Celebridades

Triunfo, traição e reviravolta: como Jennifer Aniston tem sido a mártir de Hollywood há 25 anos

O público adora ver a atriz, que brilha na série ‘The Morning Show’, encontrar o amor na ficção; mas deseja que não o encontre na vida real

Num episódio da série The Morning Show, a personagem de Jennifer Aniston se encontra com a agente para planejar o comunicado de seu divórcio. “Se o seu marido te traiu com outra, isso te favorecerá porque vai dar pena de você, mas uma pena misturada com compaixão”, explica a especialista. Nem por um segundo a câmera abandona Aniston, que escuta os conselhos passando da perplexidade à amargura e à resignação. A atriz (Los Angeles, EUA, 1969) é consciente de que todos os espectadores se lembrarão do seu escandaloso divórcio de Brad Pitt, há 15 anos, quando a namorada da América passou a ser a traída da América (e, em seguida, a solteirona favorita do povo), sem que pudesse fazer nada a respeito. Ou é isso que ela deixou transparecer. Jennifer Aniston está há 25 anos, desde que irrompeu no episódio-piloto de Friends vestida de noiva, controlando a imprensa para que pareça que é a imprensa que a controla.

Rachel era a personagem mais humana de Friends: indecisa, irritadiça e sempre precisando da ajuda dos outros. Uma jovem de 25 anos, amiga de suas amigas e colega de seus namorados, que se beneficiou do talento que Aniston tinha para reagir durante os segundos de risos enlatados, nos quais muitos atores não sabem parecer naturais, aproveitando-se para ser adorável. No início da terceira temporada, a revista Rolling Stone mostrou a atriz nua na capa com a manchete “The Girl Friend” (um jogo de palavras entre “a namorada” e “a amiga”). E então chegou Brad.

Todas as mulheres estavam apaixonadas por Brad Pitt. Todos os homens estavam apaixonados por Jennifer Aniston. Eles se conheceram num encontro orquestrado por (não podia ser de outro modo) seus representantes e gastaram um milhão de euros (4,5 milhões de reais) na festa: 50.000 flores, um coro gospel, 13 minutos de fogos de artifício sobrevoando o oceano Pacífico com música de Radiohead, Garbage e Jeff Buckley. Em seus votos nupciais, Aniston prometeu que estaria sempre disposta a preparar para Pitt o seu milk-shake de banana favorito. Ao jogar o buquê, as flores bateram numa luminária e caíram de volta em suas mãos, feito uma premonição numa comédia romântica. Os noivos, que pela manhã haviam feito mechas californianas, riram nervosos quando ela se equivocou nos votos e exclamou: “É que nunca fiz isso!” Típico de Rachel.

Em 2002, quando ganhou o Emmy pela oitava temporada de Friends (centrada na gravidez de sua personagem), Aniston disse que também queria ser mãe jovem e parecia destinada a se tornar estrela de cinema. E então chegou Angelina.

Jennifer Aniston e Angelina Jolie se encontraram apenas uma vez. Foi justo antes da rodagem de Sr. & Sra. Smith. Aniston baixou o vidro do carro e a cumprimentou: “Brad está muito emocionado por trabalhar com você, espero que curtam bastante”. Cuidado com os seus desejos. Em 1º de janeiro de 2005, Pitt e Aniston passeavam de mãos dadas durante as férias em Anguilla (Caribe) com Courteney Cox. Seis dias depois, comunicaram seu divórcio. Em 23 de abril, Pitt e Jolie foram fotografados brincando com o filho dela (Maddox) numa praia do Quênia.

Se a vida de Jennifer Aniston fosse uma novela, Angelina Jolie seria exatamente o tipo de mulher que os roteiristas inventariam para roubar o seu marido: morena, sexual, perigosa. Se Aniston era uma princesa, Jolie era uma bruxa. Se Aniston era a menina da casa ao lado com o bronzeado de quem acaba de chegar das férias, Joli tinha traços de uma amazona de pele pálida. Se Jennifer vestia calça jeans, camiseta regata e anéis nos dedos do pé, Angelina exibia couro, tatuagens e um pingente com o sangue de seu segundo marido pendurado no pescoço.

