Coronavirus

Morre aos 87 anos Larry King, que moldou a era das entrevistas na TV

Estrela, que triunfou na CNN durante um quarto de século entrevistando de Margaret Thatcher a Michael Jordan, estava internado com covid-19

Larry King, em setembro de 2020.
Larry King, em setembro de 2020.FOX / EL PAÍS

Líder de opinião até o final, as últimas mensagens públicas não adiantaram ao apresentador de televisão Larry King, nas quais pedia aos seus seguidores que usassem máscara e mantivessem a distância social. A lenda da televisão morreu neste sábado aos 87 anos vítima do coronavírus no Cedars Sinai Medical Center de Los Angeles, onde foi internado no Natal. O comunicador norte-americano que fez da entrevista uma arte tinha doenças prévias e não resistiu à infecção pelo vírus.

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Sua telegenia, credibilidade e uma imagem conhecida, com seus eternos suspensórios, óculos de lentes panorâmicas e gravatas espalhafatosas, criaram a televisão moderna nos EUA, essa que combina o ritmo do espetáculo e o rigor informativo, com um tom afável e despreocupado, mas ao mesmo tempo incisivo que antecipava o instinto de detetive de seus herdeiros nas ondas, como a combativa Christiane Amanpour, para citar somente uma das estrelas da televisão. Durante um quarto de século ele apresentou na CNN, a rede que redimensionou a informação televisiva, o programa Larry King Live, em que entrevistou todos os presidentes dos EUA em exercício desde 1974 e um bom número de mandatários internacionais como o palestino Yasser Arafat e o russo Vladimir Putin.

King saiu da CNN em 2010, mas continuou na área com um programa de entrevistas exibido em seu site. Dois anos depois lançou o Larry King Now na Ora TV, um canal de vídeos por assinatura. Há dois meses, ao completar 87 anos, agradeceu no Twitter todas as mensagens de parabenização enviadas por colegas e admiradores, junto com uma fotografia em que aparecia com bom aspecto apesar de sua diabetes tipo 2, e as cicatrizes de vários ataques cardíacos e um câncer de pulmão superado. Em 1987 sofreu um infarto que exigiu um by-pass quíntuplo, uma experiência que compartilhou em dois livros e um documentário de televisão britânico. A vida também lhe bateu duro: no ano passado perdeu dois de seus filhos em um intervalo de três semanas.

Sua cobertura da Guerra do Golfo de 1991, a primeira transmitida ao vivo pela televisão, faz parte da história do jornalismo, da chuva de mísseis que traçava elipses coloridas sobre o rio Tigre ao cormorão empapado de petróleo no Kuwait que depois se descobriu que era uma montagem, talvez a primeira notícia falsa da televisão contemporânea. Dos estúdios, Larry King esteve na linha de frente nessa primeira noite ao vivo da guerra, conectado com o enviado especial da rede em Bagdá, o também legendário Peter Arnett, mas também na retaguarda, entrevistando políticos, militares, vítimas e carrascos. Após entrevistar os especialistas, King abria os microfones aos telespectadores, fazendo do programa um termômetro da opinião pública.

Antes de provar o gosto do sucesso, King, nariz proeminente em forma de gancho e cabeça poderosa de imperador romano, teve ampla variedade de empregos em diversos veículos de comunicação. Nascido no Brooklyn em 1933 como Zeiger King, suas duas décadas de forja em Miami foram uma época dissoluta que transcorreu entre o trabalho medíocre, a boêmia e as dívidas. Começou como DJ, mas também limpou escritórios, e conquistou certa notoriedade ao entrevistar pessoas comuns ao vivo em um restaurante. Mais tarde começou a intercalar convidados famosos, o que o levou a trabalhar em uma rede de televisão local onde se uniu à lenda do entretenimento Jackie Gleason. Nos anos setenta, enquanto narrava partidas do Miami Dolphins e tinha um programa esportivo de rádio local, foi ganhando celebridade nacional e por fim entrou na CNN em 1985 com o Larry King Live, onde permaneceu até 2010. A veteranice e a idade não lhe impediram de tentar novos formatos, como um podcast semanal chamado Politicking with Larry King, e até um clipe de Bryan Cranston explicando os Power Rangers.

Seus modos informais, em mangas de camisa e apoiando o queixo em uma das mãos, passaram à história da televisão como o inconfundível topete de Jesús Hermida, um dos que se inspiraram nele. “Eu nunca me considerei um repórter. Eu sou a revista de um jornal. Estou tentando entreter e informar”, dizia frequentemente sobre a receita de seu sucesso, que transformou seu programa em um vagão de metrô na hora do rush: na mesma semana entrevistou, nos anos noventa, Margaret Thatcher, Mikhail Gorbatchov, o todo-poderoso executivo Lee Iaccoca e Michael Jordan.

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