As tribos de Sebastião Salgado e Lélia Wanick

Em seu estúdio parisiense, o fotógrafo brasileiro e sua mulher falam de como passaram a vida inteira trabalhando lado a lado para realizar projetos excepcionais como ‘Amazônia’

O casal formado por Sebastião Salgado e Lélia Wanick Salgado, fotografado no seu estúdio de Paris, trabalha na edição fotográfica. Seu novo livro e exposição, 'Amazônia', foi inaugurado em 20 de maio na Philharmonie de Paris.
O casal formado por Sebastião Salgado e Lélia Wanick Salgado, fotografado no seu estúdio de Paris, trabalha na edição fotográfica. Seu novo livro e exposição, 'Amazônia', foi inaugurado em 20 de maio na Philharmonie de Paris.Ed Alcock / EPS

É a tribo dele. “Minha mulher, meus filhos, meus relacionamentos…”, enumera Sebastião Salgado, que já viajou aos cantos mais remotos do planeta, onde conviveu com tribos perdidas e admirou esses homens e mulheres nos quais viu um espelho da humanidade. Salgado vem há quase meio século tentando extrair com sua câmera fotográfica algo parecido com a essência do mundo e da humanidade, como faziam os romancistas desmesurados do século XIX ou seus contemporâneos latino-americanos do século XX, como García Márquez e Vargas Llosa.

Mas ele não se confunde. Sabe que sua tribo não está nas profundezas da Amazônia ou em Sumatra. E conta que, na sua idade, já não quer tanto vaivém. Sebastião Salgado anuncia no seu estúdio em Paris: “É a hora de começar a me acalmar um pouco”.

A mão de Lélia Wanick Salgado segura uma imagem incluída na exposição ‘Amazônia’. Wanick está preparando uma mostra da obra de Salgado para o metrô de Paris, coincidindo com a lançamento do seu novo livro e exposição: ‘Amazônia’.
A mão de Lélia Wanick Salgado segura uma imagem incluída na exposição ‘Amazônia’. Wanick está preparando uma mostra da obra de Salgado para o metrô de Paris, coincidindo com a lançamento do seu novo livro e exposição: ‘Amazônia’. Ed Alcock / EPS

A editora Taschen publica Amazônia em formato de livro. E até o final de outubro fica em cartaz uma exposição homônima na Cidade da Música, em Paris. Ambos, livro e exposição, foram concebidos e editados por Lélia Wanick Salgado, sua companheira desde que se conheceram na Aliança Francesa de Vitória (ES), ele aos 20 anos, e ela 17. É também sua cara-metade profissional desde que, ao completar 30 anos, ele trocou uma promissora carreira de economista em organizações internacionais pela fotografia.

Amazônia é a saga das comunidades indígenas, retratadas ao rés do chão, em suas vidas cotidianas, e ao mesmo tempo da selva como raramente se viu, fotografada de aviões e helicópteros. É o último grande projeto do homem que revolucionou a fotografia documental com suas imagens em preto e branco que refletiam a dureza do trabalho, a miséria do mundo, a natureza em seu estado primitivo. Não haverá outras.

O fotógrafo Sebastião Salgado, fotografado em seu estúdio em Paris, enquanto prepara seu novo livro e a exposição ‘Amazônia’, aberta no último dia 20 na Philharmonie de Paris.
O fotógrafo Sebastião Salgado, fotografado em seu estúdio em Paris, enquanto prepara seu novo livro e a exposição ‘Amazônia’, aberta no último dia 20 na Philharmonie de Paris.Ed Alcock / EPS

“Garotinho, sabe? Tenho 77 anos”, diz. Durante as viagens à selva para realizar este projeto, entre 2013 e 2019, adoeceu várias vezes, e seu corpo já não dá conta destas missões tresloucadas, diz ele. “Agora é hora de editar tudo o que tenho aqui. Talvez eu seja o fotógrafo que mais trabalhou na história da fotografia. Tenho muitas histórias para editar.”

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O fotógrafo, com um ar de repórter calejado e espanhol perfeito com o doce sotaque do Brasil, pega uma caixinha com velhas fotos em preto e branco. O que aparece não são tribos longínquas, nem refugiados famintos, nem morsas, nem baleias.

– Olha, este é o Josef Koudelka. E este, o Henri Cartier-Bresson.

São fotos dos primeiros anos de vida profissional, de um autodidata que fez seu nome como fotógrafo em agências como Sigma e Magnum, aprendendo com os mestres do ofício.

Salgado mostra mais fotos. Há várias com amigos latino-americanos e outras privadas, seus filhos, Juliano e Rodrigo, o álbum de uma família progressista da década de 1970, que alguns anos antes tinha se exilado na França fugindo da ditadura militar no Brasil.

Em uma delas aparece o jovem Sebastião, barba e cabeleira loira, tomando sol numa praia, nu. “Fazíamos muito nudismo na época”, esclarece. Em outra, se vê Lélia em uma cama, nua também e de costas. “Lélia foi uma das moças mais bonitas do mundo.”

Lélia Wanick Salgado, esposa e parceira profissional do fotógrafo Sebastião Salgado, retratada no estúdio deles em Paris.
Lélia Wanick Salgado, esposa e parceira profissional do fotógrafo Sebastião Salgado, retratada no estúdio deles em Paris. Ed Alcock / EPS

Foi Lélia quem comprou a primeira câmera fotográfica do casal. Já viviam na França. Ela estudava Arquitetura e precisava do equipamento para seus trabalhos de campo; ele fazia doutorado em Economia. “O Sebastião gostou tanto que não é que eu tenha dado a máquina para ele, ele a roubou de mim!”, sorri. “Ele brincava… Montou um pequeno laboratório no nosso quarto da Cidade Universitária e começou a fazer umas fotos muito lindas.”

