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Agnès Varda, diretora mítica da Nouvelle Vague, morre aos 90 anos

Realizadora de ‘Cléo das 5 às 7’, ‘As Duas Faces da Felicidade’ e ‘Visages, Villages’ acabava de apresentar seu último trabalho, ‘Varda by Agnès’

Trailer do último documentário de Agnès Varda efe

A diretora Agnès Varda morreu aos 90 anos nesta quinta-feira, 28, segundo fontes familiares citadas pela agência AFP. Há pouco mais de um mês, a mítica cineasta da Nouvelle Vague havia apresentado na Berlinale o seu último trabalho, Varda by Agnès, uma declaração de amor aos filmes, e aproveitou o festival alemão para anunciar que estava se aposentando do cinema para se dedicar às instalações artísticas. Segundo Cécilia Rose de Tamaris, sua produtora nos últimos 17 anos, a cineasta morreu em sua casa na noite de ontem, vítima de um câncer. “Na tarde desta sexta-feira ela inauguraria uma exposição em Chaumont-sur-Loire, que será aberta sem ela.”

Varda dizia sobre sua carreira: “Nunca fiz filmes políticos, simplesmente me mantive ao lado dos trabalhadores e das mulheres”. Deixa um legado de meia centena de obras audiovisuais e várias instalações artísticas. Em Varda by Agnès, dava uma lição de cinema e repassava a sua vida artística usando as conferências que havia proferido mundo afora nos dois anos anteriores, porque também se aposentava dessas palestras. “Nunca quis dizer nada, mas para quem se interessar, fica aí”, afirmou ela em Berlim. Varda contava na tela que, se teve uma carreira longa, foi graças aos seus três pilares para fazer cinema: “Inspiração, criação e compartilhar o resultado”. Assim explicava o sucesso de filmes como Cléo das 5 às 7 (1962), As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur, 1965), o documentário Black Panthers, sobre os Panteras Negras – que realizou em 1968, quando ela e seu marido, Jacques Demy, viveram em Los Angeles –, Uma Canta, a Outra Não (1977) e Os Renegados (1985), Leão de Ouro no Festival de Veneza.

A cineasta soube utilizar os avanços tecnológicos e foi uma das primeiras a filmar com câmeras digitais: “Certamente, por meu estilo documental, sou grata pela chegada das câmeras digitais. Por seu tamanho e manejo, por sua facilidade para serem escondidas, me ajudaram muitíssimo”. Assim, virou documentalista de referência com Os Catadores e Eu (2000), Os Catadores e Eu: Dois Anos Depois (2002), As Praias de Agnès (2008) e Visages, Villages (2017). “O documentário coloca você a serviço dos personagens. O cineasta se transforma assim em um intermediário entre os personagens e o público.”

Nascida em Bruxelas em 30 de maio de 1928, com o nome de Arlette Varda, seu pai procedia de uma família de refugiados gregos, e sua mãe era francesa. Estudou História da Arte na École du Louvre e começou a trabalhar como fotógrafa no Théâtre National Populaire (TNP) de Paris. Gostava da fotografia, mas estava mais interessada no cinema. E por isso, depois de filmar na localidade pesqueira de Sète por encomenda de um amigo, decidiu em 1954 realizar seu primeiro filme, La Pointe-Courte, que narrava a história de um casal triste e sua relação naquela cidadezinha. Para filmar “é preciso paciência”, dizia Varda, e sempre saía com a câmera na rua, “porque nada é banal se você filmar com empatia e amor”. E em Berlim recordou os dois elementos que a inspiravam: as praias – sempre presentes em seu cinema, já que contêm os três elementos, com a areia, o céu e o mar – e as batatas, um descobrimento mais do século XXI.

Casou-se duas vezes: a primeira com diretor de teatro Antoine Boursellier com quem teve uma filha em 1958, Rosalie Varda, diretora artística e produtora de Varda by Agnès. Em 1962 uniu-se a Jacques Demy, a quem acompanhou até sua morte, em 1990. Prestou-lhe várias homenagens fílmicas: em Jacquot de Nantes (1991) ilustrava a infância de Demy, e voltou ao seu universo em Les Demoiselles Ont Eu 25 Ans (1993) e L’Univers de Jacques Demy (1995). Desse matrimônio nasceu o ator Mathieu Demy.

Ganhadora do Oscar honorário no mesmo ano em que competiu ao Oscar de melhor documentário com Visages, Villages (2017), sua obra anterior, a realizadora belga dizia que a virada de século significava também sua virada de campo artístico: “Se vocês prestarem atenção, minha carreira se divide em duas partes, a do século XX e a do XXI. Na primeira sou mais cineasta; na segunda, artista plástica”. Para Varda, “os filmes não param o tempo, o acompanham”. No festival de San Sebastián, recebeu o primeiro prêmio Donostia dedicado a um não ator. Além disso, ganhou a Palma de Ouro Honorária de Cannes, em 2015, e o César Honorário do cinema francês, em 2001 (além de outros dois desses prêmios como documentarista).

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