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PMDB dá aviso prévio a Dilma: em 30 dias legenda deve deixar o Governo

Convenção nacional se nega a ouvir parte da militância, que pedia rompimento imediato com petista

Sem adversários, Temer é reeleito presidente do partido

Temer na convenção nacional do PMDB, em Brasília. REUTERS

O principal partido aliado do Governo Dilma Rousseff, o PMDB, iniciou oficialmente neste sábado o desembarque da gestão petista. O primeiro pé para fora da administração foi colocado durante a convenção nacional do partido, em Brasília, que foi marcada por discursos críticos à presidenta. No encontro, os peemedebistas reelegeram Michel Temer como o presidente da legenda (a chapa única dele teve 96,5% dos votos) e deram uma espécie de aviso prévio aos seus filiados: em 30 dias a Executiva da legenda anuncia se entregará os seis ministérios e as centenas de cargos que tem no Poder Executivo. O único que permaneceria no Governo, porque seu cargo não é possível de ser entregue, seria o vice-presidente Temer.

“Não tinha como sair de uma vez. Seria um rompimento muito brusco”, ponderou Eliseu Padilha, ex-ministro da Aviação Civil e um dos principais aliados de Temer. Padilha, aliás, puxou a fila dos descontentes com o Governo quando, no fim do ano passado, pediu demissão depois de desentendimentos com o núcleo duro da gestão Rousseff. Um auxiliar de Temer foi além. Disse que o “corpo [do PMDB] já saiu do Governo. Agora, só falta a cabeça”.

Há ao menos duas semanas a cúpula peemedebista discutia esse acordo. Dessa forma, ao invés de ouvir as vozes da maioria de seus membros, que gritava “Fora Dilma” e “Fora PT”, os representantes do alto escalão peemedebista decidiram jogar para eles mesmos a definição final, a ser dada em abril. “Poderiam ter decidido tudo hoje, mas não quiseram”, reclamou o deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS).

O presidente da Fundação Ulysses Guimarães, um dos braços do PMDB, Moreira Franco, disse que, caso se decida pela saída definitiva da gestão, quem não deixar o cargo será desligado da legenda. “Quem não sair, será saído”, disse Franco.

Além do sobreaviso, os peemedebistas apoiaram uma moção que proíbe que qualquer filiado assuma um cargo comissionado na União até que a Executiva da legenda se manifeste sobre o desembarque completo. O deputado federal Mauro Lopes (PMDB-MG) foi o principal atingido por essa decisão. Na semana passada ele fora convidado pelo ministro da Casa Civil, Jaques Wagner (PT-BA), para assumir a secretaria da Aviação Civil, que estava acéfala desde novembro, quando Padilha se demitiu. Agora foi proibido pelo seu próprio partido.

Com o desembarque peemedebista, cresce a chance do impeachment de Dilma Rousseff prosperar no Congresso Nacional. Na Câmara, o movimento dos peemedebistas pró-impeachment cresce a cada dia. Conforme a ala radical da legenda, ao menos 30 dos 67 deputados do PMDB votarão a favor da destituição presidencial na Câmara.

No Senado, poucos fazem projeções, mas é nítido que o apoio acabou entre os 17 peemedebistas. Os senadores Eunício Oliveira (PB) e Rose de Freitas (ES), que até ano passado defendiam a gestão Dilma mudaram seus discursos. O primeiro afirmou na sexta-feira ao EL PAÍS que o Governo já não existia mais. Freitas, por sua vez, disse à reportagem que é a favor do impeachment e que se incomodou com o aviso prévio dado pelo seu partido. Para ela, o rompimento deveria ter ocorrido já neste fim de semana. “O sentimento do impeachment é muito grande. O Governo não pode mais contar com o Senado”, disse a senadora.

Um dos fatores que contribuiu para o iminente rompimento dos peemedebistas foi a delação do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), ex-líder do Governo no Senado. Preso pela operação Lava Jato, Amaral envolveu parte da cúpula do PMDB no esquema que participou de desvios na Petrobras e recebeu propinas para interferir na gestão federal. Entre os citados estão Temer e os senadores Renan Calheiros, Eunício Oliveira e Romero Jucá, segundo reportagem publicada neste fim de semana pela revista IstoÉ.

Na convenção o fato de ter parte de sua cúpula investigada, incluindo o presidente da Câmara, Eduardo Cunha e ao menos outros quatro filiados, foi praticamente ignorado pelo PMDB. Na entrada do centro de convenções havia um banner com os dizeres: “Nós apoiamos a operação Lava Jato”. Um membro da Executiva peemedebista disse, em caráter reservado, que a legenda é muito maior do que a meia dúzia de homens que são alvos de investigações.

Com exceção de Temer, nenhum dos citados discursou neste sábado, algo incomum em um evento partidário desse porte. O vice-presidente se negou a falar com a imprensa e acabou fazendo um discurso morno, no qual usou uma das frases que tem dito com frequência para analisar o cenário político nacional. “Não é hora de dividir os brasileiros, de acirrar os ânimos. Não é hora de levantar muros. A hora é de construir pontes”.

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