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Brasileiro é coprodutor de 'Love', sexo em 3D que escandaliza Cannes

Melodrama explícito das relações sexuais de diretor francoargentino decepcionou críticos

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Cena de 'Love'.

Love estava programado para o escândalo e cumpriu sua obrigação. O novo trabalho de Gaspar Noé, o cineasta francoargentino que dirigiu títulos como Irreversível e Enter the Void, já se transformou em um dos filmes que passam à história do festival de Cannes. O filme é uma coprodução de Rodrigo Teixeira, um dos produtores brasileiros mais importantes hoje, que resume a trama em “esperma, fluídos e lágrimas". A expectativa, construída por meio de uma inteligente campanha de marketing, estava no máximo. O que explica que as filas tenham sido quilométricas na Croisette: até três horas de espera, com massas de espectadores frustrados ficando de fora. Sua forma explícita e (supostamente) realista de retratar o sexo não esfriou os compradores, muito pelo contrário. A produtora Wild Bunch anunciou nesta quinta-feira que o havia vendido a 36 mercados em todo o mundo, incluindo os Estados Unidos, onde a distribuidora Alchemy pretender lançá-lo em sua versão integral, apesar de submeter-se à classificação NC-17, veneno assegurado para a bilheteria, que já foi dada a títulos como Vício Frenético, Showgirls, A Má Educação, Shame ou Desejo e Perigo.

O primeiro plano do filme anuncia emoções fortes: o pênis ereto do protagonista, um expatriado norte-americano em Paris, ejacula em direção ao espectador (e para maior escárnio, em três dimensões). Sucedem-se diversos planos-sequência de vários minutos, espalhados por duas horas e 15 minutos, que buscam reproduzir com fidelidade a verdadeira natureza do coito heterossexual. Seus protagonistas, encarnados por três jovens atores, esbeltos e não profissionais (Karl Glusman, Aomi Muyock e Klara Kristin), se acasalam repetidamente em modalidades distintas –em dupla, em trio, em grupo – antes de passar à introspecção psicológica, a refletir sobre a frustração que a vida familiar acarreta ou meditar sobre o significado oculto da existência.

Seu diretor deu explicações nesta quinta-feira, diante dos órgãos da mídia, sobre a vontade que o seu filme expressa: romper definitivamente um tabu que impera no cinema desde sua invenção. “Tenho amigos que gostam do dinheiro, outros gostam de cocaína e outros preferem o cinema. O que todos têm em comum é que todo mundo gosta de praticar o sexo”, explicou Noé. “Por que está tão mal representado no cinema? Tem a ver com pressões do tipo comercial e legal”, acrescentou o diretor. Para quem pedia explicações sobre o caráter explícito de algumas cenas, Noé respondeu: “Fiz um filme sobre o amor, não sobre a banca suíça nem a Cientologia.

O diretor artístico do evento, Thierry Frémaux, também defendeu Love dos ataques. “Noé fez um filme que alguns amam e outros odeiam. A literatura e a pintura enfocam a questão da representação do corpo, do sexo e do amor físico, mas muito poucos diretores fizeram algo assim nos 120 anos de história do cinema”, disse ele, para justificar a inclusão de Love no programa do festival de Cannes, onde foi projetado fora da competição.

Love marca um novo capítulo na história de amor entre o festival e os filmes concebidos para o escândalo. Em quase toda a edição um filme aparece no programa oficial para semear o pânico entre os credenciados. De fato, a película foi produzida pelo todo-poderoso Vincent Maraval, que também se encarregou de tornar possível A Vida de Adèle, ganhadora da Palma de Ouro em 2013. Na edição do ano passado, Maraval marcou outro tento com Bem-Vindo a Nova York, inspirada nas andanças de Dominique Strauss-Kahn no Sofitel nova-iorquino. No passado, outros filmes provocaram escândalos parecidos, como Crash – No Limite, Baise-moi, o já citado Irreversível ou The Brown Bunny, com sua legendária cena de felação no final, que quase termina com a carreira de Chloë Sevigny. O falecido Roger Ebert, figura de proa da crítica norte-americana, o qualificou como “o pior filme na história de Cannes”. Seu diretor, Vincent Gallo, respondeu chamando-o de “porco gordo com físico de comerciante de escravos”.

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Gaspar Noé, segundo à esquerda, com seu trio de protagonistas: Aomi Muyock, Klara Kristin e Karl Glusman. Getty

Por ora, a crítica reagiu ao filme com um entusiasmo bastante moderado. Peter Bradshaw, ilustre crítico de The Guardian, afirmou que “se vê bem que um homem heterossexual dirigiu o filme”, ressaltando também “sua ênfase com as camisinhas” e o quão respeitável se torna o protagonista masculino na cena em que dorme com um transsexual. Mas o crítico também o define como “um filme que mostra o sexo de verdade, essa coisa que se usa para fazer bebês”, em lugar de aderir “à sensualidade tímida e ao glamour” que reina na maior parte do cinema comercial. Para a Indiewire, nota-se que foi terminado no último momento. “Parece uma versão fragmentada de um filme mais interessante”, afirmou seu crítico Eric Kohn, que acrescentou que lhe falta “substância” e disse que está “semiacabado” e “mal escrito”. De sua parte, a revista francesa Les Inrockuptibles falava nesta quinta-feira de “escândalo programado”, elogiando mais “a hábil campanha de marketing” do que as qualidades em si de Love, qualificado de “rígido” e “aterrorizado” ante qualquer indício de alteridade ao modelo heterossexual.

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