PANDEMIA DE CORONAVÍRUSTribuna
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A universidade pós-covid-19

Pandemia está acelerando uma crise do ensino superior que vinha de longe

Estudante se prepara para um exame em sua casa, durante a crise da covid-19.
Estudante se prepara para um exame em sua casa, durante a crise da covid-19.Marta Monzón / EFE

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O coronavírus não vai inventar uma nova universidade, mas pode acentuar sua crise e acelerar muito as mudanças que já estavam sendo cozidas há anos em fogo lento. Um dos problemas, maior ou menor segundo a universidade e país, é o aumento descontrolado das mensalidades, que obviamente deteriora a igualdade de acesso ao ensino superior. O coronavírus não criou essa tendência, mas vai exacerbá-la. Tampouco o SARS-CoV-2 inventou as aulas on-line, pois isso já era uma tendência havia um par de décadas, mas é evidente que também dará um empurrão decisivo a essa propensão.

A Universidade de Cambridge já anunciou oficialmente que as aulas magnas serão a distância, e muitas outras mudanças virão depois, mesmo que em modelos híbridos entre o digital e o presencial, como propõem algumas universidades espanholas. Isto volta a gerar questionamentos sobre a equidade, pois nem todas as famílias estão nas mesmas condições de oferecer a seus filhos os computadores, tablets e espaços domésticos necessários para se concentrar no estudo. Alexandra Witze examina estas questões na Nature.

Outro obstáculo ainda maior em longo prazo é que as faculdades sejam obrigadas a deslocar seu foco de interesse para as questões locais, nacionais e iminente. É provável que muitos tenham que trilhar esse caminho incerto e claramente aquém do ideal, estimulados pelas estreitezas financeiras e a necessidade de melhorar sua imagem diante das acusações de elitismo e do maremoto de ceticismo contra qualquer instituição pública que alimenta a cada minuto o lado sombrio da força nas redes sociais.

A ciência é a melhor ferramenta que temos e teremos para entender o mundo e nossa posição nele, os perigos que nos espreitam e suas soluções mais prováveis

Isto seria um desastre de consequências duradouras e lamentáveis. A ciência é um empenho internacional, a melhor ferramenta que temos e teremos para entender o mundo e nossa posição nele, os perigos que nos espreitam e suas soluções mais prováveis, o que vale também para as lições da História e as ferramentas para extrair um conhecimento valioso da psicologia humana e de seus agregados sociais. No dia em que as universidades se dedicarem sobretudo aos problemas do pequeno pedaço de chão que as abriga, às pragas locais e aos recursos minerais da zona ou da santa nação, aos caprichos semicultos do secretário de Educação da vez, nesse dia o avanço do conhecimento estará perdido. Isto tampouco foi inventado pelo coronavírus, mas “a pandemia está acelerando essas mudanças de forma tremenda”, como diz Bert van der Zwaan, ex-reitor da Universidade de Utrecht e autor de Higher Education in 2040: a Global Approach (“ensino superior em 2040: um enfoque global”).

Até mesmo o Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), uma das melhores universidades do mundo, que vem há 18 anos dando cursos online ― e posso atestar que são excelentes ― está cortando um doze para migrar seu materiais para uma versão on-line. A universidade está em apuros.

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