Brasileiros abraçam o cosplay e a paixão de representar a caráter seus personagens prediletos

O hábito de disfarçar-se de heróis de séries, filmes, games ou quadrinhos ganha forças com eventos como a CCXP. Jovens e adultos frequentam festas e encontros para quem cultiva o hobby

O designer e cosmaker Henrique Cavalcante, caracterizado como Mysterio, da Marvel.
O designer e cosmaker Henrique Cavalcante, caracterizado como Mysterio, da Marvel.Fernanda Becker (custom credit)

Quando o americano Forrest J. Ackerman, fanático por ficção científica, decidiu comparecer à convenção Worldcon, em 2 de julho de 1939, caracterizado como o protagonista do filme Things to Come (1936), acabava de lançar a semente de um movimento cultural que atravessou décadas e fronteiras geográficas e que perdura até hoje: o cosplay. O termo, que vem do japonês kosupure, é uma abreviação da expressão em inglês costume roleplay, que designa o hobby (para muitos, um estilo de vida) de disfarçar-se de um personagem. O hábito, ainda que os cosplayers jovens sejam os mais vistos, atravessa gerações.


No Brasil, o movimento ganha corpo com adeptos que circulam nos eventos ligados a quadrinhos e festas temáticas. Sueli Gemmi, aposentada de 68 anos, é prova viva disso. Durante a Comic Con Experience (CCXP), que aconteceu em São Paulo de 5 a 8 de dezembro, ela se destacava da multidão —ainda que disputasse a atenção com jovens vestidos de jedis e adoráveis bebês interpretando o mais recente fenômeno da saga Star Wars, o baby Yoda. Com uma rosa vermelha na mão, Sueli mantinha uma postura de nobre digníssima, com um elaborado vestido dourado e a cabeça e o rosto emoldurados por um elegante véu verde oliva. Era a própria encarnação de Olenna Tyrell, matriarca da Casa Tyrell, uma das especialistas em intrigas e politicagem na série Game of Thrones (GoT). Ela explica a admiração pela personagem com um spoiler: “Ela era minha favorita na história. Gosto dela porque ela matou o Joffrey [o reizinho sádico e sanguinário das primeiras temporadas]”.

A CCXP é o maior evento do ano para este grupo. Há três anos, Sueli acompanha a filha, que faz cosplay de Sansa Stark (também de GoT, para os desavisados). A aposentada também é cosmaker, quer dizer, é ela quem costura e ajeita cada detalhe do próprio look. “Também faço as roupas da minha filha e do meu genro. Algumas amigas deles me pedem encomendas e eu faço. É bom que eu ganho um dinheiro a mais”, ri. Ela conta que, por um vestido como o de Olenna, cobra aproximadamente 200 reais.

Mas há quem pague muito mais. O designer e cosmaker Henrique Cavalcante, de 30 anos, era parado a cada minuto para fazer fotos nos corredores da CCXP, graças à caracterização como Mysterio, personagem das histórias em quadrinho da Marvel, com direito a peruca, óculos, capa vermelha e armadura completa com fios de LED. Sem falar nas duas placas triangulares, cuidadosamente cortadas a laser, que compõem o uniforme do vilão. Quanto custa o outfit tão elaborado? “Entre 2.000 e 2.500 reais”, responde Henrique, cosplayer desde 2015 —um dos primeiros personagens que fez foi o Homem de Ferro. “Amo o universo Marvel e gostei especialmente do Mysterio, porque você começa achando que ele é um herói, mas tem várias nuances”, diz. Ele conta que, para confeccionar cada cosplay, geralmente usa emborrachados como EVA, tecidos e “algumas coisas de plástico”, materiais facilmente encontrados no Brasil. “Mas preciso importar algumas coisas”, acrescenta.

