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Portugal pede ajuda internacional para conter onda de incêndios

Governo português ativou o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia

Polícia e bombeiros tentam apagar o fogo perto de Funchal (Ilha da Madeira) Atlas

Os graves incêndios que atingem Portugal nos últimos dias obrigaram o país a pedir a ativação do Mecanismo de Proteção Civil – um programa europeu de resposta imediata a catástrofes –, segundo confirmou a ministra portuguesa do Interior, Constança Urbano de Sousa. “Estamos sob condições meteorológicas extraordinárias, que não são previsíveis nem possíveis de dominar pelo ser humano”, disse a ministra. As chamas causaram quatro mortos nesta quinta-feira. Três membros da mesma família morreram em suas casas na ilha da Madeira e um guarda florestal morreu em território continental – na região de Santarém –, num dos 13 incêndios que continuam ativos na manhã desta quinta.

Mais de 3.000 efetivos foram mobilizados para combater 117 “eventos ativos” que, segundo dados da Autoridade Nacional de Proteção Civil, se mantêm no país, a maioria no norte. A União Europeia já enviou na tarde de quarta-feira um avião anfíbio Canadair procedente da Itália, que se junta aos dois enviados pela Espanha. O Governo marroquino anunciou nesta quinta que também mandará dois aviões anfíbios. O primeiro-ministro de Portugal, António Costa, visitará nesta quinta a Ilha da Madeira para avaliar os prejuízos.

O comissário europeu para Ajuda Humanitária e Gestão de Crise, Christos Stylianides, ofereceu sua “solidariedade” a Portugal e explicou que o Centro de Coordenação de Respostas de Emergência (ERCC, na sigla em inglês) está supervisionando os incêndios em tempo real através de imagens de satélite.

Os aviões Canadair enviados pelo Marrocos não ajudarão, contudo, a sufocar o incêndio da Ilha da Madeira porque esta “não tem as condições operacionais”, explicou Urbano de Sousa em entrevista a um canal português divulgada pela agência Efe. Segundo a ministra do Interior, é responsabilidade do Governo regional da Madeira implementar os pontos de abastecimento necessários para a operação de aeronaves.

O presidente do Governo da Madeira declarou que o fogo que ameaçava nesta quarta o centro histórico da capital, Funchal, está “sob controle” embora ainda mantenha diversos focos. “A situação é complexa, mas não catastrófica”, disse Miguel Albuquerque. Dos cerca de 1.000 evacuados, 600 passaram a noite numa base militar portuguesa e outros 300 no estádio Barreiros, em Funchal, segundo o prefeito Paulo Cafofo. “Na noite passada, o fogo estava a 100 metros do meu hotel e podíamos escutar os botijões de gás explodindo”, contou à AFP Ricardo Correia, gerente do hotel Castanheiro. “Evacuamos os 140 hóspedes por precaução”, disse Correia, explicando que seus clientes passaram a noite no estádio. Um centro comercial e outro hotel de cinco estrelas nos arredores de Funchal, o Choupana Hills, foram consumidos pelas chamas.

O eucalipto queima mais facilmente 

O eucalipto, uma das espécies de árvores mais abundantes na Ilha da Madeira, pode favorecer a propagação das chamas, segundo Rui Barreira, técnico florestal português de 35 anos, residente no Porto e membro da organização ecológica Word Wild Fund (WWF). “[Essa árvore] queima mais fácil porque não está tão adaptada como as outras espécies ao clima mediterrâneo”, explicou Barreira por telefone a EL PAÍS. Ele afirma que o eucalipto “deixa muita biomassa no solo”, o que contribui para a queima. Apesar disso, e do fato de que Portugal seja um dos países mais castigados pelo fogo nos últimos anos, o eucalipto é a árvore que ocupa a maior superfície no país atualmente, “mais que o sobreiro (árvore da família do carvalho) e o pinheiro”.

“Em Portugal, há muito monocultivo, mas o eucalipto não é o problema, e sim a fraca gestão florestal realizada”, diz Barreira, explicando que existem muitos pequenos proprietários que não têm recursos para “apostar na prevenção” em seus terrenos. Segundo o técnico, a existência de duas grandes empresas de celulose no país (Altri e The Navigator Company) é o motivo pelo qual há tantas plantações de eucalipto, que é a matéria-prima para a fabricação de papel. O interesse econômico reside no rápido crescimento dessa árvore – uma média de 9 anos em Portugal –, o que a torna mais rentável e motiva um refrão português: “O eucalipto é para nós, o pinheiro para meus filhos e o sobreiro para meus netos”, diz Barreira.

O ecologista critica a falta de recursos destinados à prevenção. “Em 2014, Portugal gastou 70 milhões de euros (245 milhões de reais) na extinção dos incêndios e 20 milhões (70 milhões de reais) para preveni-los”, afirma. “Entre domingo e hoje [quinta-feira], foram queimados entre 40.000 e 50.000 hectares”, completa, citando o jornal português Público. Até 15 de julho, 7.400 hectares haviam sido queimados neste ano, segundo relatório do Instituto de Conservação da Natureza português citado pelo técnico do WWF.

Mais de 100 incêndios assolam Portugal

Segundo a Autoridade Nacional de Proteção Civil portuguesa, que monitora em seu website a evolução dos incêndios em tempo real, 117 focos estavam ativos no país nesta quinta-feira ao meio dia (8h em Brasília), 13 deles de grandes dimensões. Às 12h30 (8h30 em Brasília) havia 3.682 efetivos combatendo as chamas em Portugal, com a ajuda de 1.159 veículos terrestres e 17 aeronaves.

Um terço dos efetivos se concentra no distrito de Aveiro, no norte do país, onde nesta quinta se mantêm ativos cinco incêndios graves que preocupam pelo forte vento. Os outros sete incêndios de grandes dimensões estão nos distritos de Braga, Viseu, Vila Real e Viana do Castelo.

Embora ainda não haja dados sobre os hectares destruídos, essa onda de incêndios é similar às registradas nos fatídicos anos de 2003, 2005, 2010 e 2013, que tornaram Portugal o país da União Europeia mais castigado pelas chamas.

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