A dupla se forjou então, naquele quarto de uma residência estudantil de Paris. Esse maquinário se aperfeiçoou nas décadas seguintes. Ele indo a campo; ela, editando os livros – Outras Américas, Trabalhadores, Êxodos, Gênese…– e organizando exposições. “O que eu sei fazer, ele não sabe fazer. E vice-versa”, resume Lélia Wanick Salgado. “Sebastião trabalha com muitos itens diferentes. Eu tenho que imaginar como ordená-los e, com eles, inventar uma história.”

O processo é sempre parecido. Sebastião traz as fotos de suas viagens, Lélia as leva a um mezanino no estúdio de Paris. Pendura-as numa parede e vai construindo a sequência. Ele está metido demais nas fotos, por isso é mais fácil para ela tomar distância e ver com mais clareza o relato que as imagens contêm. Mas às vezes as coisas se complicam, e então Sebastião diz a Lélia:

– Eu quero que esta foto entre.

– Vamos tentar.

Assim, lado a lado, fabricaram os livros e exposições, e assim criaram Amazônia: o ponto final de uma carreira e uma volta à origem.

“Eu nasci numa floresta”, declara Sebastião. Sua “floresta” originária não é a Amazônia, e sim uma fazenda de Minas Gerais, no meio de um vale “do tamanho de Portugal”, mas que resume sua vida: América, uma ideia do ser humano, a natureza.

Uma antiga foto de Sebastião Salgado e sua esposa e parceira Lélia Wanick Salgado.
Uma antiga foto de Sebastião Salgado e sua esposa e parceira Lélia Wanick Salgado.Ed Alcock / EPS

“Precisamos da Amazônia porque é a maior concentração de biodiversidade do planeta”, argumenta. “Precisamos dela pelas águas: é a maior concentração de água doce do planeta. E pela umidade que se distribui por todo o planeta através dos rios voadores, um conceito novo: há mais água que evapora da Amazônia por via aérea a cada dia que o volume de água que o maior rio do mundo, que é o Amazonas, despeja no oceano Atlântico.”

O livro e a exposição demandaram um esforço físico e logístico desmedido. A viagem, de saída, não é fácil: “É preciso pedir as autorizações com um ano de antecedência para visitar estas comunidades. Depois, chegar à comunidade: uma semana ou 10 dias de navegação. Mais 10 ou 12 dias em quarentena antes de entrar. E integrar-se exige tempo: tudo acontece devagar”.

A época romântica do fotojornalista só com sua câmera fica para trás; este é um trabalho de equipe: “Não tenho direito de comer a comida dos indígenas, e tenho que trazer a minha, por isso vou com um cozinheiro. Vou com um antropólogo ou um tradutor, uma pessoa que os conhece, porque não falo a língua. E com uma ou duas pessoas da Funai, que conhecem a selva. Tenho uma pessoa que sabe operar as canoas, os barcos, porque é muito difícil conduzi-los pelos igarapés”.

Uma vez alcançado o destino, monta um estúdio portátil onde os indígenas, vestidos com plumas, posam para o visitante. “Entram em outro mundo: é a primeira vez que se isolam”, relata. “A relação com o fotógrafo é muito interessante. Às vezes vêm um ou dois, às vezes uma família, às vezes 10, às vezes 30.”

Não é sua tribo, mas, quando fotografa na Amazônia―coisa que começou a fazer no começo dos anos oitenta, lá se vai meia vida―, logo se sente em casa. “Os indígenas somos nós. Quando você vai trabalhar com as comunidades indígenas, está com sua comunidade, a comunidade do Homo sapiens”, diz. “Mas é uma comunidade protegida, que não foi violada, que não teve as influências das grandes correntes religiosas nem das deformações impostas pelos limites dos Estados, nem pelo domínio do capital nem da política. São seres livres! Vivem em paz”. Em outro momento afirma: “Aquele mundo está perto do conceito inicial do que para nós é o paraíso. O paraíso existe! Imagine que você acorda e pode ir caçar ou não, ir pescar ou não ir, dormir quando quiser”.

– Não os idealiza um pouco?

– Não! Eu vivi lá, sou dos poucos que realmente viveram lá. Só para este projeto passei sete anos.

O projeto ―o livro, a exposição, a música de Jean-Michel Jarre que a acompanhará―está pronto para ver a luz, e agora Sebastião e Lélia olham para o futuro: as dezenas de milhares de fotos por editar, o material acumulado que talvez contenha mais livros e exposições. E falam de seus filhos: de Juliano, cineasta, que tem 47 anos e vive em São Paulo, e de Rodrigo, de 41, que mora com eles em Paris e dedica seus dias a pintar. Rodrigo nasceu com a síndrome de Down, e aquilo transformou a tribo dos Salgado-Wanick. Os olhos do casal se iluminam ao falar dele, e ao ouvi-los é difícil evitar um pensamento: depois de percorrer o mundo, de voltar o olhar para outras paisagens e outros seres humanos ―a epopeia planetária―, este poderia ser seu próximo grande projeto: a epopeia da intimidade.

Sebastião: “Rodrigo influenciou nossa vida, a minha maneira de fotografar, de me relacionar com as pessoas, a paciência que desenvolvi. Situou-nos em outro nível da vida”.

Lélia: “É uma pessoa maravilhosa. Somos o que somos pelo Rodrigo”.

Sebastião: “Ele se parece muito com os indígenas dos quais eu falava agora há pouco. É bom, puro, são. É colossal”.

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