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Psicólogos dos Estados Unidos se desculpam por dar aval a torturas

Entidade da categoria proíbe participação em interrogatórios sobre terrorismo no exterior

Vista externa da prisão militar de Guantánamo, em abril.
Vista externa da prisão militar de Guantánamo, em abril.

Os Estados Unidos ainda arrastam as feridas dos anos sombrios que o país viveu depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Os abusos em nome da chamada guerra ao terrorismo, em um momento em que pairava o medo de um novo ataque, agora motivam exames de consciência. Após passar 14 anos negando reiteradamente o fato, a Associação Americana de Psicologia (APA, na sigla em inglês), a principal dessa categoria, admitiu ter ocultado seu apoio aos polêmicos programas voltados para o interrogatório de suspeitos de terrorismo, feitos pela CIA e o Exército norte-americano.

Os psicólogos deram legitimidade às torturas aplicadas contra os detidos, como o afogamento simulado e a privação do sono. Essa supervisão profissional foi crucial para que o Governo de George W. Bush considerasse lícitas as chamadas técnicas reforçadas de interrogatório autorizadas pelo Executivo após os atentados de 2001, mas proibidas pelo presidente Barack Obama ao chegar à Casa Branca, em 2009.

Por causa de interesses e fidelidades profissionais, a direção da APA entrou em “conluio” com o Governo Bush para garantir que as regras éticas da associação não impediriam seus psicólogos de se envolverem nos interrogatórios, que aconteciam em prisões secretas da CIA e em cárceres militares como a de Guantánamo (Cuba).

O aval dos psicólogos foi crucial para que o Governo de George W. Bush considerasse lícitas as chamadas ‘técnicas reforçadas de interrogatório’

Essa é a conclusão de um relatório independente encomendado em novembro pela APA, após a publicação de um livro que detalha sua contribuição para os abusos contra detentos. O relatório, elaborado por David Hoffman, ex-secretário-adjunto de Justiça dos EUA, foi divulgado em meados de julho. Suas consequências foram taxativas: a APA se desculpou, quatro dirigentes renunciaram a seus cargos, e a entidade decidiu proibir seus 130.000 filiados de participarem de interrogatórios no exterior envolvendo presos sob a custódia dos EUA.

“Estamos profundamente transtornados pelas conclusões do relatório e estamos determinados a solucionar os problemas”, disse por telefone Susan McDaniel, a presidenta eleita da APA que liderou a assembleia do último dia 7, quando a proibição foi aprovada.

McDaniel – que nunca trabalhou em interrogatórios – disse que a investigação deveria ter sido feita antes, mas, alegando que é hora de olhar para o futuro, se recusou a citar o número de psicólogos envolvidos. Ela prometeu fazer da sua associação um órgão que conte com a “confiança pública”, apesar de admitir que não será fácil reverter a má imagem.

Porta-vozes do Departamento de Defesa e da CIA ouvidos por este jornal se recusaram a comentar o relatório.

É impossível conceber o Exército norte-americano e a CIA sem a psicologia. Os laços são estreitos e sempre polêmicos. Há um século, os militares usam o conhecimento psicológico para recrutar e ajudar soldados e para analisar inimigos. Durante seus 68 anos de história, a agência de inteligência recorreu à psicologia para conhecer melhor a mente humana, seja com experiências envolvendo o LSD para revelar mentiras nos anos sessenta ou com manuais descrevendo qual tipo de dor causar nos interrogatórios aplicados na década de oitenta na América Central por exemplo.

Estamos profundamente transtornados pelas conclusões do relatório e estamos determinados a solucionar os problemas

Susan McDaniel, presidenta eleita da Associação Americana de Psicologia

Depois do 11 de Setembro, dois psicólogos que não eram membros da APA dirigiram o programa de torturas da CIA. Segundo um relatório do Senado divulgado em dezembro, esse programa não resultou na descoberta de informações que não pudessem ser obtidas por meios menos agressivos. A CIA e os defensores do programa alegam que ele evitou ataques terroristas.

Stephen Soldz, que dirige a Escola de Psicanálise de Boston e há quase uma década denuncia a contribuição da APA aos interrogatórios, diz que essas técnicas se baseiam na chamada teoria do desamparo aprendido, desenvolvida nos anos sessenta pelo psicólogo norte-americano Martin E. P. Seligman. Em experiências com choques elétricos em cães, Seligman determinou que chega um momento em que os cães se rendem.

A aplicação dessa teoria aos interrogatórios, segundo Soldz, parte do princípio de que a tortura leva a “um momento em que o preso perde toda esperança” e cede completamente às exigências dos interrogadores. “Essa teoria científica lhes proporcionou uma cobertura: ‘Não estamos torturando pessoas, estamos fazendo o que os psicólogos especializados dizem que é necessário para obter a informação’”, lamenta o psicanalista, que publicou em abril um relatório com conclusões similares às de Hoffman.

O documento do ex-secretário-adjunto praticamente não analisa o grau de participação dos psicólogos da APA nas agressivas técnicas empregadas com os detidos, qualificadas como tortura por Obama (sabe-se, no entanto, que seu diretor de ética treinou interrogadores no Pentágono). O relatório se centra no papel da associação: abrandou seus padrões éticos para permitir que seus psicólogos colaborassem com a Administração Bush, o que violou o princípio profissional de não causar mal intencionalmente a um paciente.

Há décadas o Exército dos EUA e a CIA mantêm uma estreita colaboração com psicólogos

Com a nova proibição, a APA pediu ao presidente Obama que retire de Guantánamo e de outros lugares no exterior (como navios militares) os psicólogos que participam atualmente dos interrogatórios de suspeitos de terrorismo.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, única organização independente com acesso a Guantánamo, denunciou em 2004 que os militares norte-americanos utilizaram intencionalmente a coerção física e psicológica “equivalente à tortura” contra detentos da prisão militar aberta em 2002 nessa base dos EUA em Cuba. A instituição também revelou que os médicos de Guantánamo informavam aos psicólogos envolvidos sobre o estado mental dos detentos e suas vulnerabilidades, como por exemplo determinadas fobias.

Depois da divulgação do relatório de Hoffman, a ONG Médicos pelos Direitos Humanos solicitou ao Departamento de Estado, segundo sua analista Sarah Dougherty, a abertura de uma investigação criminal contra a APA por seu “papel deliberado em garantir” que os psicólogos pudessem participar dos abusos. Até agora, entretanto, o Governo Obama não levou adiante na Justiça nenhuma dessas acusações de tortura.

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