“O cosplayer brasileiro tem que se virar na gambiarra porque aqui não tem muita opção, então a gente se vira ou encomenda de fora”, lamenta Stephanie Baes, estudante de relações internacionais de 22 anos e cosplayer há uma década. Uma das personagens que levou à CCXP foi a Arlequina, interpretada por Margot Robbie no filme Esquadrão Suicida. “Essa roupa eu fiz inteira. Para ficar bem feita, leva, no mínimo, um mês. Me custou uns 400 reais”, diz. Em outro dia do evento, a jovem foi como Morgana, do jogo League of Legends. As grandes asas da personagem obrigaram Stephanie a transportar a fantasia em três carros diferentes. “Eu gosto da sensação de representar alguém diferente de mim e adoro variar personagens”, conta.

Assim como Stephanie, a maioria dos cosplayers gosta de guardar a roupa de cada personagem. Mas também acontece de terem que reformar uma fantasia para transformá-la em outra ou até mesmo vendê-la para custear um novo cosplay. “Você tem que encarar como um projeto, ir procurando peça por peça até montar o look”. Quem dá a dica é Adriano Rodrigues da Silva, webdesigner de 27 anos, que faz cosplay desde 2009. “Comecei como cospobre, com as peças que tinha no armário”, ri e acrescenta: “Hoje compro muita coisa importada”. Um exemplo é a coroa de longas penas de pavão e outras aves que levava para caracterizar Sun Wukong, o Rei Macado, da série Jornada ao Oeste. “Não conheço no Brasil quem faça uma coroa como essa. A roupa a gente consegue fazer aqui, mas os acessórios, geralmente, têm que vir de fora”, diz ele, com maquiagem impecável e lentes de contato de um verde intenso.

Uma coisa de casais

Cada um recebe o chamado para o mundo cosplay em seu momento. Para alguns sortudos, no entanto, o timing é perfeito. É o caso da professora de inglês Lorena Belas, de 22 anos, e do seu noivo, Randi Porto, de 28 anos, gerente de uma agência bancária, que se conheceram em um evento de cosplay. Agora, encarnam juntos seus personagens favoritos. “Comecei a fazer cosplay com 18 anos. Fui aprendendo com amigos e em tutoriais na Internet. Depois que nós nos conhecemos, a coisa só melhorou”, conta Randi, vestido como o Doctor Doom (Doutor Destino) —ou seja, com uma elaborada armadura que inclui um capacete de metal que cobre todo o corpo, incluindo o rosto, além da longa capa verde. Só a armadura, feita em EVA, selada e pintada com pintura automotiva, custou 1.700 reais. Lorena transformou-se em uma das muitas versões da Batgirl, uma fantasia que viajou do Rio de Janeiro (de onde o casal é) em três caixas e duas malas. “Já tem uns oito anos que faço cosplay. Comecei fazendo com tecido, coisa básica, e agora invisto mais em acessórios grandes, armaduras, sempre uma coisa diferente”, diz ela, que é capaz de ficar um dia inteiro sem ir ao banheiro, já que o look —de 1.300 reais— não permite.

Como tanto empenho não pode ser facilmente descartado, o casal carioca guarda todas as fantasias que já usaram. “Guardamos como se fossem filhas. Elas ficam em um lugar especial da casa, já ocupamos uma sala inteira só com isso”, admite Randi.

Os curitibanos Luciana Westphal, empresária de 29 anos, e Rogério Weigbert, engenheiro de 29 anos, marido e mulher, também embarcaram juntos na onda cosplayer. “Começamos na primeira vez que viemos juntos na Comic Con, há quatro anos, e pegamos gosto pela coisa. Aí, começamos a pesquisar e a investir nisso”, conta ela. Todo ano, o casal interpreta personagens diferentes, mas sempre juntos. Dessa vez, estavam caracterizados como Mimi e Lillymon, do desenho animado Digimon. “Levamos três meses para preparar as fantasias. Sempre escolhemos personagens que nos permitam fazer toda a roupa nós mesmos. Isso é mais legal do que comprar, tem mais amor pela coisa”, diz ele, que, por viajar muito, quase não tem tempo de provar a roupa enquanto está costurando. Com elaboradas peças de cabeça e acabamento cuidado até nos detalhes, os cosplays de ambos poderiam facilmente passar por um desses de milhares de reais. Haja amor.