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Vitória socialista na Espanha

O Parlamento que sai destas eleições permite, teoricamente, diferentes alternativas de composição de Governo, afastando a aberrante possibilidade de novas eleições, como ocorreu em 2016

O presidente do Governo Pedro Sánchez, junto à presidente do PSOE, Cristina Narbona, em reunião nesta segunda-feira
O presidente do Governo Pedro Sánchez, junto à presidente do PSOE, Cristina Narbona, em reunião nesta segunda-feira Zipi (EFE)

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), liderado por Pedro Sánchez, foi a força mais votada nas eleições gerais espanholas deste domingo e, portanto, caberá a ele em primeira instância a responsabilidade de formar o novo Governo do país. O Partido Popular (PP) e o Cidadãos, por sua vez, não obtiveram os resultados que esperavam, confiando em que a estratégia da crispação com a qual rivalizaram se traduziria em uma severa redução no apoio eleitoral aos socialistas. Pelo contrário, os populares padeceram um revés de tais proporções que ameaça a continuidade de seu líder, Pablo Casado, ao passo que o Cidadãos fracassou em sua tentativa de encabeçar a direita espanhola, apesar de ter aumentado substancialmente sua presença no Congresso. Não cabe descartar que esse resultado tenha sido influenciado pelo discurso apocalíptico que ambas as forças mantiveram desde a moção de censura contra Mariano Rajoy, assim como pelo pacto entre partidos direitistas para governar a Andaluzia, pela irrupção do Vox e pela normalização de seu programa ultradireitista.

O Parlamento que sai destas eleições permite, teoricamente, diferentes alternativas de composição de Governo, afastando a aberrante possibilidade de uma nova convocação às urnas, como ocorreu em 2016, ou de um precário Governo de minoria. Não obstante, é previsível que os diferentes grupos só se pronunciem sobre os pactos necessários após as eleições municipais e regionais de 26 de maio. Essa vinculação implícita entre os resultados deste domingo e os futuros não é o melhor cenário para a gestão efetiva das instâncias de poder central, regional e municipal, cujos problemas são singulares e específicos, mas é a única saída realista diante da composição do novo Congresso de Deputados. Também é a única posição prudente, já que a necessidade de o PSOE escolher entre uma ou outra maioria tem implicações políticas para os principais problemas espanhóis.

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Quanto a isso, o Cidadãos é a força que tem diante de si a opção mais difícil e a responsabilidade mais grave, porque, se mantiver a posição expressa asperamente durante a campanha de se recusar a compartilhar o poder com os socialistas, seus alertas sobre a unidade da Espanha se transformariam em uma profecia autorrealizada. No caso de uma aliança à esquerda entre PSOE e Podemos, a maior dificuldade reside no fato de que seus votos não bastam para dar posse ao candidato socialista, mas também nas posições diferentes das duas agremiações com relação à crise separatista na Catalunha. Nenhum dos dois caminhos pode ser descartado de antemão, sobretudo porque o calendário permite uma trégua para que a opinião pública preste mais atenção a programas que a coalizões de siglas abstratas.

A crise na Catalunha exige uma saída política, a ser encontrada inequivocamente dentro da Constituição, mas esse não é o único problema sobre o qual será preciso decidir. Sem uma resposta simultânea ao devastador desemprego juvenil, à precarização do mercado de trabalho, à desigualdade social, à luta contra a mudança climática e ao futuro da previdência, entre outras reformas imprescindíveis, um Parlamento aberto corre o risco impraticável de se transformar em um Parlamento inviável.