um thriller que parece ter sido escrito durante um curso de roteiristas, tão artificial e grandioso que deixa um vazio no espectador. Se Seven foi aguardente pura, Possuídos é leite com biscoitos. E a culpa é somente de Washington, que exigiu que o roteiro fosse reescrito para manter sua imagem de herói para toda a família. E quando, no fim, as coisas ficam interessantes, o filme acaba. Um tropeço que podemos perdoar porque, em seguida, ele se recuperou, voltando a encarnar homens incômodos e subversivos.

4. Um anjo em minha vida (Penny Marshall, 1996)

Denzel Washington tem muitos talentos. Ser gracioso não é um deles. Nesse quesito, Whitney Houston também está na média. Mas esta frustrada tentativa de clássico de Natal coloca todas as fichas na combinação de duas estrelas colossais. Literalmente, porque metade de seu orçamento foi gasto nesses dois cheques. O público saiu perturbado desse filme: por que colocar essas duas forças da natureza juntas se não vão se envolver? Ele era um anjo, e ela estava casada. Logo, a tensão sexual não resolvida entre eles, palpável em cada cena que compartilham, acaba coberta por uma sensação de fraude. Quando estamos resfriados, gostamos de abraçar esse cinema sensível e previsível, então o mínimo que podem nos dar em troca é um beijinho no fim. Não o perdoaremos jamais, Denzel.

5. O incontrolável (Tony Scott, 2010)

Nos últimos 15 anos, Denzel Washington protagonizou 18 filmes e, na maioria deles, teve que deter um trem. Este é um dos ruins. "Não estamos falando de um trem, estamos falando de um míssil do tamanho do edifício Chrysler" (é uma metáfora, estamos, sim, falando de um trem) é uma frase real do filme que demonstra que o seu roteirista é um daqueles que sempre interrompe o que está fazendo para ver Armageddon na televisão. A seu favor, vale reconhecer que é um filme de ação da velha guarda: os trens se chocam com obstáculos e helicópteros reais, não digitais. O problema é que há tantas caravanas no meio da rua que O incontrolável acaba virando uma paródia de Velocidade máxima. Apenas para os que são muito fãs de Denzel.