Os jornais retrataram Jennifer Aniston como uma solteira inventerada (diziam que Pitt queria ter filhos e ela priorizava a carreira), ao passo que Angelina Jolie deu seis filhos a Brad Pitt em dois anos quase por magia: três adotivos e três biológicos. Naquele 2005, as camisetas com os slogans Team Aniston (“Equipe Aniston”) venderam 25 vezes mais que as Team Jolie (“Equipe Jolie”). Qualquer pessoa podia se identificar com o medo de que o companheiro a deixasse por um colega de trabalho. Uma vez mais, qualquer um podia se identificar com Jennifer Aniston.

O público adora vê-la encontrar o amor no cinema, mas deseja que não o encontre na vida real. Se Jennifer Aniston alcançar seu final feliz, a novela terminará

Ela continua dizendo que se nega a estar na posição de vítima, mas tampouco foge totalmente desse papel, que, no fim das contas, seu querido público quer que exerça. Em sua primeira entrevista como divorciada, para a revista Vanity Fair em outubro de 2006, ela começou a chorar quando abriu a porta para a jornalista. Continuava sem entender o que havia acontecido, mas defendeu seu ex-marido explicando que acreditava nele quando dizia que não foi infiel; admitiu ter sucumbido à tentação de ler uma revista sensacionalista (em que Kimberly, filha de Rod Stewart, a chamava de dona de casa, com pouca formação) que estragou seu dia e confessou que costumava caminhar até as pedras de uma praia próxima para gritar ao mar. Mas Aniston se aferrava docilmente ao seu título de Namorada da América: “Continuo acreditando no amor. Neste exato momento há um homem incrível andando por aí que é o pai dos meus filhos. Em cinco anos, espero estar casada e com um bebê”.

As dezenas de entrevistas que a atriz concedeu desde então funcionaram como episódios de sua saga: triunfo, traição e ressurgimento. Por um lado, são um seriado em que o público pode acompanhar tanto o estado da sua relação com Pitt (em 2006 eles não se falavam; em 2009 já se cumprimentavam nos aniversários; e agora conversam de vez em quando) como seus segredos de beleza (em 2001 ela era fã da Zone Diet, a dieta das celebridades de Hollywood; depois contou que estava cansada desse regime; e agora faz jejum durante 16 horas por dia, e uma vez por semana se alimenta com suco de salsão) e suas desventuras sentimentais. Por outro lado, cada entrevista é uma oportunidade para revalidar sua imagem pública.

Todas as reportagens têm pontos em comum. A entrevista é feita em sua casa de Bel Air, onde ela mesma espera a chegada do jornalista no alpendre para fazer um tour que termina com a vista, que chega até Santa Monica. A casa está sempre em processo de renovação ou redecoração (o fato de que Jennifer Aniston esteja há 20 anos construindo seu lar é uma metáfora por si só). Os temas tratados são sua infância, sua família (ela cortou a relação com a mãe, Nancy Dow, que lhe incutiu uma obsessão doentia pela beleza desde pequena, quando Dow publicou um livro em 1999 e lavou a “roupa suja” em público), seus namorados e seus hobbies. Nunca sua carreira profissional. Em algum momento, um de seus cachorros interrompe a conversa.

Aniston costuma contar uma história recente sobre os paparazzi que assediam a mansão. Quando lhe perguntam por Jolie, ela sempre pede ao entrevistador que desligue o gravador para responder com honestidade. É como se o jornalista sentisse a necessidade de, representando seus leitores, consolar Jennifer enquanto tomam sorvete. E a atriz sabe que seu sucesso provém do mesmo lugar que sua condenação: o público a adora e não se cansa dela. Quando Jennifer Aniston posa para uma revista, seus olhos parecem ver o leitor como se fosse um velho amigo seu.

Por isso, o público adora vê-la encontrar o amor no cinema, mas, ao mesmo tempo, deseja que não o encontre na vida real. Se Jennifer Aniston alcançar seu final feliz, a novela terminará. A atriz protagoniza sempre a mesma comédia romântica e nunca muda de penteado, de figurino (continua usando inclusive os cintos largos marrons) e de discurso. Enquanto isso, sua novela muda de coprotagonista (Vince Vaughn, John Mayer, Justin Theroux) e, com cada ruptura, voltam as manchetes de “solteirona”, “infeliz” ou “refazer sua vida”. Na mesma semana que anunciou seu divórcio de Theroux, a revista Architectural Digest colocou-os na capa mostrando a casa que haviam comprado e renovado juntos. Seria uma espécie de carma, segundo várias revistas, porque Aniston “havia feito um [carma] a Angelina”, a ex-namorada de Theroux, com quem estava havia 14 anos, durante a rodagem de Viajar É Preciso.

