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Coluna
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Os pelados na Colômbia

Pelas ruas, são os jovens que reclamam o direito de não serem ignorados pelas políticas econômicas de Ivan Duque que afundam o país na desigualdade

Jovens protestam em Bogotá na segunda-feira, 10 de maio.
Jovens protestam em Bogotá na segunda-feira, 10 de maio.LUISA GONZALEZ (Reuters)

“Paro” em espanhol é greve e desemprego. Paro é também verbo: o corpo que para de fazer algo. Pelas ruas de Bogotá, Cali, Manizales ou Medellín, na Colômbia, são os corpos jovens que se movem e reclamam o direito de não serem ignorados pelo curso das políticas econômicas do presidente Ivan Duque que afundam o país na desigualdade. Os jovens são chamados de “pelados”, expressão que escancara a fragilidade do corpo marcado pela desigualdade de classe e racial em tempos de pandemia: um corpo frágil à espera de um Estado protetor. São os pelados que param.

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Eles já foram chamados de juventude nem-nem (nem estudam nem trabalham) e, agora, são descritos como vândalos por notícias que disputam a sinceridade de sua rebeldia. Os pelados tomaram as ruas para protestar contra o projeto de reforma tributária que aumentaria os impostos, e a violência policial os fez permanecer nas ruas. A reforma tributária de Duque propunha aumentar em 2% o PIB do país para maior arrecadação de impostos em 2022—uma meta considerada ousada e sem precedentes na história econômica recente da terceira maior economia da América Latina. Quem pagaria a conta do projeto econômico de Duque seria, desproporcionalmente, as classes trabalhadoras mais pobres. Mesmo com programa de televisão diário para alimentar seu frágil carisma, semelhante ao seu vizinho Nicolás Maduro, na Venezuela, ou Jair Bolsonaro nas redes sociais, no Brasil, a popularidade de Duque é baixíssima entre a juventude: três em cada quatro jovens colombianos entre 18 e 25 anos desaprovam o governo.

O que buscam os pelados? Um senso de futuro protegido. Em termos muito simples, os pelados pedem justiça social para que possam imaginar um futuro livre das desigualdades: desde estar livre do racismo e da pobreza até mesmo a viver em um país que não retorne ao conflito armado que atravessou a história recente da Colômbia. Em termos filosóficos, os pelados reclamam proteções contra os regimes de gestão da vida que os reduzem à “vida nua”, para usar as palavras do italiano Giorgio Agamben. A “vida nua” é o corpo desprotegido, exposto à espoliação do poder soberano, um regime de governo da vida típico dos estados de exceção. Em um cruzamento da abstração filosófica com o vivido pelas palavras, os pelados resistem à imposição da vida nua. Querem mais do que sobreviver: reclamam um futuro com possibilidades.

“Esta é uma manifestação pela sobrevivência”, disse Sandra Borda, professora da Universidade dos Andes, “são jovens que estão muito além do limite, e pela característica das comunidades em que vivem, eles têm uma péssima relação com a força pública”. Em Cali, a terceira maior cidade da Colômbia, se estima que uma em cada quatro pessoas viva na pobreza. Dois adolescentes foram mortos no primeiro dia de manifestações, Marcelo Agredo e Jeirson García, de 17 e 13 anos. O bairro de Puerto Rellena, uma comunidade pobre da cidade, passou a ser conhecido como Puerto Resistencia—ali a polícia não entra. Como em uma projeção da vida sonhada pelos pelados, pelas ruas do bairro caminha Francia Márquez, a ativista afro-colombiana em risco de vida por se opor às mineradoras do país. Em Puerto Resistencia, Francia passeia livre, sem os policiais que a escoltam dia e noite: “aqui eu teria que protegê-los”, diz ela. Os pelados a protegem.

Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Brown University.

Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPFWHR.

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