Coluna
Artigos de opinião escritos ao estilo de seu autor. Estes textos se devem basear em fatos verificados e devem ser respeitosos para com as pessoas, embora suas ações se possam criticar. Todos os artigos de opinião escritos por indivíduos exteriores à equipe do EL PAÍS devem apresentar, junto com o nome do autor (independentemente do seu maior ou menor reconhecimento), um rodapé indicando o seu cargo, título académico, filiação política (caso exista) e ocupação principal, ou a ocupação relacionada com o tópico em questão

O silêncio estratégico de Moro sobre a morte do miliciano amigo da família Bolsonaro

Ex-juiz tem o desafio de aparecer como fiel ministro de Bolsonaro e de seu Governo

O ministro Sergio Moro.
O ministro Sergio Moro.ADRIANO MACHADO (Reuters)

A morte do miliciano e ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega pela polícia, fato que foi notícia internacional devido às suas possíveis relações com a morte da ativista Marielle Franco, deixou em aberto uma série de questões que a opinião pública deve exigir saber.

Era inevitável, por exemplo, que a polícia, dado que o fugitivo estava isolado e sozinho, acabasse com sua vida em vez de entregá-lo vivo à Justiça? Sergio Moro, como ministro da Justiça e Segurança Pública, soube com antecedência da operação policial em curso? Interessava ao presidente Jair Bolsonaro e sua família, com quem o miliciano manteve longos anos de amizade no passado, acabar com sua vida para que não falasse? E a Moro?

Mais colunas de Juan Arias
Julián Illanes es un indígena de la comunidad achuar de Ecuador quien lucha por prevenir los impactos de la nueva carretera que está siendo construida dentro de su territorio. A la derecha; Julián recostado; a la izquierda, vista aérea de la nueva carretera que se abre paso hacia el territorio achuar.
Melhor, senhor presidente, que os índios se pareçam cada vez menos conosco
Manifestantes seguram bandeira com rosto de Marielle Franco, no dia 23 de setembro, no Rio.
Mataram Marielle novamente
AME8199. BRASILIA (BRASIL), 03/02/2020.- La ministra brasileña de Mujeres, Familia y Derechos Humanos, Damares Alves, participa en el lanzamiento de la nueva campaña nacional del Gobierno para le prevención del embarazo en adolescentes este lunes, en Brasilia (Brasil). EFE/ Joédson Alves
Por que os poderes religioso e político temem tanto a sexualidade?

Como explicar o silêncio do ministro da Justiça até agora sobre a morte do importante miliciano, quando em outras ocasiões parabenizou a polícia por suas ações contra a violência? Como explicar o mau humor de Bolsonaro diante dos jornalistas que o questionaram sobre o caso e o fato de ter se recusado com irritação a falar com a imprensa?

Trata-se sem dúvida de uma morte que dói e que preocupa aqueles que temem que o miliciano poderia ser uma figura fundamental para se chegar ao mandante ou aos mandantes do assassinato de Marielle e para conhecer melhor as estreitas relações entre ele e o filho do presidente, o senador Flávio, que o condecorou duas vezes e manteve em seu gabinete alguns de seus parentes.

Segundo a polícia, sabe-se que o miliciano tinha consigo 13 celulares que podem conter informações preciosas e até explosivas. Seu conteúdo será revelado à opinião pública ou se dirá que estavam vazios?

Se a irritação do presidente com a notícia da morte do miliciano é até plausível, o silêncio de Moro parece bastante estratégico. Por que não exultou com a notícia da morte do miliciano? Por que não aplaudiu a operação policial?

Esse silêncio de Moro é importante dentro do jogo de espelhos que está levando a cabo com grande habilidade e possivelmente com uma estratégia bem definida. Para conhecer a realidade das cartas que o poderoso ministro da Justiça está jogando é preciso lembrar que hoje ninguém duvida que o fato de ter deixado seu posto de juiz da Lava Jato, que lhe deu fama mundial como lutador contra a corrupção, não foi apenas pelo prazer de ser ministro. Suas aspirações, jovem como é, e com uma popularidade que está crescendo, vão além das de um ministro Bolsonaro.

É possível que, neste momento, e a julgar por alguns textos nas redes sociais de sua esposa incentivando-o sempre a voos mais altos, nem sequer a possibilidade de chegar ao Supremo Tribunal Federal lhe seja suficiente. Na rua já é visto ou como um sucessor natural de Bolsonaro, ou até mesmo como um concorrente deste nas urnas, caso a figura do presidente de extrema direita chegue enfraquecida à reeleição.

Não é fácil o equilíbrio em que Moro está se movendo no momento. Sua única estratégia diante de Bolsonaro e sua família, que governa junto com ele, se é verdade que sua real ambição é poder vestir a faixa presidencial, é conseguir conjugar suas ambições futuras sem, ao mesmo tempo, se indispor com eles e com seus seguidores mais fieis.

Moro deverá aparecer como fiel ministro de Bolsonaro e de seu Governo para não perder o consenso desses 30% ainda fiéis ao mito, e ao mesmo tempo agir habilmente para que Bolsonaro não cresça em consenso, e se for possível que este se enfraqueça pouco a pouco. É uma operação difícil porque não pode aparecer como advogado de defesa da família Bolsonaro e nem como inimigo dela.

Na sutil estratégia para manter esse equilíbrio, Moro deve aparecer ao mesmo tempo à opinião pública como fiel ao chefe, que tenta ajudar em suas comprometedoras relações com a corrupção e as milícias, e ao mesmo tempo ir colocando pedras para que tropece sem que sua estratégia dupla apareça.

É à luz desses interesses políticos de Moro que podem ser examinados seu silêncio diante da morte do ex-capitão Adriano e sua ainda desconhecida atitude em relação à operação policial. A questão sobre se interessava a Moro e a Bolsonaro o miliciano vivo ou morto poderia estar diretamente relacionada à estratégia de Moro de aparecer fiel ao chefe e, ao mesmo tempo, não ver com maus olhos que este possa aparecer comprometido.

A política, suas estratégias, seus estranhos e ocultos labirintos sempre foram clássicos na busca pelo poder. Maquiavel, o filósofo e escritor italiano, considerado o pai da ciência política moderna, já tinha nos ensinado isto séculos atrás. E Moro começa a ser visto como o novo e sutil Maquiavel brasileiro, autor do famoso Príncipe, que defendia que os fins podem justificar os meios para consegui-los.

Regras

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS