Coluna
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Só o ensino público salva o Brasil

Quando deixei meu Cariri, não havia universidade, hoje comemoro mais uma festa de formatura

Formatura na Universidade Regional do Cariri (Urca).
Formatura na Universidade Regional do Cariri (Urca).Ascom (Urca)

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Sou do tipo que chora. Batizado, casamento, mas principalmente formatura. Como é bonita a chance e o cumprimento do estudo. Pra todo mundo, universal mesmo. Imagina a oportunidade a quem só poderia se formar em escola pública. De arrepiar. Por isso comemoro aqui o diploma de mais 423 alunos da Urca, a universidade regional do Cariri, conforme leio no site “Miséria”, o jornal da minha aldeia universalíssima. A festa foi nesta quinta (08/08) e haja orgulho na gente de pequenas cidades e da roça nos arredores da Chapada do Araripe. São 12,5 mil alunos nesta escola mantida pelo governo cearense.

Sou do tipo que chora com o ensino público e gratuito e a chance para quem vem lá do mato. Na formatura da Urca, haja primos, pense num povo metido, né, ave palavra, que orgulho enquadrado na parede. Pense numa “balbúrdia”, esse povo “lá de nós”, como na bendita linguagem caririense, formada em Artes Visuais, Biologia, Ciências Econômicas, Ciências Sociais, Direito, Enfermagem, Educação Física, Engenharia de Produção, Física, Geografia, História, Letras, Matemática, Pedagogia, Teatro e Tecnologia da Construção Civil. Pense!

E mais orgulhosamente ainda vos digo: a Urca, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), viva o gênio Anísio Teixeira, tem a menor taxa de evasão universitária do Brasil, apenas 4,47%. Como a turma dá valor ao candeeiro iluminista sertões adentro. Choro um Orós inteiro e ainda derramo minhas lágrimas no Jaguaribe, rio que constava nos meus livros didáticos como o “rio mais seco do mundo”. Desculpa aí, hoje só venho com as grandezas.

Hoje, se eu pudesse, faria você também refletir com um discurso na linha do David Foster Wallace (1962-2008). Aquela sua fala como paraninfo de uma turma de formandos americanos do Kenyon College, em 2005, Gambier, Ohio. Ele escreveu uma singularíssima fábula sobre — repare só! — dois peixinhos e a água. Recomendo a leitura. O texto está no livro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (Companhia das Letras).

De Ohio ao Cariri. Além da Urca, em 2013 conquistamos (nada é de graça) a UFCA, a brava universidade federal do Cariri. Era um facho, uma fogueira, era um candeeiro, era uma lamparina, era uma luminária a gás butano, fez-se a luz, pardon matriz iluminista, perdão Paris, mas o mundo e o futuro será de um certo Cariri que peleja, aprende a preservar e estuda, somos a própria ideia viva de Patrimônio Universal da Humanidade, só falta o referendo da Unesco — escuto os mestres do Reizado ao fundo, que batuque afro-índígena-futurista.

Benvindo ao vale sagrado do Padim Ciço, de Karimai, de Bárbara de Alencar — a primeira presa política do Brasil —, do beato José Lourenço (discípulo de Conselheiro bombardeado pelos aviõezinhos da FAB), de Plácido Nuvens, de Miguel e sua irmã Violeta Arraes, do Príncipe Ribamar da Beira-Fresca, do redemoinho em dia quente chamado Jarid (nossa grandiosidade na Flip de Paraty 2019), do Sidney Rocha (se você não leu A estética da indiferença você não sabe o que é o Brasil safra 2019), de Ronaldo Correia de Brito, de Abidoral Jamacaru e de Célia Dias, do Alemberg Quindins, o cara que botou o homem Kariri no mapa-mundi junto com Rosiane Limaverde — essa grandeza eterna.

O Cariri historicamente roubado no seu tesouro de fósseis de pterossauros gigantes — alô museus da Europa! — , o Cariri da Lira Nordestina e do Stênio Diniz, gênio da xilogravura brasileira etc etc etc. Eita, esqueci até meu amigo Espedito Seleiro, como pode? Pago a deslembrança com uma cachaça na próxima visita.

Só deixo o meu Cariri, no último pau-de-arara. Qual o quê, corri léguas rodoviárias, rumo ao Recife, a bordo da viação Princesa do Agreste, ainda no comecinho dos anos 1980. Espírito beatnik, por desejo e necessidade, deixei Juazeiro — onde morava —, o Crato de nascença, a Santana (Sítio das Cobras) afetiva de infância e a Nova Olinda das primeiras letras. Seria o primeiro representante do clã (risos rurais amarcodianos) dos Sá-Menezes-Freire-Novais, família meio pernambucana meio cearense, a chegar ao ensino superior. Um Xicobrás, diria, 100% escolha pública, do primário ao campus da UFPE. Hoje tenho uma penca de primos a cada nova formatura, sem precisar sequer sair dos arredores de casa.

E pensar que não havia a ideia de universidade no meu terreiro. Nada disso do que hoje comemoro com os formandos da Urca e Ufca. E pensar que não podemos abrir mão da ideia da universidade pública brasileira, apesar de toda cegueira e todo corte — nada epistemológico — do Governo desse cara que me recuso a dizer o nome, pelo menos hoje, por mais um dia, obrigado, Senhor.

Só nos resta defender nas ruas, dia 13 de tal agosto posto, a ideia e o direito à formatura de uma gente que, a tomar pela nova ordem de Brasília, pode ficar fora do jogo de novo. Jogo desonesto. Sem sequer o direito ao VAR (olho no lance) da história. jmmmmmmmmmmmkk kkll l çnçççlllçlxsp. Eita, desculpa caro leitor, pela incompreensão da escrita, é que minha filha Irene invadiu esta crônica — tentando ver a Pepa Pig — e dedilhou involuntariamente estas mal-traçadas linhas. Feliz dia dos pais a todos.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de Big Jato (Companhia das Letras), entre outros livros. Participa da bancada de comentaristas do programa “Redação Sportv”.