FMI reduz estimativa de crescimento do Brasil e atrela recuperação a reformas

Fundo também revisa para baixo perspectivas para as maiores economias da América Latina, e alerta que o crescimento na China pode surpreender para o lado negativo

Sede do Fundo Monetário Internacional em Washington.
Sede do Fundo Monetário Internacional em Washington.MANDEL NGAN (AFP)

As coisas mudaram muito na economia mundial durante o ano passado. A fraqueza na expansão na reta final de 2018 continuará no futuro imediato e é até mesmo qualificada como "precária" no grupo dos emergentes, em razão da crescente incerteza. A revisão para baixo das perspectivas apontadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) inclui as maiores economias da América Latina, apesar do fato de ainda se esperar uma recuperação em médio prazo.

A projeção para a região agora é de um crescimento de 1,4% em 2019. É um corte de seis décimos em relação à estimativa de janeiro e representa uma recuperação de apenas quatro décimos na comparação com 2018. A previsão deve ficar em 2,4% em 2020. Neste caso, é um décimo a menos do que o projetado, embora, como os técnicos ressaltam, isso dependerá do desempenho da Argentina.

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O perfil geral de crescimento para os países emergentes é complicado por vários fatores. Primeiro, há os gargalos de suas economias. Em segundo lugar, a moderação da atividade nos países avançados. Terceiro: o efeito de condições financeiras mais rígidas, bem como, em alguns casos, do elevado endividamento. E, por fim, o barateamento da energia e matérias-primas.

Começando com a maior economia da América Latina, o crescimento no Brasil irá acelerar progressivamente do 1,1% em 2018 para quase duplicar este ano, chegando a 2,1%. De qualquer forma, será quatro décimos menos robusto do que a atualização feita pela instituição dirigida por Christine Lagarde há apenas três meses. Depois, subiria para 2,5% em 2020.

O grande desafio para o Brasil, segundo o FMI, é conter o aumento da dívida pública sem que o processo de consolidação fiscal afete os gastos com programas sociais para os mais vulneráveis. A política monetária pode permanecer frouxa para apoiar a demanda doméstica, já que a inflação está próxima da meta. Também insiste na necessidade de reformas e na melhoria da infraestrutura.

Mudança política

O México experimentará uma moderação do crescimento de 2% no exercício passado para 1,6% neste. Isso representa um corte de meio ponto percentual em relação à previsão de janeiro. Depois, vai se recuperar até alcançar 1,9% em 2020, mas estará três décimos abaixo do projetado. Como no caso do Brasil, é citada uma "mudança de percepção" na direção política do país com a nova administração.

A instituição considera "essencial" que as autoridades mexicanas "evitem atrasar as reformas estruturais necessárias", porque isso criaria mais incerteza -– com o efeito que teria nos investimentos e na criação de empregos. Também recomenda manter o plano de consolidação fiscal de médio prazo para criar confiança. Na estratégia monetária, vê margem para reduzir as taxas "se for necessário".

O FMI avalia que o acordo de livre comércio entre os Estados Unidos, o México e o Canadá é um passo na direção certa que ajuda a reduzir a tensão associada ao litígio comercial. Mas lembra também que o novo USMCA – como o presidente Donald Trump o chama o Nafta – está agora sujeito ao processo de aprovação do Congresso dos EUA, onde mais e mais democratas expressam dúvidas.

A entidade alertou ainda que duas nuvens pairam sobre a economia global: o crescimento na China pode surpreender no lado negativo, e os riscos do Brexit permanecem agudos. Uma desaceleração na economia chinesa, combinada com um Brexit cada vez mais difícil, poderia causar mais incerteza, num cenário em que eles já estão jogando contra a guerra comercial e o aperto das condições financeiras em um ambiente público de alta dívida. e privado, em muitos países.

Argentina

A Argentina é neste momento a grande incógnita da América Latina. A previsão é que sua economia contraia no primeiro semestre de 2019 devido a uma moderação na demanda, embora retorne ao caminho do crescimento no segundo semestre, à medida que a renda disponível das famílias cresça e o setor agrícola se recupera do golpe da seca que sofreu no ano passado.

A previsão é de que a recessão sofrida pela economia argentina seja reduzida de 2,5% em 2018 para 1,2% em 2019, de onde passará a crescer 2,2% em 2020. "A implementação do plano de estabilização é crucial para aumentar a confiança dos investidores e restaurar o crescimento sustentado que melhore a qualidade de todos os segmentos da sociedade", assinala o FMI ao tratar dos esforços de estabilização.

A Venezuela continua sendo a maior preocupação da região. A economia vai se contrair em 25% em 2019 e 10% até 2020. No ano passado, encolheu 18%. "É um desabamento maior do que o projetado", indica o FMI, o que contribui para se tornar um transtorno para o conjunto da região. Também afeta o indicador geral de inflação, que excluindo a Venezuela, permanecerá estável nos países emergentes e em desenvolvimento.

E sempre com o caso venezuelano na mira, o relatório também menciona as perspectivas econômicas na parte relacionada ao preço do petróleo. A incerteza neste sentido é alta por causa de cortes de fornecimento e da tensão social. A linha dura dos Estados Unidos com o regime de Nicolás Maduro é outro fator que pode dar impulso à alta dos preços, além das sanções contra o Irã e a tensão na Líbia.