Seleccione Edição
Login

As horas mais difíceis de Shakira

Cantora enfrenta processo penal por fraude fiscal e é criticada por sua posição branda em relação à Venezuela

A cantora Shakira, durante sua turnê.
A cantora Shakira, durante sua turnê. GTRES

O mundo idílico no qual aparentemente Shakira se move com seu marido, Gerard Piqué, e seus dois filhos, Milan e Sasha, foi sacudido nesta semana com duas notícias que puseram a cantora contra as cordas. Um tribunal de Esplugues (Barcelona) aceitou uma denúncia da Procuradoria contra ela por seis crimes de fraude fiscal e, como primeiro passo na investigação, intimou-a a depor. A artista enfrenta um processo penal por ter sonegado, supostamente, 14,5 milhões de euros (62 milhões de reais) por meio de empresas em paraísos fiscais. Por outro lado, ela é alvo de uma enxurrada de críticas por não ter participado do show organizado em fevereiro em Cúcuta (Colômbia), na fronteira com a Venezuela, contra o bloqueio, pelo regime de Nicolás Maduro, da entrada de ajuda humanitária no país. Shakira, tão presente em outras causas, limitou-se desta vez a divulgar um vídeo de apoio por suas redes sociais, em vez de estar ao lado de seus amigos e colegas Alejandro Sanz, Miguel Bosé, Paulina Rubio, Juanes, Maluma e Carlos Vives.

Não parece ter sido por acaso que Shakira se afastou dos holofotes da mídia desde que, no fim de dezembro, vieram à tona seus problemas com a Receita. Isso coincidiu também com o fim da turnê mundial da cantora, a primeira depois do nascimento de seus dois filhos. Shakira leva uma vida caseira em Barcelona e não fez nenhuma declaração sobre o caso. O processo penal por fraude fiscal não só pode levá-la à prisão em caso de condenação, como também significará uma longa exposição pública —que terá, como primeiro e principal ato, seu depoimento como investigada ante uma juíza em 12 de junho. Será em Esplugues de Llobregat, a localidade em que vive com Gerard Piqué e os dois filhos do casal. Shakira deverá se deslocar da zona residencial —de classe alta e não muito longe do complexo esportivo do Barça— até as ruas mais estreitas do centro da cidade, onde ficam os tribunais de instrução. Trata-se de um edifício velho e modesto, no qual se acumulam dossiês de papel e a Justiça digital parece uma quimera.

O pesadelo judicial de Shakira começou na sede da Agência Tributária, onde seus representantes não puderam selar um pacto com os investigadores para deixar o assunto na esfera administrativa. Depois de analisar o caso por muitos meses —durante os quais houve intensas negociações—, a Procuradoria viu indícios de delito e denunciou a artista por seis crimes fiscais. Segundo fontes da defesa, os 14,5 milhões de euros supostamente sonegados já foram devolvidos. O que não impede, é claro, que as engrenagens da Justiça sigam em marcha.

As celebridades envolvidas nesse tipo de crime costumam tentar acertar acordos com a Procuradoria para evitar o julgamento e, com isso, livrar-se de uma maior exposição pública que possa influir negativamente em suas carreiras. Em troca de que o acusado reconheça os fatos e abra generosamente o bolso, a Procuradoria reduz a pena que havia pedido inicialmente. O problema no caso da cantora colombiana é que, sendo acusada de seis crimes e com um suposto esquema de empresas em paraísos fiscais, ficar abaixo do limiar de dois anos de condenação —o que permite, teoricamente, evitar que o condenado seja efetivamente preso— é complicado. A defesa já trabalha com todos os cenários para tentar obter o melhor resultado possível, e seus porta-vozes insistem na mensagem: Shakira deixou tudo nas mãos de seus assessores, principalmente da Price Waterhouse Coopers. Em seu depoimento em Esplugues, a cantora será acompanhada por seu advogado e pessoa de confiança em todos estes anos, Ezequiel Camerini, que também vai depor como investigado.

Os técnicos da Receita começaram a rastrear a vida de Shakira quando suspeitaram que estava sonegando impostos na Espanha. Embora a cantora tenha alegado que residia nas Bahamas, as autoridades procuraram comprovar que, pelo menos desde 2011, seu domicílio habitual já estava na Espanha, o que a obrigava a pagar impostos no país. Para isso, visitaram os estabelecimentos comerciais aos quais ela ia com certa frequência, como um cabeleireiro em Barcelona. E também seguiram com atenção sua atividade em redes sociais como o Instagram. O trabalho de campo deu resultado e é, em parte, o que sustenta o processo criminal contra a cantora.

Além das consequências penais e de imagem, estão as econômicas. Shakira pagou 20 milhões de euros (85,6 milhões de reais) para acertar as contas com a Receita relativas ao exercício de 2011. Trata-se de um ano já prescrito, mas a defesa ressalta que essa quantia foi paga porque isso tem de ser feito para poder discutir posteriormente os outros valores com a Receita. Os outros anos sob suspeita (2012-2014) estão incluídos no processo e já levaram ao pagamento provisório de 14,5 milhões de euros.

O dinheiro não parece ser um problema para Shakira, que tem uma grande carreira profissional e um enorme patrimônio, que alguns veículos de comunicação especializados calculam em mais de 200 milhões de euros (856 milhões de reais). Também não parece ser um problema para Piqué, que, além de continuar sendo um destaque do Barcelona, está cada vez mais mergulhado no mundo dos negócios. O último é como promotor da nova Copa Davis de tênis. O casal também se interessa pelo mundo da tecnologia e já manteve reuniões com Mark Zuckerberg.

O que parece ter mudado é a atitude de Shakira, que, na encruzilhada, afirma estar disposta a colaborar. Isso é o que seus porta-vozes garantem.