Aniston molda sua imagem como uma operação de marketing: publica fotos de seu jantar de Ação de Graças com seu ex Justin Theroux e sua amiga Courteney Cox; diz que, embora seus anéis de noivado tenham sido dois diamantes enormes, prefere a bijuteria hindu; e acredita que o grande amor de sua vida, um ator que ela deixou justo antes de Friends e que morreu em consequência de um tumor em 2007, enviou-lhe Theroux do céu. Exibe sua vida privada enquanto pede que ninguém interfira nela. E não pretende deixa de falar de Pitt e Jolie: aquela primeira entrevista entre lágrimas foi humana, próxima e compreensível; que continue falando sobre seu divórcio 15 anos depois é, basicamente, a diferença entre ser Chenoa e ser Belén Esteban.

Jennifer Aniston e Angelina Jolie se encontraram apenas uma vez. Foi justo antes da rodagem de Sr. & Sra. Smith. Aniston baixou o vidro do carro e a cumprimentou: “Brad está muito emocionado por trabalhar com você, espero que curtam bastante”

Outra cruzada de Aniston é denunciar que a sociedade projeta nela suas ansiedades em relação à feminilidade: como as pessoas não podem perscrutar seu corpo, que nunca parece engordar ou emagrecer nem um quilo, ficam obcecadas com a possibilidade de haver um feto dentro dele. Em junho de 2016, a revista In Touch mostrou-a de biquíni, apontou sua barriguinha e anunciou: “Finalmente Jen está grávida!” (sua agente esclareceu que ela acabava de comer um prato abundante), e a mesma revista anunciou de novo sua gravidez, nada menos que de Brad Pitt, em julho de 2018 (com casamento incluído), em outubro do mesmo ano e em janeiro de 2019. “Ninguém sabe o que eu passei médica e emocionalmente. Há uma pressão para que as mulheres sejam mães e, se não forem, são consideradas mercadoria defeituosa. Talvez meu propósito neste planeta não seja o de procriar”, explicava no ano passado a In Style. Mas será que essas notícias falsas teriam repercussão se a própria Aniston não as mencionasse em cada entrevista?

Talvez ela tenha medo que o público deixe de amá-la, e por isso continue alimentando a fantasia de que precisa, como Rachel, que os demais a protejam. Faz 19 anos que está entre as 10 atrizes mais bem pagas do mundo (com renda anual de 90 a 135 milhões de reais graças aos filmes e aos anúncios que faz de cosméticos, estilo de vida e alimentação saudável). Acaba de ser indicada ao Globo de Ouro e ao prêmio do Sindicato de Atores por The Morning Show. Sua comédia Mistério no Mediterrâneo foi a mais vista da história da Netflix durante os primeiros três dias (mais de 70 milhões de espectadores). E, quando abriu sua conta no Instagram, bateu o recorde dos duques de Sussex, atingindo um milhão de seguidores em 5 horas e 16 minutos. Que continue recorrendo à sua imagem de divorciada do povo faz lembrar quando Rachel vestia seu uniforme de animadora de torcida porque nunca isso havia falhado para conseguir uma relação amorosa.

Jennifer Aniston estreou no Instagram com uma foto que reunia os seis protagonistas de Friends, porque sabe dar ao público o que ele quer —e, o mais importante, sabe deixá-lo sempre com vontade de mais. Uma recente pesquisa de mercado concluiu que Aniston é a terceira mulher mais querida pelos consumidores, atrás apenas de Michelle Obama e Kate Middleton. Tal como explica sua personagem em The Morning Show quando tentam despedi-la: “A América me ama. E isso significa que sou a dona da América. Estou farta de que me menosprezem, porra.”

Rachel nunca diria algo assim. Provavelmente Jennifer sim. Mas nunca durante uma entrevista, claro.